Victor Moriyama/The New York Times
Victor Moriyama/The New York Times

'Eu era invisível': Preta Rara, a empregada que virou estrela e que encara o racismo de frente

Joyce Fernandes, mais conhecida como Preta Rara, foi empregada doméstica como sua avó e sua mãe. Hoje, rapper, autora e apresentadora de TV, vem provocando discussões incômodas sobre raça

Ernesto Londoño, The New York Times - Life/Style

18 de abril de 2021 | 05h00

SÃO PAULO – Era um ritual que Joyce Fernandes deixava para o final da faxina num emprego que ela odiava. Depois de terminar a limpeza de cada quarto em um dos apartamentos em São Paulo onde trabalhava, ela tirava o pó de uma prateleira de livros na sala, onde inevitavelmente se perdia lendo algum.

Ela temia ser repreendida pela dona do apartamento quando um dia, em 2008, devorava o livro Olga, biografia da militante comunista alemã que viveu anos no Brasil antes de ser executada pelos nazistas na Alemanha.

Em lugar da reprimenda, o momento deu origem a uma transição de carreira formidável para ela, que hoje é uma das brasileiras negras mais conhecidas no país, motivando discussões sobre racismo e desigualdade.

Sua patroa, ao ouvir Joyce falar da sua paixão por história, estimulou-a a se matricular na faculdade. O que ela fez. Formou-se em História em 2012 e desde então criou um séquito enorme de seguidores como personalidade conhecida do Instagram, rapper, autora de um livro sobre as empregadas domésticas brasileiras e apresentadora de TV.

 

Sua carreira multifacetada e sua popularidade crescente às vezes parecem uma miragem, disse ela, ao se lembrar como muitas das suas antigas patroas desprezavam suas aspirações.

“Elas sempre diziam que não tinha nenhum sentido ter uma formação”, disse Joyce, cujo nome artístico é Preta Rara. “Diziam que meu destino era servir, como minha mãe e minha avó e que eu devia me sentir feliz com o que eu já estava predestinada”.

Mas não era o caso de preestabelecer o seu futuro.

Joyce Fernandes, 35 anos, lembra da sua infância enclausurada em Santos. Sua mãe, também doméstica, e seu pai, que trabalhava nos Correios, mantinham os quatro filhos fechados em casa, temendo que pudessem ser levados para o crime, que estava disseminado em sua comunidade.

“Costumo dizer que fui educada pela TV brasileira. Era a única forma de entretenimento que tínhamos, vivendo numa área marginalizada”. Passar inúmeras horas assistindo a novelas e programas de variedades ofereceu a ela sua primeira oportunidade de entender o racismo desenfreado no Brasil, o que se tornou tema dominante do seu trabalho como escritora e artista.

“Você não via negros serem bem representados. Eu via apenas pessoas como eu no papel de escravos ou domésticas – pessoas à margem”, disse ela.

Depois de se formar no ensino médio, Joyce viu o racismo através de lentes diferentes quando decidiu buscar um emprego como vendedora ou recepcionista. Ela começou a ser chamada para entrevistas somente quando, relutantemente, seguiu o conselho de um coach de carreiras negro: nunca envie seu currículo com foto.

“Passei a enviar meu currículo sem foto e na semana seguinte recebi inúmeras chamadas para entrevistas. “Foi então que percebi o quão cruel o Brasil é para os negros”.

Nenhuma das entrevistas se concretizou numa oferta de trabalho. Depois de alguns meses, se sentindo deprimida, ela seguiu os passos da sua avó e da sua mãe e começou a trabalhar como faxineira.

“Quando voltei para casa e disse para minha mãe que tinha encontrado trabalho de faxina na casa de uma família, ela ficou muito triste. “Ela sabia que eu iria logo passar por situações que ela havia vivido”.

Em várias casas em que trabalhou, Joyce não podia comer a comida que ela preparava, só tinha direito aos restos. Era proibida de usar certos banheiros e tinha de usar o elevador de serviço e ficar longe do social, que era para as visitas. Recebia roupas manchadas e rasgadas para usar.

