Monique Jaques para The New York Times
Monique Jaques para The New York Times

Príncipe saudita busca reformar país

Um portador de mudanças autênticas que também inspira medo; agora, as mulheres sauditas estão aprendendo a andar de motocicleta e dirigir carros

Roger Cohen, The New York Times

01 Julho 2018 | 10h30

RIAD, ARÁBIA SAUDITA  - Algumas semanas atrás, uma conhecida consultora de mídia e suas duas filhas estavam fazendo compras no shopping Kingdom Center, aqui na capital saudita. As filhas, de pouco mais de 20 anos, estavam com a cabeça coberta durante a saída para as compras. A mãe, não.

Quando membros da polícia religiosa saudita se aproximaram, ela apanhou o lenço, mas não chegou a colocá-lo na cabeça. Já basta, pensou ela.

“Cubra a cabeça!” ordenaram os agentes.

“Não.”

“Bem", murmuraram eles, “que Deus a proteja".

Os policiais barbados se afastaram. Eles costumavam entrar nas lojas que vendiam vestidos pretos sem forma chamados abayas, impostos às mulheres sauditas, apanhando aqueles que apresentassem algum tipo de adorno e queimando-os. Agora as coisas mudaram: antes temidos, esses defensores de uma ordem islâmica puritana tiveram as garras cortadas.

No dia 24 de junho, as mulheres sauditas começaram a dirigir, finalmente descartando um símbolo tão banal de opressão. São dias intensos na Arábia Saudita do príncipe herdeiro Mohammed bin Salman, conhecido como MBS, que se tornou o herdeiro do trono num verdadeiro golpe palaciano aplicado há um ano, afastando seu primo, Mohammed bin Nayef. Trata-se de um impetuoso jovem de 32 anos que não tem medo de abalar as estruturas do poder.

O presidente dos Estados Unidos, Donald J. Trump, recebeu o príncipe como seu filho perdido no Oriente Médio, um rapaz que odeia o Irã, odeia o Islã político e adora dinheiro. É arriscado apostar que um ousado recém chegado possa acabar com o acordo saudita com o diabo que contribuiu para a disseminação do terrorismo jihadista pelo mundo. Até certo ponto, o grau de violência e instabilidade no mundo árabe será determinado pelo experimento saudita.

O objetivo aparente do príncipe é colocar tudo de cabeça para baixo, exceto o poder absoluto exercido desde 1932 pela casa real de Saud, com a ajuda do petróleo e do poderio americano. Ele quer promover uma liberalização econômica e social, mostrando que o Islã, no país de suas cidades mais sagradas (Meca e Medina), não consiste num manual de regras implacáveis e inflexíveis inspiradas nas escrituras sagradas, sendo compatível com a modernidade e a tolerância.

Talvez sua proposta mais radical seja a mudança no papel das mulheres, pois a genuína libertação (ainda não confirmada) de metade da população saudita transformaria o país e consistiria num recado claro anunciando a chegada de um Islã modernizado.

Durante a semana que passei na capital, Riad, e na cidade portuária de Jeddah, no Mar Vermelho, encontrei um país onde shoppings para os ultrarricos estão cheios de lojas que fecham cinco vezes ao dia para as preces e onde os restaurantes modernos ainda dedicavam seus esforços às minúcias necessárias para a separação de homens e mulheres. Vê-se uma pesada dose do glamour de Houston e um pouco da aura repressiva de Pyongyang. As pessoas ficaram maravilhadas quando os primeiros cinemas do país abriram este ano.

Em teoria, as reformas do príncipe poderiam transformar mais do que a Arábia Saudita. Cinco vezes ao dia, muitos dos 1,8 bilhão de muçulmanos do mundo se voltam para o país em suas preces. “Quando as pessoas olham para a Arábia Saudita, vendo Meca e Medina, elas querem imitá-las”, disse o ministro saudita das relações exteriores, Adel al-Jubeir. “Quando elas veem abertura, moderação, tolerância e inovação, é aí que desejam estar.”

Em outras palavras, uma mudança no Islã em seu núcleo saudita representa uma mudança para todo o mundo. 

Mas, como indica a detenção de várias ativistas em maio, o príncipe precisa manter um delicado equilíbrio.

