Anthony Russo para The New York Times
Anthony Russo para The New York Times

Prisioneiros vão ajudar a encontrar respostas do consumo de sal?

Especialistas debatem sobre a ética da proposta de realizar um estudo, em detentos, dos malefícios e benefícios para o organismo de uma dieta com sal

Gina Kolata, The New York Times

12 Junho 2018 | 10h15

Imagine que quiséssemos fazer um estudo dos hábitos alimentares e nutrição, com milhares de participantes recebendo aleatoriamente um determinado plano de refeições durante anos enquanto sua saúde é monitorada. Estudos como esse são praticamente impossíveis. É por isso que ainda restam tantas perguntas sem resposta com relação ao que é melhor para a alimentação humana. E um dos maiores mistérios envolve a relação entre o consumo de sal e a saúde.

Mas, agora, um grupo de pesquisadores que inclui o ex-diretor da agência de vigilância sanitária dos Estados Unidos sugeriu uma forma de solucionar a chamada guerra do sal na ciência. Eles querem realizar um exame do consumo de sal usando detentos, cuja dieta pode ser controlada rigorosamente.

O uso de detentos como objetos de teste desperta controvérsias. Nos anos 1940, prisioneiros foram deliberadamente infectados com malária. Nos anos 1950, os detentos foram infectados com hepatite. Uma década mais tarde, os cientistas usaram radiação nos testículos de prisioneiros.

“As prisões são um ambiente inerentemente coercitivo”, disse Ruth Macklin, especialista em ética da Faculdade de Medicina Albert Einstein, em Nova York. Mas “isso não significa a impossibilidade de um consentimento informado".

O objetivo do estudo proposto é acabar com décadas de desacordo científico em relação ao sal.

De um lado estão os pesquisadores para quem as pessoas consomem muito sódio, e isso seria prejudicial à sua saúde. O consumo médio de sódio é cerca de 3.200 miligramas por dia. Para pessoas saudáveis, a Associação Cardíaca Americana recomenda 2.300 miligramas por dia. Mas, para aqueles com pressão alta, o recomendado é 1.500 miligramas, ou menos que meia colher de chá. Quanto mais alta a pressão arterial, maior o risco de ataques cardíacos e derrames. Dietas com pouco sal reduzem a pressão arterial.

Do outro lado estão os dissidentes para quem os baixos níveis de sódio podem piorar a saúde, citando estudos que identificaram uma maior incidência de ataques cardíacos e derrames em pessoas que seguiam uma dieta de baixo sódio.

E a teimosa resistência das pessoas a quem se recomenda consumir menos sal indica, para alguns especialistas, que os humanos desejam o sal por um motivo: ele seria necessário para a saúde.

O Dr. Daniel W. Jones, professor da Faculdade de Medicina da Universidade do Mississippi e ex-presidente da Associação Cardíaca Americana, ficou alarmado com a natureza cada vez mais pessoal dos debates entre os pesquisadores que discordam em relação ao sal.

Assim, ele convidou cientistas de ambos os lados para uma reunião que resolveria suas diferenças. “Eu queria um equilíbrio entre diferentes pontos de vista", disse o Dr. Jones, para quem as dietas com pouco sal são mais saudáveis.

Os convidados dele, seis no total, concordaram com uma reunião na universidade no Mississippi (posteriormente ele convidou dois outros pesquisadores, o Dr. Eric Peterson, especialista em exames clínicos da Universidade Duke, na Carolina do Norte, e o Dr. Robert Califf, também de Duke, ex-diretor da Agência de Vigilância Sanitária dos EUA, para opinarem no estudo final).

O grupo ponderou a respeito de várias opções para a realização de um exame clínico aleatório numa população cuja dieta possa ser controlada. Militares? Jovens demais. Asilos? Muitos dos moradores já seguem dietas de baixo sódio por recomendação médica. A melhor opção parecia ser a população carcerária.

Suponhamos que o estudo fosse realizado nas prisões, disse o Dr. Jones. A pesquisa deve beneficiar apenas os prisioneiros ou a população em geral? Se os prisioneiros não serão beneficiados, o estudo seria antiético. Se houver incerteza quanto à quantidade ideal de sódio na dieta, os especialistas concluíram que os prisioneiros seriam beneficiados por um estudo que buscasse elucidar a questão de maneira conclusiva.

A Dra. Macklin, que lecionou numa instalação de segurança máxima, disse que muitos dos prisioneiros ficariam felizes em ajudar. “Eles diriam que desejam fazer uma contribuição para a sociedade", disse ela. “Mesmo que haja motivos mais egoístas, qualquer variação na rotina de um detento é bem-vinda.”

Os administradores carcerários disseram ao Dr. Jones que estariam dispostos a ouvir uma proposta. Ele também vai falar com a União Americana pelas Liberdades Civis, que mantém um projeto com direitos dos detentos, para explicar o estudo.

O plano é começar com um projeto piloto envolvendo prisioneiros com idades a partir de 55 anos. A isto se seguiria um teste de aproximadamente cinco anos envolvendo de 10 mil a 20 mil prisioneiros.

O Dr. Jones disse que, por enquanto, o teste é apenas uma proposta.

“Há muitos passos a serem tomados até transformar isso em realidade", disse ele. “Mas somos um grupo de pessoas sérias, especialistas que discordam com convicção. Estamos juntos para encontrar uma solução.”

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