“As patroas me achavam sua propriedade privada, como se fosse um objeto que pertence a elas”, afirmou.

As humilhações sofridas nesses anos perseguiram Joyce por muito tempo depois de deixar de fazer limpeza e encontrar trabalho como professora de História. As lembranças pesavam sobre ela e, num dia de junho de 2016, postou algumas histórias no Facebook. A postagem era para compartilhar algumas lembranças dolorosas com amigos, mas imediatamente aquilo provocou uma avalanche de respostas.

Milhares de empregadas domésticas também postaram mensagens próprias usando a hashtag #EuEmpregadaDoméstica. Várias revelaram ter sido abusadas sexualmente no emprego. O volume e a crueza das respostas compeliram Joyce a registrar as histórias em primeira pessoa num livro publicado em 2019, Eu, Empregada Doméstica: A Senzala Moderna é o Quartinho da Empregada.

O livro começa com a história da avó dela, Noêmia Caetano Fernandes, que começou a trabalhar como empregada aos 14 anos e lembra que comia apenas depois que a família inteira para o qual trabalhava já tinha terminado de comer.

A segunda história, contada pela mãe de Joyce, Maria Helena da Silva Fernandes, está entre as mais dolorosas do livro. Ela foi levada quando criança por uma família que prometeu pagar por sua educação e alimentação, mas que a forçava a trabalhar.

"Eu fui obrigada a dormir em uma casinha de madeira ao lado da casinha do cachorro", diz a mãe de Joyce no livro. Ela foi resgatada no dia de sua primeira menstruação. Ela estava sozinha na casa e gritou quando viu o sangue, o que levou um vizinho a chamar os Bombeiros.

A mãe de Joyce começou a trabalhar como empregada aos 17 anos. Ela lembra de uma patroa que a tratava com carinho, e que se tornou uma figura materna, e outras que a humilhava. "O único trauma que ficou foi eu não conseguir aprender a ler e escrever", ela contou à filha.

O livro teve uma grande cobertura da mídia e gerou convites para  programas de TV e podcasts. O objetivo de Joyce era lembrar os brasileiros das estruturas de poder que muitos preferem não refletir, mas estão intimamente familiarizados.

“Acredito que fazer as pessoas se sentirem desconfortáveis é a única maneira de as coisas mudarem”.

De acordo com relatório do governo de 2019, a vasta maioria das cerca de seis milhões de empregadas domésticas no Brasil são mulheres negras com poucos anos de educação formal. Elas costumam trabalhar 50 horas por semana, em média, e sua remuneração é 92% inferior ao salário mínimo.

Benedita da Silva, uma das poucas deputadas negras no Brasil, também trabalhou como empregada doméstica no começo de sua carreira. Ela credita à Joyce a junção brilhante entre arte e ativismo para chamar atenção sobre os abusos no trabalho e o racismo.

"Como artista, ela alcança uma parcela da população, a classe média, onde a opinião popular é formada", disse Benedita. O livro, a deputada disse, pegou num ponto sensível. "Normalmente, as pessoas só percebem que estão perpetuando este comportamento após ler o livro".

Depois que o livro foi publicado, o número de seguidores de Joyce no Instagram, sua plataforma de mídia social preferida, explodiu. Para os mais de 177 mil que a seguem, Joyce é uma pessoa franca e espontânea nos vídeos e postagens que ela devota horas para organizar.

Ela discute temas sérios como a brutalidade policial e o abuso sexual. Fala com orgulho sobre como ama e exalta seu corpo, que não se enquadra no estereótipo da mulher sexy brasileira.

A sua enorme popularidade na mídia social ajudou Joyce a se apresentar na TV no ano passado, como âncora de um talk-show na Globo, maior rede de TV do país. Mas essa plataforma importante não a levou a mudar de estilo ou ajustar sua mensagem.

“Eu fiquei invisível nesta sociedade por muito tempo”, disse ela, antes de dar um sorriso. “Agora todo mundo tem de tragar minha encantadora figura onde quer que eu esteja”. / TRADUÇÃO DE TEREZINHA MARTINO

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