Sima Diab para The New York Times
Sima Diab para The New York Times

Presidente do Egito quer obrigar população a pintar suas casas

A medida de Sisi, que deve ser custeada pelos próprios moradores, tem o objetivo de esconder as mazelas da capital do país

Declan Walsh, The New York Times

13 de março de 2019 | 06h00

CAIRO - Se as famosas pirâmides de Gizé são o epítome do Antigo Egito, a estrada caótica que leva os turistas até o complexo oferece o sabor autêntico do moderno Egito.

O Anel Viário, uma rodovia asfaltada de 110 quilômetros corroída pela erosão, é a via expressa dos subúrbios do Cairo. Automóveis caindo aos pedaços e ônibus superlotados precipitam-se pela estrada, costurando perigosamente entre as oito faixas. Os acidentes fatais são frequentes, os tiroteios nem tanto.

Mas é a vista de quem trafega pelo Anel Viário que mais preocupa o presidente Abdel Fattah el-Sisi: as construções grosseiras de tijolos vermelhos cobertas de sujeira aos lados da estrada que mergulha na direção das ashwaiyat, as favelas onde mora a maioria dos 22 milhões de habitantes da Grande Cairo. Em janeiro, el-Sisi ordenou que todos os edifícios deste tipo no país fossem pintados de uma cor uniforme. Do modo como estão, eles não parecem pertencer ao mundo civilizado, declarou o primeiro-ministro Mostafá Madbouly.

Recentemente, Muhammed Circa, morador de uma das casas de tijolos vermelhos, tomava seu chá no escritório apertado no primeiro piso de um amigo advogado, diante do Anel Viário. Ele fazia ponderações a respeito do grande plano de el-Sisi de embelezar seu bairro mal conservado.

"Isso nunca vai funcionar", declarou. Circa está insatisfeito com o projeto que obrigará os moradores a fazer e a pagar do próprio bolso pela pintura.

El-Sisi explicou repetidas vezes aos egípcios que estão acima do peso, aconselhando-os a fazer mais exercício. Seu desejo de uma reforma surgiu claramente de uma visita ao Grande Museu Egípcio, um projeto de US$ 1,1 bilhão em construção nas proximidades das pirâmides. A inauguração, ele planeja, terá um espetáculo de gala no próximo ano, com a participação de líderes mundiais, mas antes disso, o presidente pretende passar o Cairo a limpo.

Entretanto, a principal preocupação de Circa não são as pirâmides, mas seus primos menores: as miniaturas de pedra de esfinges, faraós e pirâmides que ele esculpe. Desde a Primavera Árabe de 2011, o turismo caiu e o preço da pedra que ele utiliza triplicou. "Sisi oprime demais o povo", queixou-se. "Ele tenta levantar o Egito lá em cima, mas esquece de olhar para baixo, para as pessoas comuns".

Os amigos de Circa pareciam pouco à vontade. As críticas em público à liderança do Egito podem ser perigosas. Alguns cidadãos foram presos por falar menos do que isso no Twitter e no Facebook. "Você está indo um pouco longe demais", interveio Abdul Manshawi, partidário declarado de Sisi. "As coisas não estão tão ruins assim".

Manshawi trabalha na área imobiliária, um setor em grande expansão na economia moribunda do Egito. Em todo o Cairo, cartazes gigantescos anunciam a construção de luxuosos complexos destinados à classe alta: condomínios ajardinados, com gramados, edifícios envidraçados e nomes decididamente nada egípcios, como Palm Hills ou Hyde Park. Mas 40% dos 98 milhões de habitantes do país moram em bairros como aquele em que estavam sentados, em casas erguidas fora das normas legais.

Não faz muito tempo, os projetos de pintura das habitações foram um sinal de esperança no Cairo. Depois da Primavera Árabe, jovens egípcios cheios de energia associaram-se a artistas estrangeiros para criar um mural enorme que cobria dezenas de prédios. Entretanto, o projeto de el-Sisi é movido por um desejo de conformismo. As autoridades sugeriram que os edifícios do Cairo sejam pintados em tons de terra, enquanto as cidades de frente para o mar, receberão um tom azul.

Mas, a diretriz referente à pintura não preocupou muito Circa e seus amigos. Antes das eleições presidenciais do ano passado, ele observou, o governo ameaçou multar os eleitores que não fossem às urnas. No final, poucos foram penalizados. Este decreto provavelmente terá um destino semelhante.

"Não vai dar em nada", comentou Circa.

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