Fred Dufour via Reuters
Fred Dufour via Reuters

Professor desafia repressão e critica presidente da China

Xu Zhangrun arriscou a própria vida ao escrever um artigo em que questiona os rumos do país liderado por Xi Jinping

Chris Buckley, The New York Times

09 Agosto 2018 | 15h15

PEQUIM - O líder máximo da China, Xi Jinping, parecia indomável quando os parlamentares aboliram o limite do mandato ao seu poder, no início deste ano. Mas, meses mais tarde, a China foi atingida pelos ventos contrários da economia, pelo escândalo com vacinas e por batalhas comerciais, encorajando os críticos em Pequim que atualmente questionam o controle total de Xi.

A censura e as punições calaram a dissensão na China desde que Xi chegou ao poder. Portanto, Xu Zhangrun, professor de Direito da Universidade Tsinghua de Pequim, assumiu um enorme risco no mês passado, quando pronunciou a mais enérgica denúncia já feita por um acadêmico chinês das medidas  intransigentes de Xi, o renascimento das ortodoxias comunistas, e o culto da personalidade.

“Os cidadãos de toda a nação, inclusive toda a elite burocrática, sentem-se mais uma vez perdidos na incerteza quanto aos rumos do país e à sua segurança pessoal, e a crescente ansiedade se espalhou atingindo um grau de pânico por toda a sociedade”, escreveu o professor Xu em um artigo publicado no site do Unirule Institute of Economics, um grupo de especialistas independentes de Pequim que recentemente foi obrigado a deixar o seu escritório.

“É muito ousado”, observou Jiang Hao, um pesquisador do Instituto. “Muitos intelectuais talvez pensem o mesmo, mas eles não ousam falar abertamente”.

O professor pediu aos legisladores chineses que mudassem o voto em março, que abolia o limite de dois mandatos para a presidência de Xi. Esse voto da legislatura abriu o caminho para que Xi, que está no cargo desde o final de 2012, possa manter o poder por mais dez anos ou mesmo mais.

O artigo apareceu no momento em que a eclosão de um conjunto de problemas deu motivo para críticas sobre a presidência de Xi, e se espalhou pela mídia social, apesar dos censores.

“Xu escreveu um desafio no próprio coração cultural da China para o coração político do Partido Comunista”, afirmou Geremie R. Barmé, um estudioso australiano da China. “O seu teor e estilo poderosos em termos culturais repercutirão profundamente no sistema do Estado chinês dominado pelo partido, bem como na sociedade como um todo”.

Nos últimos meses, a China esteve às voltas com uma disputa comercial com os Estados Unidos. Alguns especialistas em política externa chinesa sugeriram que as brigas com o governo Trump poderiam ter sido contidas se Pequim tivesse sido mais flexível e agisse mais rapidamente para acabar com o triunfalismo das declarações sobre as suas metas.

“A China deveria adotar uma postura mais comedida ao tratar de questões internacionais”, observou Jia Qingguo, professor de relações internacionais na Universidade de Pequim, em um recente fórum na capital. “Não criem esta atmosfera como se estivéssemos prestes a suplantar o modelo americano”. 

As revelações sobre as vacinas defeituosas ministradas a centenas de milhares de crianças provocaram os protestos. E, no dia 31 de julho, Xi convocou uma reunião do Politburo, um conselho da liderança do partido, que alertou contra os testes na economia. A economia vai bem, mas “enfrenta novos problemas e desafios, e o ambiente externo passou por claras mudanças”, concluiu a reunião, segundo um resumo transmitido pela agência de notícias.

O descontentamento não representa nenhuma ameaça imediata ao poder de Xi. Ele e o Partido Comunista estão firmes no controle. Muitos chineses apoiam sua dura campanha contra a corrupção e a sua promessa de tornar a China uma grande potência.

Mas pessoas de dentro do partido e especialistas estrangeiros afirmaram que aparentemente aumentam as dúvidas a respeito das medidas intransigentes de Xi depois dos recentes passos em falso.

Alguns sinais sugerem que as tensões comerciais e as críticas internas talvez já tenham levado o governo de Xi a amenizar o tom das declarações públicas. Uma série de artigos publicados no “Diário do Povo” zombou dos estudiosos e comentaristas chineses que afirmaram que a China ultrapassou os Estados Unidos no poderio tecnológico, e alertaram a mídia para que abrande o ufanismo arrogante.

“É muito cedo para saber se este tipo de críticas freará a liderança, mas é interessante que tenha havido alguma reavaliação da retórica da política externa”, disse Susan Shirk, presidente do 21st Century China Center da Universidade da Califórnia, em San Diego. Isto, prosseguiu, “sugere que há alguma capacidade de autocorreção, pelo menos no plano retórico”.

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