Michael Adno /The New York Times
Michael Adno /The New York Times

Produtores usam antibióticos em culturas de cítricas

Uso intensivo de drogas antimicrobianas, segundo organizações, pode provocar mutações dos germes e torná-los resistentes aos medicamentos, ameaçando milhões de vidas

Andrew Jacobs, The New York Times

27 de maio de 2019 | 06h00

ZOLFO SPRINGS, FLORIDA - Uma doença perniciosa está corroendo as laranjeiras de Roy Pettyway. A infecção bacteriana, transmitida pelo psílido asiático das cítricas, um inseto vindo da China, frustra todos os esforços para contê-lo, e está dizimando as cítricas da Florida, obrigando dezenas de produtores a abandonar o ramo. Recentemente, na tentativa de reduzir a infecção, Pettyway, com o seu pulverizador industrial, aplicou aos pés de laranjas um pesticida à base de antibióticos usados para tratar sífilis, tuberculose e ouras doenças do ser humano.

Desde 2016, a Agência de Proteção Ambiental dos Estados Unidos permite que os cultivadores de cítricas da Florida utilizem as drogas, estreptomicina e oxitetraciclina, em emergências, mas agora, a agência ampliou significativamente a sua utilização sobre 310 mil hectares na Califórnia, no Texas e em outros estados produtores. A agência aprovou a medida apesar das objeções de duas outras agências governamentais, a Administração de Alimentos e Medicamentos, e os Centros de Controle e Prevenção de Doenças (CDC), que advertem que o uso intensivo de drogas antimicrobianas na agricultura poderá provocar mutações dos germes e torná-los resistentes aos medicamentos, ameaçando milhões de vidas.

A EPA propôs permitir que sejam aplicadas 295 toneladas de estreptomicina por ano às culturas de cítricas. Em comparação, anualmente, os americanos usam 6,35 toneladas de aminoglicosídeos, a classe de antibióticos que inclui a estreptomicina. A União Europeia proibiu o uso agrícola da estreptomicina e da oxitetraciclina. É o que acontece no Brasil, onde os produtores de cítricas procuram combater a mesma praga, chamada huanglobgbing, HLB, o amarelão dos citros. Mas para os produtores da Florida, as aprovações tinham de chegar o mais rapidamente possível. O estado abastece a indústria de suco de laranja que movimenta US$ 7,2 bilhões, e emprega 50 mil pessoas - 40 mil a menos do que há 20 anos.

Pettyway afirma que as drogas permitiram recuperar grande parte de seus laranjais. “Eles tinham pneumonia, agora só estão com resfriado”, brincou. Uma aprovação temporária das drogas foi concedida no governo de Barack Obama, mas em dezembro, no governo de Donald J. Trump, a EPA deu a aprovação final à utilização mais ampla da oxitetraciclina. A agência propôs também a ampliação do emprego da estreptomicina em condições semelhantes.

Grande parte do debate sobre a possibilidade de a utilização de antimicrobianos na agricultura pôr em risco a saúde humana se concentra nos criadores de gado. Embora a pesquisa sobre o uso de antibióticos em culturas  não seja muito ampla, cientistas afirmam que ocorre a mesma dinâmica.

Os pesquisadores acreditam que o aumento da infecção pulmonar resistente a medicamentos, chamada aspergilose, esteja associada aos fungicidas usados na agricultura, e muitos suspeitam de que as drogas sejam as causadoras do aumento da Candida auris, infecção letal por fungos. As infecções resistentes a medicamentos matam anualmente 23 mil americanos e dois milhões adoecem, segundo a CDC. A ONU afirma que tais infecções poderão ceifar 10 milhões de vidas em todo o globo até 2050, superando as mortes por câncer.

Eles temem particularmente que as drogas façam com que bactérias patógenas do solo se tornem resistentes  aos compostos e depois cheguem até o homem. A outra grande preocupação é que estas bactérias compartilhem seus mecanismos resistentes às drogas com outros germes, tornando-os também resistentes a outros tipos de antibióticos.

Em sua avaliação, a EPA, que depende em grande parte dos dados dos fabricantes de pesticidas, afirmou que a estreptomicina se dissipa rapidamente no ambiente. No entanto, observou que a ampliação do uso destas drogas às culturas de citros apresenta um risco “médio”.

Um porta-voz da EPA procurou abrandar as preocupações da CDC e da FDA ordenando um maior monitoramento e limitando as suas aprovações a sete anos. Graciela Lorca, especialista em amarelão dos citros da Universidade da Florida, em razão da falta de estudos revistos por pares, não está convencida de que as drogas funcionem de fato para estas culturas. “Neste momento, emergencial”, afirmou. / TRADUÇÃO DE ANNA CAPOVILLA

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