Daniele Volpe para The New York Times
Daniele Volpe para The New York Times

Presidente da Guatemala é obstáculo em combate à corrupção no país

Jimmy Morales figura entre poderosos acusados de crimes que agora empreendem uma campanha para esmagar o movimento contra a impunidade

Elisabeth Malkin, The New York Times

24 de maio de 2019 | 06h00

CIDADE DA GUATEMALA - Detidos no paupérrimo alojamento de uma base militar, membros da antes intocável elite guatemalteca planejam seu retorno ao poder. Ex-presidentes e ministros, deputados, juízes e empresários, todos acusados em uma batalha contra a corrupção que já dura anos, passam o tempo ocioso cuidando do jardim, tocando violão, estudando inglês, fazendo churrasco - e empreendendo uma campanha para esmagar o movimento de combate à corrupção que os colocou na cadeia.

Seu alvo é uma comissão de investigadores internacionais, trabalhando em parceria com promotores da Guatemala e com apoio das Nações Unidas, que comandou uma das lutas de combate à corrupção mais eficazes da América Latina. Os acusados têm um poderoso aliado no presidente da Guatemala, Jimmy Morales.

Ele fez campanha como reformista, mas mudou de lado quando ele e sua família foram acusados de envolvimento nos crimes. Desde então, a ofensiva ganhou força, ameaçando o estado de direito, disse Iván Velásquez, diretor da comissão, conhecida como Comissão Internacional contra a Impunidade na Guatemala, ou Cicig, na sigla em espanhol.

“Os empresários acusados, os deputados, magistrados da suprema corte, o governo inteiro: seu objetivo é garantir a impunidade", disse Velásquez. “Para tanto, eles precisam se manter no controle do estado.” Agora, com eleições presidenciais se aproximando em junho, os prisioneiros e seus aliados estão conspirando para sequestrar o resultado das urnas e garantir que a Cicig seja encerrada de vez.

A decisão tomada por um tribunal guatemalteca no dia 15 de maio aproximou esse objetivo da realidade: Thelma Aldana, a única entre os candidatos mais conhecidos a defender a Cicig, foi impedida de disputar o pleito. A eliminação de Thelma da corrida torna quase certo que a Cicig deixará o país quando seu mandato chegar ao fim, em setembro, disse Alexander Aizenstatd, advogado constitucional.

O movimento de combate à corrupção é tão popular entre os guatemaltecas que o candidato eleito não poderá acabar com a Cicig imediatamente, disse Aizenstatd, mas ele alertou que uma substituta pode carecer de autoridade real para o policiamento. Desde a sua criação, a Cicig processou mais de 100 casos, apresentando acusações contra cerca de 700 pessoas.

Para os países vizinhos, o trabalho da comissão começa a ser visto como modelo a ser seguido. Em Honduras uma comissão semelhante revelou casos de corrupção entre o legislativo. O presidente eleito de El Salvador propôs uma versão da Cicig e o presidente do Equador criou este mês uma comissão de combate à corrupção.

Mas os desafios enfrentados pelos promotores no país indicam como podem ser frágeis os ganhos contra a corrupção - não apenas na Guatemala, mas em boa parte da América Latina. A crescente indignação pública em relação à corrupção e à incompetência no governo ajudaram a fortalecer investigadores que depuseram presidentes e detiveram executivos e empresas.

Na Guatemala, os opositores argumentam que o envolvimento de estrangeiros nas investigações enfraquece a soberania do país e que, acima de tudo, o processo foi apropriado pela política. “Sinto-me como um refém político", disse Carlos Vielmann, ex-ministro do interior. Ele ajudou a trazer os promotores internacionais - e então se tornou réu em um dos casos deles. Depois de passar seis meses detido, foi libertado esse mês após o pagamento de fiança.

Em agosto, Morales anunciou que não renovaria o mandato de dois anos da Cicig. Expulsou Velásquez em setembro e, quatro meses mais tarde, declarou que a Guatemala estava recuando do acordo. Quando essa ordem foi anulada pelo tribunal constitucional da Guatemala, os opositores tentaram o impeachment de três juízes cujo voto protegia a Cicig. Por enquanto, a Cicig continua trabalhando. Esse mês, eles acusaram o ministro da economia de Morales, um candidato à presidência e seus legisladores de terem conspirado para a compra de votos no congresso entre 2012 e 2015. Todos negaram as acusações.

Com a aproximação das eleições, organizadores políticos se resignaram diante da ideia de que será necessário muito mais do que um novo presidente para vencer as estruturas do poder. “Não é fácil mudar uma dinâmica que existe há séculos", disse Álvaro Montenegro, ativista do combate à corrupção. “Não vai acontecer de um dia para o outro. Mas a mudança virá.” / TRADUÇÃO DE AUGUSTO CALIL

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