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A visão maori do futuro da Antártida

Os maoris podem ter sido os primeiros a chegar à Antártida, no século 7. Mas o passado importa menos do que o futuro, afirmam estudiosos indígenas

Sabrina Imbler, The New York Times - Life/Style, O Estado de S.Paulo

04 de setembro de 2021 | 05h00

O viajante Hui Te Rangiora, conta a história, navegava com seu barco rumo ao sul, no início do século sete, em busca de novas terras quando algo apareceu no horizonte. Ele viu enormes cumes áridos brotando do mar. Viu formas desconhecidas nas ondas: tranças ondeando na superfície, animais que mergulhavam até grandes profundidades e mares de pia, nome polinésio para um tubérculo branco chamado araruta. Hui Te Rangiora navegara em sua embarcação dos trópicos até a Antártida

O etnólogo Stephenson Percy Smith chegou a esta conclusão em 1899, quando escreveu a respeito desta lenda da Polinésia em uma história do povo maori, os primeiros habitantes polinésios da Nova Zelândia. Smith identificou as rochas áridas como icebergs, as tranças agitadas como algas de touro e o animal que mergulhava a grande profundidade como um leão marinho ou morsa. Talvez a evidência mais convincente seja o termo da narrativa usado para 'oceano de gelo': Te tai-uka-a-pia, em que ‘tai’ significa mar, ‘uka’ gelo, e ‘a-pia’ significa’ como a araruta’. “Quando arranhada, a polpa da araruta parece neve. Portanto, da perspectiva de Hui Te Rangiora os icebergs talvez parecessem montes de araruta em pó.

“É fascinante imaginar o que devem ter parecido estas coisas, para tentar torná-las familiares para nós”, disse Krushil Watene, especialista maori em filosofias indígenas na Universidade Massey de Auckland. A dra. Watene é a autora de dois estudos publicados recentemente, com Priscilla Wehi, bióloga conservacionista da Universidade de Otago, na Nova Zelândia, que explora os laços históricos e futuros entre os povos indígenas e a Antártida.

O primeiro estudo, publicado na revista Journal of the Royal Society of New Zealand, vasculhou os arquivos literários, orais e artísticos em busca de relatos históricos dos maori nas regiões da antártica e subantártica. O segundo, publicado na revista Nature Ecology and Evolution, olha mais longe, propondo uma abordagem indígena para a administração e a conservação do continente mais ao sul da Terra.

As autoras esperam aplicar à Antártida o princípio maori do kaitiakitanga, o conceito de guarda e administração do meio ambiente. As suas sugestões preveem que sejam ouvidas mais vozes indígenas na governança antártica e a concessão de uma personalidade legal à Antártica.

“Não se trata simplesmente de saber quais humanos foram os primeiros a chegar na Antártida”, disse a dra. Wehi. “Na realidade, trata-se destas linhagens que continuaram por muitas centenas de anos e continuarão no futuro”.

As autoras realizaram seminários virtuais com a finalidade de reunir os pesquisadores e a comunidade maori para discutir esta história. Os participantes compartilharam de histórias que expandiram o conhecimento das narrativas existentes, como a de Hui Te Rangiora, e revelaram novas, disse a dra. Watene. A equipe analisou também esculturas tradicionais.

Os pesquisadores descobriram muito mais conexões do que o esperado na história mais recente. Em 1840, o marinheiro maori Te Atu tornou-se o primeiro neo-zelandês a avistar a costa antártica a bordo de uma expedição dos Estados Unidos nos oceanos do sul. Perto da virada do século 20, marinheiros maoris foram recrutados em expedições para a caça das baleias por sua habilidade com os arpões. E, de 1950 em diante, três maoris participaram do Programa da Antártida Neo-Zelandesa.

Em 2013, Fayne Robinson, um entalhador ngai tahu, entalhou uma coluna chamada Te Kaiwhakatere o te Raki, que se traduz como “navegador dos céus”, na Base Scott, uma estação de pesquisa da Antártida da Nova Zelândia. A coluna comemora os exploradores que se aventuram no continente.

A dra. Watene espera que esta história possa constituir um elemento mais forte para a futura administração indígena da Antártida. Os pesquisadores pedem uma maior presença indígena no governo da Antártida, como parcerias como a Coalizão do Oceano Antártico e Meridional, uma aliança internacional de organizações que trabalham para a conservação. Eles sugerem que se aumente a visibilidade da relação antártica maori em cidades de entrada como Christchurch, na qual as pessoas param antes de prosseguir viagem mais ao sul.

“É uma oportunidade real de informar as pessoas e para os habitantes destas cidades apresentarem a sua visão da Antártica.” disse a dra, Wehi.

A proposta mais ambiciosa das autoras seria a concessão de uma personalidade legal à Antártida, dando à formação natural os mesmos direitos de um ser humano. Esta conservação tática foi bem-sucedida no caso do Rio Whanganni na Nova Zelândia, do Rio Atrato na Colômbia e de todos os rios em Bangladesh.

Jacqueline Beggs, uma ecologista da Universidade de Auckland, observou que, embora os maoris sejam um dos povos indígenas mais próximos da Antártida, ela espera que outros povos nativos possam também influir no futuro do continente.

“Enquanto comunidade global, todos nós temos uma responsabilidade como guardiões kaitiakitanda daquele espaço especial”, disse a dra. Beggs, “para garantir que as gerações futuras se encarreguem de preservá-la”. / TRADUÇÃO DE ANNA CAPOVILLA

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