Kim Raff para The New York Times
Kim Raff para The New York Times

Produtora de filmes ligada à igreja impulsiona audiovisual de Utah

“Objetivo de todas as nossas produções é criar mensagens que convidem todos os filhos de Deus a seguir Jesus Cristo”, afirmou o diretor Scott Smiley

Elizabeth A. Harris, The New York Times

25 de outubro de 2019 | 06h00

PROVO, UTAH - Em meio ao absoluto silêncio do deserto de Utah, depois de campos de alfafa e árvores frutíferas, as redomas de Jerusalém se elevam a partir da grama dispersa. Trata-se do Campus Sul do Estúdio Cinematográfico, propriedade da Igreja de Jesus Cristo dos Santos dos Últimos Dias. O cenário de Jerusalém é parte da sucursal de produção de cinema e mídia do estúdio, que emprega produtores, editores e animadores em período integral e possui um estúdio completo em Provo, com equipamentos de finalização de som, baias de edição e casas em estilo do século 19 em um loteamento.

A igreja é uma peça importante no ecossistema audiovisual do norte de Utah, que inclui filmes independentes voltados para o mercado mórmon e a BYUtv (canal da Brigham Young University, afiliada à igreja), assim como produções de comerciais, programas de TV e filmes que usam o Estado como base para as produções.

Conjuntamente, eles funcionam como uma pequena Hollywood nas montanhas. E também são uma resposta dos sete milhões de mórmons dos Estados Unidos a uma cultura que não fala a língua deles, além de representarem uma maneira de reforçar valores conservadores ausentes em grande parte do entretenimento popular. Aqui, os fiéis podem assistir às histórias que dialogam com seu próprio mundo - filmes a respeito de proeminentes figuras da igreja ou re-encenações de passagens bíblicas - sem serem vítimas da gozação à que são frequentemente submetidos.

Este ano, a BYU Broadcasting, que é dona da BYUtv, está produzindo 25 programas, incluindo filmes para TV, roteiros dramáticos, reality shows, conteúdo religioso e um programa de culinária. Sua equipe tem 158 profissionais trabalhando em tempo integral, mais de 200 estudantes fazendo estágio em meio período e um pequeno exército de freelancers, entre diretores, produtores, contra-regras e assistentes de produção. A rede afirma que sua audiência está aumentando, e seu programa de humor Studio C tem mais de dois milhões de visualizações no YouTube. Mas ela ainda resvala em uma barreira que a distingue.

Um exemplo é Dwight in Shining Armor, um programa de comédia a respeito de um adolescente do século 21 que vive nos subúrbios e uma princesa guerreira, que estreou este ano. De acordo com Michael Dunn, o diretor administrativo da BYU Broadcasting, o programa foi testado em grupos específicos e os espectadores adoraram. Mas alguns deles afirmaram que não assistiriam ao programa porque ele foi produzido pela BYU. “As pessoas têm preconceito”, afirmou ele. “Não dá para fugir disso.”

Ainda assim, houve demanda suficiente a ponto de esse tipo de conteúdo gerar um serviço de streaming chamado Living Scriptures, cujo público-alvo é especificamente composto de mórmons - os seguidores da igreja e a instituição não se referem mais a si mesmos como mórmons, mas como Santos dos Últimos Dias. Os 2,5 mil títulos à disposição são organizados em categorias, como na Netflix.

Recentemente, um produtor chamado Aaron Merrell abriu um Livro de Mórmon em seu colo. A filmagem era de uma cena dos Vídeos do Livro de Mórmon, uma série com episódios curtos postada no YouTube, e Merrell mantinha os olhos na escritura para garantir que a ação estivesse de acordo com sua fonte de inspiração.

Além dos programas, a igreja produz vídeos motivacionais e de autoajuda, a respeito de temas como vícios e bullying. Há vídeos para uso nos templos e de instruções, para orientar missionários quanto à alimentação, higiene e exercícios. Há até conselhos de como fazer a manutenção no estacionamento da igreja. “O objetivo de todas as nossas produções é criar mensagens que convidem todos os filhos de Deus a seguir Jesus Cristo”, afirmou Scott Smiley, diretor de filmes e vídeos para a igreja. 

A técnica de produção é impressionante, conferindo aos filmes uma aparência comparável aos títulos de Hollywood. Mas, no estúdio, fica claro que Hollywood está muito longe. Para iniciar cada dia de filmagem, elenco e equipe técnica se reúnem ao redor dos monitores ou das câmeras para orar. Praticamente todos os empregados das produções destinadas à igreja são mórmons.

Becky Swasey, diretora do departamento de cabeleireiro e maquiagem do projeto dos Vídeos do Livro de Mórmon, afirmou que há uma energia no estúdio decorrente de um senso compartilhado de missão e propósito. Mas as filmagens também parecem incomuns sob outros aspectos. “As pessoas não falam palavrões. Tenho que me policiar!”, afirmou ela. “Não há café nem chá. E as pessoas tendem a ter menos ataques de estrelismo.” / TRADUÇÃO DE AUGUSTO CALIL

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