Elizabeth D. Herman para The New York Times
Elizabeth D. Herman para The New York Times

'Sou prisioneiro da esperança', diz representante da Palestina na ONU

Riyad H. Mansour é conhecido por táticas que avançam a causa da nação palestina sem envolver Israel

Rick Gladstone, O Estado de S.Paulo

22 de agosto de 2019 | 06h00

NAÇÕES UNIDAS - A vida de Riyad H. Mansour, embaixador da Palestina às Nações Unidas nos 14 anos mais recentes, foi moldada pelo conflito com Israel. Mas ele é também um filho do movimento pacifista americano. O pai dele, um refugiado palestino, foi aos Estados Unidos nos anos 1950, encontrou emprego em Ohio e depois trouxe Mansour e os outros seis filhos de Ramallah, na Cisjordânia.

Aos 72 anos, Mansour gosta de contar a história da sua vida como filho de metalúrgico. Mas ele é mais conhecido como crítico de Israel e dos EUA, envolvidos em uma colaboração para frustrar o processo de formação de um estado palestino. Enquanto estava na universidade em Ohio, participou de manifestações contra a ocupação israelense da Cisjordânia e outras terras tomadas na guerra de 1967, mas também em defesa dos direitos civis e contra o envolvimento americano no Vietnã. “Na juventude, somos radicais”, disse ele. “Me alegrava estar envolvido.”

Mansour entrou para a diplomacia em 1983 no cargo de suplente naquela que era então a Missão Permanente de Observação da Organização pela Libertação da Palestina nas Nações Unidas. Afastou-se da vida diplomática a partir de 1994, mas voltou às nações Unidas em 2005 como embaixador.

Ele é conhecido por táticas que avançam a causa da nação palestina sem envolver Israel. Sete anos após o retorno dele às Nações Unidas, o órgão reconheceu a Palestina como país observador não-membro, mudança de status que enfureceu as autoridades israelenses e seus aliados americanos.

Para Mansour, táticas como essa são necessárias porque as negociações diretas entre Israel e os palestinos avançaram pouco e, nas palavras dele, o presidente Donald Trump corrompeu o papel dos EUA enquanto mediadores. “Para alguém que se considera mestre da arte da negociação, em um relacionamento envolvendo dois lados, se um deles recebe todos os brindes, que incentivo resta para o outro lado ao negociar as migalhas?” disse Mansour.

Ele não conversa com o embaixador Danny Danon, designado por Israel para a ONU. Autoridades israelenses dizem que Mansour irritou Danon três anos atrás durante reunião do Conselho de Segurança ao se recusar a condenar ataques cometidos por militantes palestinos.

Mansour tinha uma relação mais cordial com o embaixador Dan Gillerman, que representou Israel na ONU de 2003 a 2008. Apesar das discussões, Mansour compareceu ao jantar de despedida de Gillerman quando foi chamado de volta a Israel. Yossi Beilin, experiente político israelense que desempenhou um papel central nos Acordos de Oslo, destacou o significado do gesto. “Ele queria mostrar que, apesar das nossas diferenças, há perspectivas para a paz e a cooperação", disse Beilin. “Esse é o tipo de adversário com quem buscamos envolvimento.”

Mansour passou a infância como refugiado em Ramallah antes de vir aos EUA, onde conheceu a mulher, Caryl, americana de ascendência polonesa e italiana. O casal tem dois filhos adultos. Ele se disse maravilhado ao perceber que se tornou uma figura patriarcal em uma família de grande diversidade que inclui até genros nipo-americanos.

“É uma típica história americana - todos vieram de algum lugar, trazendo suas famílias, que começam a crescer", disse Mansour. “Uma história de todos.” Indagado se poderia ser descrito como um otimista, Mansour se disse “um prisioneiro da esperança", citando uma passagem que tinha lido recentemente do arcebispo Desmond Tutu, líder sul-africano da luta contra o apartheid. "Gosto dessa expressão", disse ele, “e a estou usando com mais frequência". / TRADUÇÃO DE AUGUSTO CALIL

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