Jeenah Moon para The New York Times
Jeenah Moon para The New York Times

Prescrição para o desenvolvimento: deixe a criança brincar

Médicos explicam a importância do fortalecimento das habilidades por meio da “descoberta prazerosa”

Perri Klass, The New York Times

22 Setembro 2018 | 11h00

O quadro mais famoso sobre crianças brincando é “Jogos de Crianças”, de Pieter Bruegel o Velho, de 1560, que mostra a praça de uma aldeia na qual crianças, desde bebês que engatinham a adolescentes, se entretêm em brinquedos atemporais. Elas são as únicas da aldeia, e suas atividades oferecem uma espécie de taxonomia da brincadeira.

Mas alguns temem que a nossa cultura atual seja menos favorável ao brincar, e que as crianças não estejam mais tendo a chance de explorar todas as suas possibilidades.

A Academia Americana de Pediatria, em uma declaração de sua política divulgada recentemente, caracteriza o jogo como uma atividade intrinsecamente motivada, que implica o engajamento ativo e resulta em uma “descoberta prazerosa”. 

O documento resume uma ampla pesquisa sobre o desenvolvimento, inclusive neurológico, por meio da brincadeira, e tenta destrinchar algumas das descobertas específicas sobre o desenvolvimento em jogos de esconde-esconde (jogos repetitivos proporcionam “a alegria de poder prever o que irá acontecer”) e ‘Simon Say’ (Simon manda - que constrói o controle do impulso e a função executiva). Também afirma que os médicos deveriam encorajar o aprendizado pelo brincar para pais e bebês por meio de uma “prescrição específica” em todas as consultas de controle das crianças, até os dois primeiros anos de vida.

“Com a brincadeira, as crianças desenvolvem suas habilidades para o século 21”, disse o dr. Michael Yogman, autor principal da declaração e diretor de divisão de pediatria ambulatorial no Mount Auburn Hospital de Massachusetts. Entre elas, há a habilidade socioemocional e função executiva, “habilidades cruciais para os adultos na nova economia, que os ajuda a colaborar e inovar”.

Uma tarefa fundamental dos cuidados médicos primários é fortalecer a relação pais-filhos, ele disse, e a brincadeira é importante também nesta área.

"Quando um bebê de 3 meses sorri e os pais sorriem em resposta, este tipo de atividade, que implica revezamento, está longe de ser trivial”, explica. Na realidade, é importante para o desenvolvimento da linguagem e da habilidade socioemocional, como esperar a própria vez.

Pesquisas recentes mostram que brincar pode influenciar o cérebro em desenvolvimento, tanto em sua estrutura básica quanto em sua função, com mudanças que podem ser atribuídas à atividade e que se revelam no plano molecular e celular.

O aprendizado prazeroso significa apoiar a motivação intrínseca da criança para o aprendizado. O que os pais precisam fazer, disse o dr. Benard Dreyer, diretor de pediatria do desenvolvimento e do comportamento na New York University School of Medicine, é estar ao lado dos filhos para ajudá-los com “andaimes”. Isto significa “que você não controla a brincadeira para o seu filho, mas que o apoia quando vê que ele está prestes a passar para o estágio seguinte”.

Há temas cruciais subjacentes que conectam todas estas diferentes ideias: a importância de interagir com as crianças, responder às suas indicações e perguntas, o valor do ultrapassado cara a cara com os pais e os seus pares, e a importância de ajudar os filhos a descobrir uma variedade de experiências que não se referem apenas a telas e ao tempo diante do computador.

“A brincadeira é a parte mais importante da infância”, disse o dr. Dreyer. “É por meio dela que as crianças se desenvolvem em termos emocionais, cognitivos e da linguagem”.

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