AP Photo/Mark Schiefelbein
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Pressionar elite da tecnologia chinesa pode custar caro aos EUA

Membros do setor estão tensos com prisão de executiva da Huawei

Li Yuan, The New York Times

18 de dezembro de 2018 | 06h00

Dias depois que as autoridades canadenses prenderam uma das principais executivas de tecnologia da China, a pedido de Washington, a Cisco alertou alguns funcionários para a possibilidade de o governo chinês revidar. Em um e-mail sob o título “Restrição de viagens à China”, a gigante do Vale do Silício advertiu os funcionários sobre viagens não essenciais à China, “devido a eventos recentes”. A Cisco informou que o e-mail foi enviado por engano e que não há restrições para viagens. Ainda assim, as pessoas estão com medo.

A prisão de Meng Wanzhou, da Huawei, gigante chinesa das telecomunicações, parece ter colocado a elite da tecnologia, até então confortável em ambos os países, no meio do conflito econômico entre os Estados Unidos e a China. Para muitos empreendedores de tecnologia chineses, os Estados Unidos já não parecem o mesmo lugar que os recebeu para estudar, trabalhar e arrecadar dinheiro.

Muitos se veem um pouco na figura de Meng, que foi libertada sob fiança e aguarda a extradição do Canadá para os Estados Unidos. Como diretora financeira da Huawei e filha do fundador da empresa, ela pertence a uma elite do campo da tecnologia que há tempos se considera valiosa demais para ser ameaçada. (As autoridades americanas dizem que ela fazia parte de um plano para evitar as sanções dos Estados Unidos contra o Irã. A Huawei diz que não está ciente de nenhuma irregularidade.)

Depois da prisão de Meng, um empreendedor de tecnologia chinês me disse que ele não viajaria para os Estados Unidos, a menos que fosse necessário. Outra figura do ramo estava pensando em trocar seu amado iPhone por um smartphone Huawei. Essa sensação de medo e paranoia vem crescendo à medida que o governo americano vai ficando cada vez mais cético quanto às ambições tecnológicas da China e seus laços comerciais em lugares como o Vale do Silício. “Por questões de segurança nacional, podemos começar a pensar na possibilidade de expulsar a Apple da China”, Fang Xingdong, fundador do China-Labs, uma think tank de tecnologia de Pequim, escreveu no WeChat.

O chauvinismo está crescendo nas redes sociais chinesas. “A consciência culpada não precisa de acusadores!” “Boicote a Cisco!” “Vamos prender o Tim Cook, da Apple!” A China e os Estados Unidos continuam interligados, apesar dos conflitos entre Washington e Pequim. A economia chinesa está desacelerando. Qualquer revés nos laços comerciais entre os dois países poderia piorar a situação.

A elite tecnológica da China se sente confortável com o sistema americano e está aberta a muitos valores ocidentais. Não seria do interesse de Washington empurrar essa elite para perto do Partido Comunista. A ordem do presidente Xi Jinping para estreitar as relações do partido com o setor privado corroeu a independência das empresas. O partido está cada vez mais rígido na imposição de regras que exigem que as empresas criem células partidárias locais e façam os executivos se reportar aos secretários do partido.

“A conduta do partido nos últimos anos foi um grande presente para os Estados Unidos e a Europa”, disse Chen Zhiwu, economista da Universidade de Hong Kong. As elites pró-mercado da China vêm tentando usar o argumento da desaceleração econômica e da guerra comercial para pressionar Xi Jinping a devolver o poder aos empreendedores.

A Huawei está entre as empresas privadas mais respeitadas da China. Maior fabricante de equipamentos de telecomunicações do mundo e segunda maior fabricante de smartphones, ela é aplaudida por competir com poderosos rivais ocidentais e desenvolver tecnologias de ponta. Muitos empreendedores têm mais admiração por Ren Zhengfei, fundador da Huawei e pai de Meng, do que por magnatas da internet como Jack Ma, da Alibaba, e Pony Ma, da Tencent, porque a Huawei é a única empresa chinesa com presença global.

Como muitos chineses acham que a prisão de Meng foi um jogo para intensificar a guerra comercial, eles a veem como uma vítima da geopolítica, e não como uma potencial infratora. Se os Estados Unidos colocarem mais pressão sobre os empreendedores de tecnologia, estes serão obrigados a escolher um lado, e o governo chinês poderá parecer a única opção. “O mundo todo está escolhendo um lado”, escreveu Ren Yi, banqueiro de investimentos em Pequim, na rede social Weibo. 

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