Doug Mills/The New York Times
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Presos idosos de Guantánamo passam a receber cuidados médicos

Pentágono planeja tratamentos de saúde de acordo com a idade de detentos suspeitos de terrorismo

Carol Rosenberg, The New York Times

02 de maio de 2019 | 06h00

BAÍA DE GUANTÁNAMO, CUBA - Nenhum deles  ainda recebeu o diagnóstico de demência, mas já se preveem as primeiras substituições de joelho e fêmur. E também a instalação de rampas para cadeiras de rodas, máscaras de respiração para os que sofrem de apneia do sono, barras de segurança nas paredes das celas e, talvez, diálise. Cuidados para presos idosos estão na agenda.

Mais de 17 anos depois de escolher a base militar americana em Cuba onde permaneceriam os prisioneiros do campo de batalha no Afeganistão, após anos de debate sobre os direitos dos detidos e sobre o possível fechamento da prisão, o Departamento da Defesa dos Estados Unidos agora faz planos a respeito dos suspeitos de terrorismo mantidos ainda na instalação que estão envelhecendo e deverão morrer na Baía de Guantánamo.

Como as iniciativas do governo Obama para fechar a prisão foram bloqueadas pelo Congresso, e o governo Trump se comprometeu a mantê-la aberta, e com os processos militares avançando a passos extremamente lentos, no ano passado os comandantes foram solicitados a preparar planos para manter o centro de detenção funcionando por mais 25 anos, até 2043.

Àquela altura, o preso mais idoso, se é que conseguirá viver até então, teria 96 anos. Outro dos 40 ainda mantidos ali - o palestino conhecido como Abu Zubaydah, que foi confinado a uma caixa do tamanho de um caixão em um local secreto da CIA e que sofreu 83 vezes a tortura de quase afogamento - teria 72. Como ele, vários detidos já estão vivendo com os efeitos físicos e psicológicos da tortura, segundo os seus advogados, tornando a sua saúde particularmente precária à medida que envelhecem.

A prisão estuda um confinamento com os cuidados de um atendimento domiciliar e de casa de repouso para os detidos. Segundo os comandantes, eles já estão sofrendo os problemas típicos da meia idade: pressão sanguínea e colesterol altos, dores nas articulações, diabetes e, ultimamente, apneia do sono.

Mas os militares estudam os problemas sobre os cuidados médicos que os prisioneiros deverão receber, como estes deveriam ser distribuídos e o total da verba que o Congresso teria de destinar a eles. O hospital militar maior e mais próximo nos Estados Unidos localiza-se em Jacksonville, na Florida, a 1.323 quilômetros ao norte. 

É para lá que a tropa é enviada para as suas necessidades de tratamento médico que o hospital da pequena base não pode oferecer, como uma ressonância magnética. Mas, por lei, os militares estão proibidos de levar os prisioneiros pela Lei da Guerra de Guantánamo aos Estados Unidos. Por isso, em geral os cuidados médicos que fogem da rotina sempre tiveram de ir até os presos. 

Os cardiologistas vêm há mais de dez anos acompanhar os casos de alguns. Outros especialistas fazem visitas regulares para realizar colonoscopias e examinar problemas ortopédicos. Um protético também costuma atender presos com antigas amputações do campo de batalha.

Por enquanto, afirmam os militares, nenhum prisioneiro tem câncer, e todos os que usam cadeira de rodas podem manobrá-la sozinhos. Mas oficiais de alta patente estudam quantas celas  serão necessárias com barras de apoio e rampas, e espaços maiores para as macas, cadeiras de rodas e chuveiros.

A prisão da Baía de Guantánamo tem uma equipe médica de 140 médicos, enfermeiros, enfermeiros militares e técnicos para serviços de saúde, inclusive mental, que trabalham em turnos. Eles cuidam dos prisioneiros, mas também prestam serviços aos 1.500 soldados da base.

Agora, o Exército pretende construir uma pequena prisão, com o custo de US$ 88,5 milhões, com capacidade para prestar cuidados comunitários aos 15 presos levados para lá dos locais secretos da CIA, seis dos quais aguardam a pena de morte por supostamente conspirarem nos ataques em 2000 ao destroyer americano Cole, no qual morreram 17 marinheiros, e aos de 11 de setembro de 2001, em Nova York e no Departamento da Defesa na Virginia, em que perderam a vida cerca de 3 mil pessoas.

Um preso, conhecido como Hambali, 55, um indonésio que está detido como ex-líder do grupo extremista do Sudeste Asiático, Jemaah Islamiyah, deverá fazer a substituição de uma rótula, disse o seu advogado de defesa, major James Valentine dos fuzileiros navais americanos. Valentine disse que o problema do joelho de Hambali é consequência direta do seu primeiro ano de cativeiro na CIA, quando esteve sempre com algemas nos tornozelos.

Alguns poderão achar estranho que os militares estejam discutindo cuidados médicos complexos e dispendiosos, particularmente para presos que a promotoria quer condenar à morte. “É paradoxal”, disse Stephen N. Xanakis, psiquiatra e general brigadeiro do Exército americano da reserva, que dá consultas a casos de Guantánamo desde 2000. “Mas nós não deixamos que as pessoas simplesmente morram neste país. Isto viola toda a nossa ética”.

Nove detidos morreram desde 2008. Funcionários muçulmanos da base ofereceram aos moribundos seus ritos até a chegada de um capelão muçulmano. O Departamento de Estado então cuidou de repatriar os restos mortais. Para os que não podem ser repatriados, há um pedaço de terra cercado com a placa “Entrada do Cemitério Islâmico” em uma parte proibida de Guantánamo. A última vez em que um repórter pôde visitá-lo, em 2016, estava vazio.

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