Erik Vance/The New York Times
Erik Vance/The New York Times

Lêmures ameaçados de extinção encontram um refúgio particular em Madagascar

As mudanças climáticas estão mudando hábitos de algumas espécies, forçando conservacionistas a pensarem em soluções fora dos limites de parques tradicionais

Erik Vance, The New York Times – Life/Style

12 de novembro de 2020 | 05h00

SAMBAYA, MADAGASCAR – Um dos melhores lugares da Terra para o estudo do mundo natural era Madagascar. 70% de suas espécies não se encontram em nenhum outro lugar – a maior concentração de vida selvagem endêmica. Somente nos últimos dez anos, os cientistas descobriram neste país 40 novos mamíferos, 69 anfíbios, 61 répteis, 42 invertebrados e 385 plantas. Seus parques são destinos de ecoturismo e motivo de orgulho nacional.

Com a maior concentração de espécies ameaçadas, o Madagascar é também um dos principais ambientes para o estudo da extinção. No ano passado, o país perdeu a maior porcentagem de floresta primária, tornando-se um dos lugares mais desmatados da Terra. Desde 2012, a União Internacional para a Conservação da Natureza afirmou que os lêmures, encontrados somente no Madagascar, são o grupo de animais mais ameaçados, ou seja, 95% entre ameaçados ou prestes a se extinguir.

A caça ilegal, a agricultura, a produção de carvão vegetal e o desmatamento ilegal ameaçam constantemente a fauna local. O outro perigo é a mudança climática. No Madagascar e no mundo todo o aumento das temperaturas ameaça expulsar a fauna selvagem das áreas de conservação criadas para protegê-la.

A terra que eles reservaram ontem talvez não sirva amanhã, exigindo que os cientistas pensem em algo fora dos limites dos parques tradicionais. “Os parques e amplas extensões de terra são fundamentais para a preservação destes animais", segundo Timothy Male, diretor executivo de um grupo de estudiosos de Washington chamado Centro de Inovação de Política Ambiental. Mas, acrescentou o estudioso, pequenos parques locais “tendem a ser o local onde há muito dinamismo”.

Pensando fora da caixa

Na região de Sambaya, no norte de Madagascar, existem amplos parques nacionais e uma rede crescente de reservas administradas pelas autoridades locais. Há dezenas de anos, muitas florestas eram protegidas simplesmente por suas montanhas, aparentemente demasiado íngremes para o cultivo do solo.

Mas nos últimos cinco anos, os preços da baunilha, que cresce abundantemente nas encostas, decuplicaram para US$ 300 a libra (450 gr), provocando uma verdadeira corrida às terras montanhosas. Erik Patel, primatologista da Lemur Conservation International, e Desiré Vabary, gerente da organização, estão tentando documentar como muitos lêmures permanecem na região e onde se encontram, às vezes, apenas um indivíduo da espécie.

Em agosto de 2019, eles planejaram uma expedição para Antohakalava, um parque particular duas vezes o tamanho do Central Park de Nova York. Patel ouviu dizer que nele se encontravam três espécies de lêmures extremamente ameaçadas. “Estes animais são realmente sensíveis”, disse Patel.

“Seria muito importante poder protegê-los onde se encontram”. Patel sonhava estudar os grandes símios da África, como Jane Goodall ou Frans de Waal fizeram, mas se encantou com os lêmures no final dos anos 1990 e desde então trabalha no Madagascar. Rabary é um conservacionista completo, biólogo e guia. Originalmente criador de porcos, criou uma reserva de 18 hectares no seu quintal, ao longo de 20 anos, comprando alguns hectares de cada vez.

Ambos disseram que os problemas mais sérios em matéria de conservação hoje estão fora das grandes áreas protegidas, como o vizinho Parque Natural Makira, uma floresta tropical maior do que o Parque Natural Yosemite. Embora estes sejam refúgios cruciais, disse Patel, a metade dos lêmures raros remanescentes, inclusive o sifaka-sedoso, o indri e o varecia, foi obrigada a encontrar parques menores menos intocados para a sua sobrevivência.

