Bulent Kilic/Agence France-Presse
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Príncipe saudita promove campanha brutal para calar dissidência

Operações autorizadas por Mohammed bin Salman iam da repatriação à tortura de opositores

Mark Mazzetti e Ben Hubbard, The New York Times

21 de março de 2019 | 06h00

WASHINGTON - O príncipe herdeiro da Arábia Saudita, Mohammed bin Salman, autorizou uma campanha secreta para silenciar dissidentes - incluindo a vigilância, sequestro, detenção e tortura de sauditas - mais de um ano antes do assassinato de Jamal Khashoggi em outubro, de acordo com autoridades americanas.

Integrantes da equipe que matou Khashoggi, descrita pelos americanos como Grupo Saudita de Intervenção Rápida, estiveram envolvidos em pelo menos uma dúzia de operações desde 2017, de acordo com as autoridades. Algumas das operações envolveram o repatriamento forçado de sauditas que viviam em outros países árabes e a detenção e abuso de prisioneiros em palácios pertencentes ao príncipe herdeiro e seu pai, rei Salman, de acordo com as autoridades.

Os detalhes das operações foram anunciados por funcionários do governo americano com acesso a avaliações confidenciais de espionagem a respeito da campanha, bem como por sauditas informados a respeito de parte das operações. Eles falaram sob condição de anonimato.

Um porta-voz da Embaixada Saudita em Washington disse que o reino "trata com toda a seriedade quaisquer alegações de maus tratos contra prisioneiros que aguardam julgamento ou cumprem pena". O governo saudita insiste que o assassinato de Khashoggi - jornalista dissidente que vivia nos Estados Unidos e escrevia para o Washington Post - não foi encomendado por Riad. A decisão de matá-lo teria sido tomada pela equipe no momento, dizem as autoridades.

O reino diz que 11 sauditas são acusados criminalmente pela morte do jornalista e que os promotores pediram a pena de morte para cinco deles, mas as autoridades não identificaram publicamente os acusados.

A Arábia Saudita tem um histórico de perseguição aos cidadãos sauditas no exterior, mas a repressão se intensificou depois que o príncipe Mohammed foi declarado príncipe herdeiro em 2017. As forças de segurança sauditas já detiveram dúzias de pessoas tidas como ameaças. 

"Nunca vimos nas operações deles nada nessa escala", disse Bruce Riedel, ex-analista da CIA atualmente a serviço da Brookings Institution, em Washington. "No passado, um dissidente como Jamal Khashoggi não seria considerado tão perigoso a ponto de ser alvo de uma operação desse tipo".

Khashoggi foi morto dentro do consulado saudita em Istambul. A Turquia usou registros de vídeo e áudio para desvendar o crime e identificar a equipe responsável por cometê-lo. Para Riedel, a falta de cuidado da equipe mostrou que seus integrantes estavam habituados a operar livremente dentro do reino, e não sob o olhar atento de um adversário.

O Grupo de Intervenção Rápida agia com autorização do príncipe Mohammed e era supervisionado por um de seus principais assessores, Saud al-Qahtani, de acordo com funcionários do governo americano. Seu segundo em comando, Maher Abdulaziz Mutreb, oficial do serviço de espionagem, liderou a equipe em campo. Um funcionário do governo saudita contou que Mutreb está sob julgamento em Riad por acusações ligadas à morte de Khashoggi, enquanto Qahtani está sob investigação.

Quando o príncipe Mohammed prendeu centenas de príncipes, empresários e ex-funcionários do governo no Ritz-Carlton de Riad em 2017 sob acusações de corrupção, al-Qahtani e Mutreb pressionaram os prisioneiros a cederem seus bens, de acordo com associados dos detidos. Muitos dos detidos no Ritz foram submetidos a abusos físicos, e um deles morreu sob custódia, de acordo com testemunhas.

Mas foi somente após o assassinato de Khashoggi que a extensão das operações da equipe começou a vir à tona. As informações da espionagem americana a respeito das operações anteriores fizeram parte da elaboração de uma avaliação da CIA em novembro segundo a qual o príncipe Mohammed teria ordenado a morte de Khashoggi, de acordo com funcionários do governo dos EUA.

Mulheres na mira das operações

O Grupo de Intervenção Rápida também parece estar envolvido na detenção de cerca de uma dúzia de ativistas defensoras dos direitos da mulher no ano passado. Entre elas há várias figuras conhecidas, como Loujain al-Hathloul, presa por tentar entrar no reino dirigindo vinda dos Emirados Árabes Unidos, a professora aposentada Aziza al-Yousef e a professora de linguística Eman al-Nafjan.

No início, as mulheres ficaram detidas informalmente num palácio na cidade portuária de Jedda, no Mar Vermelho, de acordo com a irmã de Loujain, Alia. Algumas das mulheres foram levadas com frequência para interrogatórios no andar de baixo, e sofriam espancamentos, choques elétricos, simulação de afogamento e ameaças de estupro e assassinato. Segundo a avaliação da espionagem americana, o tratamento foi tão duro que Eman tentou cometer suicídio.

Posteriormente, as mulheres foram transferidas para a prisão Dhahban, em Jedda. Seu julgamento teve início em Riad este mês, mas jornalistas e diplomatas não puderam assistir, e o governo não anunciou as acusações feitas contra elas. Um funcionário do governo saudita disse que as três são julgadas por "envolvimento em atividades que ameaçam a segurança nacional do reino".

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