Tasneem Alsultan para The New York Times
Tasneem Alsultan para The New York Times

Príncipe saudita quer transformar seu país em reduto cultural

Amplamente criticado por sua política de repressão, Mohammed bin Salman vem investindo pesado em cultura e turismo

Edward Wong, The New York Times

02 de março de 2019 | 06h00

AL ULA, ARÁBIA SAUDITA - A nova casa de concertos no meio do deserto brilhava no pôr do sol. Em seu interior, uma orquestra chinesa ensaiava uma peça clássica de música ocidental. As notas serenas e ritmadas flutuavam na sala vazia. O concerto fazia parte de uma série de apresentações com Andrea Bocelli, Yanni e Majida El Roumi realizada neste trimestre na Arábia Saudita.

Vista do deserto, a Arábia Saudita parece um país diferente daquele que se tornou alvo constante de críticas desde outubro do ano passado, quando o príncipe herdeiro Mohammed bin Salman, governante de fato do país, foi acusado de ordenar o assassinato do colunista do Washington Post, Jamal Khashoggi.

O príncipe tem sido criticado também no âmbito internacional por travar uma guerra no Iêmen, onde mandou prender ativistas do movimento dos direitos humanos e manter como prisioneiras centenas de pessoas em um hotel. Entretanto, ao mesmo tempo, funcionários de seu governo tentam desenvolver a indústria do turismo e da cultura da Arábia Saudita. Anos atrás, um evento como este não teria ocorrido.

As autoridades escolheram a antiga cidade das caravanas de Al Ula, um antigo entroncamento do comércio entre os impérios e os portos do Mediterrâneo ao longo do Golfo de Áden.

"Nós o denominamos 'o lugar do futuro'", disse Maher Mazan, gerente do Shaden Resort. "Se você voltar daqui a um ano, vai encontrá-lo diferente".

A rica história e os sítios arqueológicos da região fascinaram o rei Salman, pai do príncipe herdeiro. Seu monumento principal é Mada'in Saleh, ou Al Hijr, um conjunto de mais de 100 imponentes túmulos que datam de dois milênios atrás, escavados nas encostas das colinas.

As maravilhas de Mada'in Saleh contrastam com a luxuosa ornamentação do festival de música conhecido como "Inverno em Tantora". No início de fevereiro, pelo menos 30 mil pessoas assistiram aos eventos no fim de semana do festival, informam funcionários. O festival começou no dia 20 de dezembro e se encerrou no dia 23 de fevereiro.

No fim de semana do concerto de Yanni, os preços variaram de US$ 1.400 para o pacote de viagem de um dia, a US$ 6 mil para o pacote de fim de semana "diamante". 

"O festival permitiu que os moradores de Al Ula mostrassem orgulhosamente sua casa ao mundo", disse Abdullah al-Khelawi, diretor de desenvolvimento econômico da comissão real. Segundo ele, o festival gerou mil empregos sazonais.

Estudioso do Instituto dos Países do Golfo Árabe de Washington, Hussein Ibish disse que o conceito de entretenimento do príncipe Mohammed "é muito amplo, e constitui uma reintrodução revolucionária do 'divertimento' em uma sociedade em que os entretenimentos públicos foram basicamente eliminados há dezenas de anos".

Mas, de acordo com Ibish, o fato de o projeto envolver o Ocidente cria um dilema.

"Embora nossa preocupação seja estimular forças socialmente liberalizantes e economicamente modernizadoras que exigem e apelam para o Ocidente - e precisam apelar para o Ocidente -, tentamos conter tudo isso com uma repressão política. Trata-se de algo completamente inaceitável e alienante do ponto de vista do público ocidental", afirmou.

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