Josh Haner/The New York Times
Josh Haner/The New York Times

Primeiro parque nacional dos EUA também sofre com aquecimento global

Neve derretendo, florestas secas, menos aves e peixes doentes é a realidade dos próximos anos

Marguerite Holloway, The New York Times

15 Dezembro 2018 | 06h00

Em uma recente tarde de outono no Vale do Lamar, visitantes viram um bando de lobos correndo pela margem de um rio entre as poucas árvores, umas dez sombras negras e cinzentas recortadas contra a neve. Um pouco mais adiante, bisões cavavam em busca de comida entre os arbustos, seus bramidos se ouviam claros, profundos no ar frio e quieto. O Parque Nacional de Yellowstone é o único lugar dos Estados Unidos onde bisões e lobos podem ser vistos em grande número.

Esses animais só sobreviveram por causa do parque. O Yellowstone foi crucial para trazer de volta o bisão, reintroduzir lobos cinzentos e recuperar cisnes, alces e ursos pardos - todas essas cinco espécies ameaçadas de extinção encontraram refúgio aqui. Mas o Yellowstone dessa mega-fauna carismática e dos gêiseres impressionantes que 4 milhões de visitantes viajam todos os anos para ver está mudando diante dos olhos daqueles que o conhecem melhor. 

Pesquisadores que passaram anos estudando, manejando e explorando seus cerca de 8.800 quilômetros quadrados dizem que, em breve, a paisagem pode ficar dramaticamente diferente. Nas próximas décadas de mudanças climáticas, o primeiro parque nacional dos Estados Unidos provavelmente verá mais incêndios, menos florestas, expansão de pastos, mais plantas invasoras e águas mais rasas e mais quentes - e tudo isso pode alterar a quantidade de animais e forma como se movimentam pela paisagem. Os ecossistemas estão sempre em fluxo, mas as mudanças agora são tão rápidas que muitas espécies talvez não consigam se adaptar.

Fundado em 1872, o Parque Nacional de Yellowstone é um dos patrimônios mundiais da Unesco ameaçados pelas mudanças climáticas. É também o lar de algumas das estações meteorológicas mais antigas dos Estados Unidos. Dados da região ajudaram os cientistas a rastrear as mudanças climáticas no oeste do país. Desde 1948, a temperatura média anual no Grande Ecossistema Yellowstone - uma área de 89 mil quilômetros quadrados que inclui o parque, florestas nacionais e o Parque Nacional Grand Teton - subiu cerca de 1 grau Celsius. Pesquisadores relatam que o inverno está menos frio e, em média, dez dias mais curto.

“Nas Montanhas Rochosas do Norte, a camada de neve caiu para o nível mais baixo em oito séculos”, disse Patrick Gonzalez, cientista florestal de mudanças climáticas da Universidade da Califórnia, em Berkeley. Como a neve é a pedra angular da ecologia do parque, o declínio alarma os ecologistas. Os verões no parque ficaram mais quentes, secos e cada vez mais propensos ao fogo. Mesmo Que chova mais nos próximos anos, a água vai evaporar mais rápido, disse Michael Tercek, ecologista que trabalha em Yellowstone há 28 anos. “Quando minha filha for uma senhora, o clima será tão diferente para ela quanto a última era do gelo foi para nós”.

A paisagem incomum de Yellowstone - feita de neve e vapor, de riachos gelados e fontes termais - é vulcânica. O magma dá origem à água fervente e às multicoloridas termófilas, bactérias que prosperam em altas temperaturas. Em 1883, o New York Times descreveu o parque como um “paraíso quase místico”. Para muitos, Yellowstone representa a própria vastidão americana: uma paisagem de céu aberto onde vagam antílopes e bisões. “Você encontra os visitantes e eles agradecem pelo lugar”, disse Ann Rodman, cientista do parque. “Estão vendo alces e antílopes pela primeira vez na vida”.

Rodman, que trabalha em Yellowstone há trinta anos, se debruçou sobre os dados meteorológicos. “Quando comecei o trabalho, realmente achei que a mudança climática era algo que iria nos acontecer só no futuro. Mas esta é uma daquelas coisas que, quanto mais você estuda, mais percebe o tamanho e a velocidade da mudança”. Rodman acrescentou: “De repente, você se dá conta de que é um problema muito, muito grande e de que não estamos falando e pensando sobre isso de verdade”.

Ela observou grandes mudanças perto da cidade de Gardiner, Montana, na entrada norte de Yellowstone. Plantas invasoras e não nutritivas, como algumas gramíneas do deserto, tomaram o lugar de plantas nativas e nutritivas, espalhando-se pelo Vale do Lamar. “É isso que não queremos - que o parque inteiro fique igual a Gardiner. As sementes entram nos carros e nas botas das pessoas”. As gramíneas invasoras pegam fogo “como papel de seda”, disse ela. E se alastram depois dos incêndios, impedindo que as plantas nativas renasçam. Se essas gramíneas se espalharem, bisões e alces serão afetados. Elas crescem rapidamente na primavera e “podem sugar a umidade do solo”, disse Rodman. “Aí, já era, porque elas não vão sustentar os animais durante todo o verão como as gramíneas nativas”.

