Ksenia Kuleshova para The New York Times
Ksenia Kuleshova para The New York Times

'Princesa TNT' abandona título de festeira e mergulha na fé católica

Nos anos 1980, Gloria von Thurm und Táxis se divertia com artistas como Mick Jagger, Andy Warhol; hoje, lidera grupo de católicos que se opõe ao papa Francisco

Jason Horowitz, The New York Times

28 Dezembro 2018 | 06h00

REGENSBURG, ALEMANHA - A princesa Gloria von Thurm und Taxis atravessou rapidamente seu palácio alemão de 500 quartos; no pulso, ela usava um bracelete de rubis com um medalhão da Virgem Maria. Parou para admirar a capela repleta de ornatos onde a bisavó do marido, a princesa consorte Helène, morrera em sua cama, e o seu amigo Bento XVI, o papa emérito, certa vez rezou a missa. Então dirigiu-se para o claustro medieval onde ela preferia fazer suas orações diárias. Na capela da cripta, a princesa de 58 anos permaneceu em silêncio, ajoelhada.

Monsenhor Wilhelm Imkamp, um prelado conservador, já considerado pelos conservadores como arcebispo em potencial de Berlim, deu a comunhão à sua solitária paroquiana. As solas de seus sapatos Hermès repousavam sobre a grade em cima da cripta onde seu falecido marido jazia ao lado dos ancestrais de sua nobre família. "Amém", disse por fim.

A princesa Gloria - apelidada de "Princesa TNT" por seus anos explosivos de aristocrata amante de festas, colecionadora de obras de arte e com penteado punk - tornou-se uma espécie de Rainha, um "Sol", ao redor do qual orbitam muitos católicos romanos tradicionalistas que se opõem ao papa Francisco.

Seu palácio romano, de fronte ao antigo fórum, é um dos salões preferidos de cardeais da oposição, bispos ressentidos e populistas como Stephen K. Bannon, ex-estrategista do presidente Donald J.Trump. Muitos esperam usar a crise relativa aos abusos sexuais para derrubar o pontífice, que, na sua opinião generalizada, está destruindo a fé. A princesa Gloria, amiga de Hillary Clinton, disse que acha que o papa está "tentando fazer o melhor que pode".

"Mas ele não canta a minha música preferida", acrescentou com uma risada.

 

Segundo ela, em vez da ênfase do pontífice na inclusão, a Igreja precisa honrar suas leis e doutrinas e empreender uma conversão espiritual, como ela fez quando seu marido morreu, há quase 30 anos, para uma fé mais missionária e ortodoxa.

"Precisamos lutar pela Igreja", afirmou. Ela conta que Bento XVI instilou nela o desejo de "lutar pela fé, não apenas para salvar a tradição, para salvar a própria fé, mas também para cumprirmos as nossas obrigações".

A princesa vê como sua responsabilidade alimentar centenas de pessoas famintas em seu refeitório diariamente e sustentar um número cada vez maior de sacerdotes marginalizados.

Bannon, por sua vez, já planeja uma "Escola de Gladiadores" para estudos teológicos e midiáticos com o objetivo de preparar católicos de direita hostis a Francisco. Ele tentou convencer a princesa a investir neste projeto em um mosteiro na cidade de Trisulti, a duas horas de Roma. Mas, para a princesa, antes de ajudar a causa, Bannon precisa, em primeiro lugar, pôr em ordem sua própria casa espiritual.

"Eu estou aqui para ajudar, mas sou muito rigorosa e digo, 'Muito bem, mas primeiramente frequente a igreja. Mude sua vida'", ela disse. À pergunta específica se ela queria que Bannon fosse à igreja regularmente antes de tentar reformá-la, a princesa sorriu. "Quero ver, antes de qualquer coisa, todos os meus amigos como fiéis católicos. Depois poderemos começar".

A princesa Gloria fala por experiência própria. Embora tenha sido educada como católica, uma garota que passava os verões com a tia-avó, uma monja beneditina, na Floresta Negra, quando se tornou uma jovem adulta mostrou menos empenho em matéria de religião. Aos 19 anos, a jovem aristocrata conheceu o 11º príncipe de Thurm und Taxis, Johannes, de 53 anos, cuja família fez fortuna com o serviço postal do Sacro Império Romano. Então ela se tornou a Sua Garota Imperial dos anos 1980, que andava pelos clubes noturnos com Mick Jagger, Andy Warhol (ele "ia à igreja todos os dias”", afirma) e outros.

O marido morreu nos anos 1990, deixando uma jovem viúva e mãe de três filhos com centenas de milhões de dólares em dívidas. Ela, que recebeu formação na área de negócios, assumiu a administração do palácio ancestral, leiloou a prata, as joias, o vinho e algumas obras de arte, e salvou a fortuna da família.

Gloria atribui a reviravolta à "graça de Deus" que a convenceu "de que deveria dar algo em troca".

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