Como os habitats mudam de acordo com o clima, estas populações marginais podem tornar-se tão importantes para a sobrevivência da espécie quanto as dos grandes parques. Male, do Centro de Inovação de Política Ambiental, destacou o exemplo da borboleta azul de Karner, que outrora se espalhava pelos Estados Unidos, mas ficou reduzida a duas pequenas populações na Nova Inglaterra e em Wisconsin.

Na tentativa de salvar a espécie, os biólogos se concentraram na população de Wisconsin que era maior, e durante muitos anos deixaram de lado a pequena da Nova Inglaterra. Em lugar de morrer, a pequena população cresceu. “Quem poderia imaginar?”, disse Male. “E inclusive a população da Nova Inglaterra fica em um aeroporto. Literalmente no fim de uma pista”. Patel espera que os lêmures do norte de Madagascar possam existir do mesmos modo, em pequenos grupos e preservando sua diversidade genética contra todas as probabilidades.

O parque é pequeno, mas o potencial é grande

A caminhada até Antohakalava leva três dias através de aldeias, plantações de arroz e baunilha. Vista de longe, a terra parece bastante arborizada e verde, um lugar selvagem intocado para os lêmures. De perto, as árvores são em geral atrofiadas, invadidas por um emaranhado de capim, arbustos e mato invasivo. Onde outrora cresciam enormes florestas, a terra foi limpa para pastagens ou produção de carvão.

A floresta de Antohakalava, por outro lado, é um refúgio, os morros recobertos de árvores frondosas enormes e de ébano, drapeadas de bromélias e musgos. Aranhas, lagartos, aves e rãs estão em toda parte. Pouco antes de preparar o acampamento, uma buzina distante fez Rabary sorrir. “É um varecia.”

Os sifakas-sedosos são exigentes com o seu habitat, mas Patel disse que ficou surpreso ao ver onde eles conseguem sobreviver. No ano passado, ele encontrou sifakas ocupando estreitas fileiras de árvores perto de fazendas. Em comparação, Antohakalava é um paraíso para os lêmures.

O proprietário de Antohakalava é Ratombo Jaona, um negociador de baunilha. Ratombo adquirira a terra dez anos antes para plantações de baunilha, mas logo percebeu que cortar a floresta primária tão perto de Makira poderia chamar a atenção indesejada do governo.

Então considerou a possibilidade de adotar o ecoturismo. Poucas pessoas estão dispostas a caminhar por três dias para ver os tímidos lêmures. Mas se a façanha pudesse interessar cientistas como Patel, poderia cobrir o custo dos guardas florestais de Ratombo. Patel paga sem reclamar para fazer pesquisa no parque e contrata carregadores locais, na esperança de estabelecer um relacionamento que possa mostrar a Ratombo e a outros proprietários de terras que vale a pena proteger os lêmures.

Ao contrário de qualquer outro lugar na região, o parque de Ratombo não tem problemas com a caça ilegal; os caçadores locais de animais selvagens para consumo têm medo de encontrar o homem que compra a sua baunilha. Uma dinâmica semelhante ocorre em muitos países em desenvolvimento: os caçadores ilegais muitas vezes se sentem mais à vontade caçando em grandes parques patrocinados por organizações governamentais estrangeiras ou administradas por governos menos importantes do que na terra de vizinhos poderosos.

“A terra particular é melhor para o futuro da conservação do lêmure”, disse Jonah Ratsimbazafy, presidente de uma ONG chamada Madagascar Primate Research Group, importante especialista em lêmures no país, afirmou. “O Estado não tem recursos suficientes para pagar a equipe e não existem normas rigorosas e polícia”.

“Sequer posso pensar em outra floresta que tenha todos os três tipos de lêmures ameaçados”, disse Patel referindo-se a Antohakalava. “Vimos muitos benefícios proporcionados por estes parques particulares menores, que praticamente estão corrigindo as falhas. Estas pessoas parecem querer de fato proteger a terra. E aparentemente este modelo está se espalhando”. / TRADUÇÃO DE ANNA CAPOVILLA

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