Nos últimos anos, os alces perderam a forragem, porque os verões mais secos e quentes encurtaram aquilo que os ecologistas chamam de “onda verde”, quando as “plantas vão ficando verdes em diferentes tempos e relevos”, disse Andrew J. Hansen, Universidade Estadual de Montana. Agora, alguns alces ficam em vales do lado de fora do parque, mordiscando gramados e campos de alfafa, disse Hansen. E, aonde eles vão, os lobos vão atrás. “É uma mistura muito interessante de mudança no uso da terra e mudança climática, que provavelmente vai ocasionar transformações bastante drásticas na migração, levando milhares de alces para terras privadas”. 

Verões mais secos também significam que os incêndios serão uma ameaça maior. As condições que deram origem aos incêndios de 1988, quando 1/3 do parque queimou, podem se tornar comuns. Até o final do século, “o verão de 88 provavelmente será uma constante, e uma exceção muito rara”, disse Monica G Turner, da Universidade de Wisconsin-Madison. “Como o clima está se aquecendo, vemos incêndios com mais frequência. E estamos começando a fazer com que as florestas jovens voltem a pegar fogo antes que tenham chance de se recuperar”. Incêndios recorrentes podem abrir espaço para mais pastagens. “A estrutura das florestas vai mudar”, disse  Turner. “Se continuarmos com esses incêndios duplos e triplos, elas podem ficar mais esparsas ou não se recuperarem”.

As florestas fazem sombra nos cursos de água. “Definitivamente, conseguimos enxergar tendências de aquecimento durante o verão e o outono”, disse Daniel J. Isaak, do Serviço Florestal dos Estados Unidos. “Os fluxos de rios e córregos estão declinando com a diminuição da camada de neve”. À medida que os peixes se concentram em áreas menores, afirmou Isaak, a transmissão de doenças fica mais fácil. Em 2016, o rio Yellowstone - famoso por suas trutas e pesca com mosca - foi fechado para pescadores depois que uma doença renal matou milhares de peixes.

As torrentes de água da neve que agora está derretendo mais rápido no início da primavera afetaram o ninho de aves aquáticas, como mergulhões, cisnes, pelicanos brancos e cormorões-de-crista-dupla. Nas margens do Lago Yellowstone, dezenas de visitantes do final da estação observavam dois ursos pardos comendo uma carcaça, enquanto um coiote e alguns corvos circulavam a apenas cem metros dali. “Se eles correrem para cá”, gritou um guarda, “entre em seus carros”.

Os ursos pardos são onívoros, comem o que estiver disponível, inclusive os pinhões cheios de gordura e proteína do pinheiro branco. Esse pinheiro talvez seja a espécie mais visivelmente afetada pela mudança climática em todo o oeste dos Estados Unidos. Temperaturas mais altas permitiram que uma praga nativa, o besouro de pinheiro, sobrevivesse melhor ao inverno, migrasse para altitudes mais elevadas e tivesse uma estação reprodutiva mais longa. Estima-se que, nos últimos trinta anos, 80% dos pinheiros brancos do parque tenham morrido por causa dos incêndios, dos besouros ou de infecção por fungo.

As árvores desempenham um papel central na estrutura do ecossistema. Elas colonizam as áreas expostas, permitindo que outras plantas consigam criar raízes. Suas copas protegem a neve do sol. Elas fornecem alimentos para aves como o quebra-nozes de Clark, que, por sua vez, cria viveiros de pinheiros brancos ao armazenar seus frutos. As árvores também são uma importante fonte de alimento para esquilos, raposas e ursos pardos. Quando os pinhões não são abundantes, os ursos têm de consumir outros alimentos, inclusive as entranhas dos alces e veados que os caçadores deixam fora do parque. E isso pode fazer com que os ursos - que voltaram para a lista de animais ameaçados de extinção em setembro passado - entrem em conflito com as pessoas.

A perda dos pinheiros “tem implicações de longo alcance para todo o ecossistema”, disse Jesse A. Logan, pesquisador aposentado do Serviço Florestal. “O restante da paisagem, mesmo no oeste montanhoso, já foi tão alterado que Yellowstone se tornou ainda mais importante”. Yellowstone oferece uma paisagem diferente de qualquer outra: um ecossistema praticamente intacto, rico em vida selvagem e peculiaridades geotérmicas. Sua beleza foi forjada pelo calor vulcânico. Agora, o calor da humanidade pode ser sua ruína.

Mais conteúdo sobre:
aquecimento global

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.