Jon Chol Jin/Associated Press
Jon Chol Jin/Associated Press

Presenteando com metanfetamina para celebrar o Ano-Novo

Na Coreia do Norte, a falta de acesso ao sistema de saúde contribui para o uso de opiáceos e estimulantes derivados da anfetamina

Mike Ives, The New York Times

24 de fevereiro de 2019 | 06h00

HONG KONG - Como tantos outros no Leste da Ásia, os norte-coreanos estão trocando presentes este mês para celebrar o Ano Novo Lunar. Mas, em vez de oferecer chá, doces ou peças de roupa, alguns nesse país isolado e empobrecido estão presenteando uns aos outros com metanfetamina.

Diz-se que o hábito de usar e oferecer como presente a metanfetamina, um poderoso estimulante apontado como responsável por crises de saúde e vício em todo o mundo, é um costume já estabelecido na Coreia do Norte. Aparentemente, os usuários injetam ou cheiram a droga tão casualmente como quem fuma uma cigarro, pouco alertas para seus efeitos destrutivos.

"Até recentemente, a metanfetamina era vista dentro da Coreia do Norte como uma espécie de estimulante poderosíssimo - algo como um energético superpotente", disse Andrei Lankov, estudioso da Coreia do Norte na Universidade Kookmin, em Seul, Coreia do Sul. Essa concepção equivocada deu margem a um "risco significativamente subestimado" dos males decorrentes do abuso da droga no país.

A metanfetamina foi introduzida na Península Coreana durante o período colonial japonês e, desde os anos 1970, muitos diplomatas norte-coreanos foram detidos no exterior acusados de envolvimento com o tráfico de drogas.

Nos anos 1990, a Coreia do Norte começou a fabricar metanfetamina para exportação, cerca de duas décadas depois de começar a apoiar o cultivo local do ópio e a exportação de opiáceos, de acordo com estudo da cientista política Sheena Chestnut Greitens, da Universidade do Missouri. A metanfetamina era habitualmente enviada pela fronteira com a China, ou despachada por via marítima nas mãos de organizações criminosas como as tríades chinesas ou a yakuza japonesa.

Mas, mais ou menos em meados da década de 2000, a produção de metanfetamina patrocinada pelo governo começou a diminuir, de acordo com o estudo. Isso resultou na disponibilidade de pessoas capacitadas para a produção da metanfetamina, e muitas delas começaram a vender para o mercado local.

Em meio a uma escassez crônica de acesso ao sistema de saúde na Coreia do Norte, muitos recorrem aos opiáceos e aos estimulantes derivados da anfetamina como possíveis alternativas medicinais, disse Sheena.

Faz tempo que o governo norte-coreano nega o uso e a produção de metanfetamina por parte de seus cidadãos. Mas especialistas dizem que o costume de oferecer metanfetamina como presente na Coreia do Norte - onde a substância é conhecida como "pingdu", transliteração coreana da palavra chinesa para "droga do gelo" - é essencialmente uma prática aberta e muito popular principalmente entre os jovens do país.

Ainda que a metanfetamina seja ilegal na Coreia do Norte, como tantas outras atividades econômicas privadas no país, na prática a droga se tornou legal "porque as autoridades recebem subornos para fechar os olhos e porque o estado é indiretamente beneficiado por uma cadeia alimentar de subornos que chegam até os altos escalões", disse o cientista político Justin Hastings, da Universidade de Sydney, na Austrália.

Greg Scarlatoiu, diretor-executivo do centro de estudos estratégicos americano Comissão de Defesa dos Direitos Humanos na Coreia do Norte, disse que o governo do líder norte-coreano Kim Jong-un estava concentrado todos os seus recursos em prioridades como o desenvolvimento de mísseis e garantir às elites domésticas o acesso a bens de luxo.

"Enquanto o uso de drogas não representar uma ameaça para o regime, em vez disso nublando a vontade e a consciência dos norte-coreanos, a prática será tacitamente permitida pelo governo", disse Scarlatoiu.

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