Há forças reacionárias por toda parte, certamente dentro da vasta família real, parte da qual o príncipe Mohammed deteve no hotel Ritz-Carlton de Riad em novembro, à margem de qualquer procedimento jurídico.

O príncipe Mohammed disse que seu desejo é devolver à Arábia Saudita a “normalidade", termo muito usado no reino hoje em dia, em contraste com os chamados “30 anos perdidos", o período de aberrações que ajudou a produzir a Al Qaeda e o Estado Islâmico.

Mas o príncipe Mohammed também transmite o tipo de medo que faz com que uma mulher preparada para desafiar a polícia religiosa tenha receio de revelar seu nome. Permite às mulheres dirigir, mas não permite às mulheres corajosas cuja pressão resultou nessa vitória que recebam o devido crédito. 

Aceita a internet, mas não a ponto de permitir que seja usada para criticar a família real. Libera as peças de lingerie da Victoria’s Secret, mas dessexualiza os manequins e garante que a roupa tenha tons discretos de pastel.

Mas o cinismo é uma reação demasiadamente fácil. “Fico irritada quando os ocidentais nos dizem que as mudanças são apenas cosméticas", disse-me Hoda Abdulrahman al-Helaissi, uma das primeiras mulheres a integrar a Shura, um corpo de conselheiros do rei. “Estamos mudando no ritmo de um trem de alta velocidade, não de um foguete. Os jovens não querem viver como nós vivemos, e 70% da população têm menos de 30 anos. O príncipe compreendeu que é necessário arrancar o dente da boca!”

As coisas estão acontecendo. Um novo aeroporto foi aberto em Jeddah em maio. O metrô de Riad começará a funcionar no ano que vem. A Saudi Aramco, gigantesca empresa estatal do petróleo, será parcialmente privatizada. Acabam de começar perto de Riad as obras para uma vasta “cidade do entretenimento” de bilhões de dólares que incluirá um parque temático Six Flags.

Os estádios estão passando por reformas para receber mulheres. Foi adotada uma nova lei das falências. “Saudização” é o termo do momento, usado para indicar as iniciativas de reversão de um desemprego de 34% entre os jovens treinando os sauditas para substituir os estrangeiros, que representam 12,6 milhões de pessoas numa população total de 33,4 milhões.

As progressivas conquistas das mulheres são também uma necessidade econômica. A saudização da força de trabalho é também sua feminização.

Tamader al-Rammah, vice-ministra do trabalho e a mulher que ocupa o cargo mais elevado no governo, disse que acaba de passar por uma cidadezinha do norte, onde encontrou jovens mulheres, algumas de rosto coberto e outras não, desempenhando todas as funções de vendas num shopping. “Pouco tempo atrás, veríamos apenas homens trabalhando", disse ela. “Estamos rompendo os estereótipos.”

Com o príncipe herdeiro, o gradualismo é coisa do passado. Tudo gira em torno da sua “Visão 2030", o slogan dele, e os chamados KPIs (de key performance indicators, indicadores-chave de desempenho) numa marcha forçada para reduzir a dependência do país em relação ao petróleo, fomentar o turismo em massa, aumentar o espaço social das mulheres, investir em energia renovável, parques temáticos e o restante.

Será que o príncipe herdeiro será capaz de realizar sua visão de uma nova arábia? 

“MBS não finge ser um liberal, e tem atrás de si todo o poder coercitivo do estado", disse-me o autor saudita Ali Shihabi. “Ainda assim, ele precisa equilibrar as coisas. Ainda que os conservadores não sejam a maioria, eles podem ser uma minoria bem difícil de lidar.”

Por enquanto reina o silêncio. Em parte, a razão disso é o medo. O príncipe Mohammed coloca seus opositores na prisão - que pode ser muito diferente do Ritz. Muitos ativistas defensores da democracia foram presos em setembro.

Num restaurante, conheci um homem que aparentava pouco mais de 30 anos, um antigo jornalista que se exilou do Twitter e decidiu passar alguns anos no exterior para esperar o fim do que ele enxerga como um momento preocupante e imprevisível. Que tipo de transformação se pode esperar na ausência de mudanças políticas e com as portas fechadas para a ampliação da liberdade, indagou. Para ele, a sociedade saudita nunca questiona o governo, seja enquanto público, imprensa ou parlamento. E não parece que esse tipo de questionamento deve começar em breve.

