Saiyna Bashir para The New York Times
Saiyna Bashir para The New York Times

Professor cria biblioteca sobre mercado de armas no Paquistão

Mestre em literatura, o paquistanês Raj Muhammad quer dar à leitura o espaço outrora dominado pela violência

Haroon Janjua, The New York Times

28 de junho de 2019 | 06h00

DARRA ADAMKHEL, PAQUISTÃO - O distrito tribal de Darra Adamkhel, cerca de 135 quilômetros a oeste de Islamabad, é mais conhecido por seu enorme bazar de armas. Os sons das máquinas e o martelar dos artesãos já se tornaram um fundo musical.

Raj Muhammad, morador local e apaixonado por livros, espera que o lugar se torne conhecido como a casa da Biblioteca Darra Adamkhel. Localizada ao lado de uma loja de fuzis que seu pai construiu há 12 anos, a biblioteca foi inaugurada em agosto, segundo Muhammad, uma obra inspirada pelo amor e também uma mensagem para esta região e para o mundo todo.

"Instalei as estantes de livros em cima do mercado de armas, a fim de torná-los mais elevados do que as armas", afirmou. "É um passo para a paz".

Muhammad, 32, tem mestrado em literatura urdu pela Universidade de Peshawar, e trabalhou para uma empresa de turismo de Dubai antes de voltar ao Paquistão para lecionar. Ele montou a biblioteca para que as pessoas tenham mais acesso aos livros e à educação.

Seu esforço chamou a atenção dos comerciantes de armas do mercado. Noor Ahmad Malik, que tem uma loja de armas e se interessou por livros de história, afirma que a livraria é "a melhor coisa que aconteceu recentemente para as pessoas deste lugar".

Darra Adamkhel ficou sob o controle do Taleban até que o Exército paquistanês a libertou, em 2010. No entanto, tornou-se alvo dos militantes. Em ataques a mesquitas, em 2010, eles mataram mais de 60 pessoas, e em 2012, 16, em um ataque suicida. 

Com uma população de mais de 100 mil habitantes, a cidade continua em grande parte uma terra de ninguém, onde a lei paquistanesa só começou a ser aplicada depois da fusão de áreas tribais na vizinha província de Khyber Pakhtunkhwa, no ano passado.

Os militares estão ajudando Muhammad a construir uma nova biblioteca com capacidade para 65 pessoas, por considerá-la uma maneira de encorajar a população a recuperar-se após anos de violência.

"As pessoas ainda têm muito medo e sofrem de estresse, particularmente as crianças. Mas agora, a disponibilidade de livros é uma boa opção para conseguirem conhecimento e educação", disse um oficial.

Aqui, o índice de alfabetização é de 58% entre os adultos, e acredita-se que o número de pessoas que leem ou frequentam bibliotecas seja baixo. A de Muhammad tem mais de 2.500 títulos sobre história, política, religião e ficção em urdu. Os associados já são 240 e pagam uma taxa anual de 150 rupias paquistanesas (cerca de US$ 1). Trinta são mulheres, embora esta seja uma região conservadora em que elas não têm permissão para sair de casa desacompanhadas. Em geral, as leitoras escolhem os títulos na página da biblioteca no Facebook.

Uma delas é Shifa Raj, 11, filha de Muhammad, que ajuda o pai entregando os livros para as associadas. "Eu disse às garotas da escola que nós temos uma biblioteca no nosso bairro", contou. "A resposta foi incrível".

"Quero que o mundo lembre de Darra Adamkhel não por causa das armas, mas pelos livros”, afirmou Muhammad. / TRADUÇÃO DE ANNA CAPOVILLA

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