O ministro da economia, Mohammed al-Tuwaijri, me disse: “Posso confirmar que tivemos 30 anos desperdiçados” como resultado da “corrupção” e do “sequestro do país por ideologias, por ideias equivocadas, jihadistas e extremistas. E havia muitas pessoas no meio de tudo isso dizendo: ‘Não sei, minha vida não é má. Por que deveríamos nos importar?’ Agora, estamos dizendo que a vida é mais do que isso, e pedimos que se juntem a nós".

Fui até Jeddah. Na estrada costeira, com acesso a numerosas praias e ladeada por uma nova ciclovia, condomínios de arranha-céus são construídos ao lado de hotéis de luxo. Mas, num píer com áreas sombreadas, vultos negros e disformes (ou seja, mulheres) pairavam com os rostos cobertos por véus, e uma delas chegou a erguer o tecido escuro sobre a boca para provar um sorvete.

Procurei um lugar para tomar um refresco. O Starbucks estava fechado para as preces. Aguardei no calor escaldante. Quando a loja reabriu, conversei com o egípcio Mohammed Jalal, o gerente. Ele mora na Arábia Saudita há doze anos.

Do ponto de vista dele, a busca do príncipe Mohammed por transformações parece ser um processo de avanços e concessões. Às vezes as mulheres se sentam com os homens nas mesas externas (do lado de dentro, são confinadas ao segundo andar) e ninguém tinha se queixado. Por outro lado, “havia música ocidental tocando na loja, e os clientes reclamaram, o que levou o Starbucks a acabar com isso".

No Centro de Pesquisas e Estudos Islâmicos Rei Faisal, em Riad, perguntei ao secretário-geral, Saud Bin Saleh Al-Sarhan, e ao diretor de pesquisas, Abdullah bin Khalid Al-Saud, até que ponto a reforma saudita poderia chegar. Eles indicaram que as mudanças podem ocorrer em questões a respeito das quais não há consenso entre os estudiosos islâmicos; contudo, onde houver unanimidade não haverá mudança.

As mulheres poderiam descobrir o corpo; o fechamento de lojas para as preces e a separação dos gêneros nos estabelecimentos comerciais chegaria ao fim; o castrador sistema de “tutela" que permite aos homens controlar as vidas das mulheres sauditas deixaria de vigorar; Medina pode se tornar acessível para turistas não muçulmanos; já Meca, provavelmente não.

Entretanto, o álcool, o casamento entre pessoas do mesmo sexo e assumir publicamente a homossexualidade jamais seriam permitidos.

Visitei a autoescola para mulheres de Riad. Há uma lista de espera de 70 mil candidatas. Aqui, cerca de 3 mil alunas matriculadas passam por 30 horas de treinamento, por cerca de US$ 600, custo aproximadamente seis vezes maior que o valor cobrado dos homens.

Shereen Abdulhassan, fundadora de uma equipe de caronas de Riad, disse-me que tinha perdido a esperança anos atrás. “Ainda tenho críticas à discriminação no preço", disse ela. “Mas adoro o fato de MBS confiar mais na sociedade.” Milhares de mulheres sauditas já se inscreveram como motoristas de uma empresa de corridas chamada Careem.

Hatoon Ajwad al-Fassi, professora-assistente de história da mulher na Universidade Rei Saud, defende há anos o direito das mulheres de dirigir. Quatro horas após o anúncio oficial feito em setembro, ela recebeu um telefonema de um funcionário do governo orientando-a a não comemorar a vitória nas redes sociais. Ela disse que o governo não quer que a questão seja vista como uma vitória de uma campanha pública por direitos.

A análise dela me pareceu precisa. O príncipe herdeiro tem intenções sinceras. Ele decidiu mexer naquilo que tem limitado o desenvolvimento da Arábia Saudita. Mas ainda há muitos limites, censura constante. Mudanças ocorreram, mas não foram transformadas em lei, o que as torna vulneráveis.

E então? “Tenho esperança", disse-me Fassi. “Espero que, daqui 10 anos, tenhamos uma esfera pública mais humana e segura para as mulheres, livres dos abusos da tutela, e isso será positivo para a economia saudita.”

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