DANIEL LEAL OLIVAS/AFP
DANIEL LEAL OLIVAS/AFP

A influência de uma professora perfeita

Talvez porque eu tive uma professora que transformou a leitura em voz alta em cerimônia, ritual e drama convincente, eu cresci para encontrar minha causa na promoção da leitura em voz alta em exames de pediatras

Perri Klass, The New York Times - Life/Style

14 de março de 2021 | 05h00

A Fantástica Fábrica de Chocolate foi publicado em 1964. Então, quando minha professora o leu em voz alta para minha turma da quarta série, o livro tinha apenas alguns anos. Ela tinha uma boa percepção sobre futuros clássicos, a minha professora da quarta série.

E ela fazia uma grande cerimônia a cada leitura: acendia uma vela de leitura especial enquanto lia para nós o capítulo do dia, depois nós a soprávamos juntos e ela dizia: “Lá se vão seus desejos na fumaça – que todos se tornem realidade”.

Hoje em dia, acho que você não teria permissão para levar uma vela para dentro de uma sala de aula. Então nem tenho certeza se deveria contar sobre as pílulas mágicas: ela tinha uns potes de doces – um com sabor de canela (Red Hots), eu me lembro bem, e M&Ms – que eram rotulados para assuntos diferentes. Se você precisasse de ajuda com matemática, você podia pedir uma “pílula matemática”. (Sim, eu sei, não seria permitido agora, com todas as preocupações sobre o açúcar e a cultura das pílulas – mas tenho de dizer, essas pílulas de matemática funcionaram).

Como você pode ver, na quarta série, tive a professora perfeita. O nome dela era Miriam Marecek – e estou escrevendo este texto porque ela morreu em outubro passado, após uma longa e difícil luta contra a esclerose múltipla, mas, é claro, gostaria de ter escrito antes, quando ela ainda estava aqui para ler.

Na verdade, ela se tornou a doutora Miriam Marecek na década de 1970, quando obteve o doutorado em educação, mas, para mim, ela sempre foi a Srta. Marecek, porque eu passei a quarta série na turma da Srta. Marecek e isso mudou minha vida.

Tive sorte naquela que provavelmente foi a escola perfeita para mim; minha educação começara durante o ano que minha família passara na Índia rural, quando frequentei uma escola de convento. À época, eu tinha 6 anos e as freiras missionárias, por meio de uma pedagogia rigorosa (e do medo de castigos corporais), conseguiram me ensinar a leitura, a escrita e a aritmética que eu teria aprendido nas primeiras séries de uma escola americana.

Quando voltamos da Índia, meus pais me mandaram para a Agnes Russell School, uma escola “laboratório” associada ao Teachers College de Columbia (meu pai lecionava em Barnard), onde prometeram que eu não teria de aprender a ler tudo de novo; era uma escola “progressista” e eu poderia seguir no meu próprio ritmo.

Passei quatro anos muito felizes naquela escola. Tenho lembranças agradáveis de professores experimentando conosco todos os tipos de novas técnicas educacionais (levante a mão quem aprendeu matemática nas hastes da Cuisenaire – e que tal aqueles cartões SRA para leitura?).

Era uma escola pequena e, pelo que me lembro, cheia de alunos cujas trajetórias educacionais foram bem interessantes, de uma forma ou de outra. Minha mistura de educação de convento e proximidade com divindades hindus, cujas cerimônias meu pai antropólogo estudara em Bengala Ocidental, se encaixou perfeitamente com as probabilidades intelectuais que meus colegas acumularam ao acompanhar seus pais desde a pós-graduação até a viagem de pesquisa para o primeiro ano em cargo docente.

Tínhamos uma biblioteca excelente, onde você podia ler no sofá, se terminasse seu trabalho mais cedo, e uma bibliotecária escolar excelente, sempre pronta para recomendar livros. Também tínhamos ratinhos brancos em sala de aula, que provavelmente vinham dos laboratórios de ciências da faculdade, e grandes potes nos quais criávamos larvas de farinha. Mas a quarta série foi, sem dúvida, a melhor, porque na quarta série, como eu disse, eu tive a professora perfeita.

Miriam Marecek me encontrou mais uma vez, algumas décadas depois; ela tinha lido alguma coisa que eu havia publicado e me ligou. Sei o que disse quando ela perguntou se eu me lembrava dela, porque na época escrevi uma história sobre isso: “Senhora Marecek! A vela de leitura! Uma dobra no tempo!”. Como eu disse, ela tinha uma boa percepção para os futuros clássicos.

Miriam Marecek nasceu em Praga, durante a Segunda Guerra Mundial. Mais tarde, escreveu sobre sua infância num livro de memórias, Escape From Prague [algo como “Fuga de Praga”]. Sua mãe foi debutante, cantora de ópera e, depois, professora, e seu pai, ela escreveu, era um “jornalista, acadêmico e diplomata” que corria perigo por ser dissidente. Em 1948, o embaixador americano ajudou a família a chegar aos Estados Unidos.

Quando estava na quarta série, acho que não entendia que os professores tinham histórias anteriores nem que, na verdade, seguiam vivendo vidas complicadas e individuais depois que eu passava para a série seguinte. Foi só décadas mais tarde – depois daquele telefonema – que soube que a Srta. Marecek tinha feito pós-graduação, se tornado professora de educação e que a literatura infantil ainda era seu grande amor e sua especialidade.

Eu não sabia a sorte que tive de ter uma professora que escolhia livros tão incríveis e fazia da leitura em voz alta uma cerimônia, um ritual, um drama pungente. E não sabia que, quando crescesse, encontraria minha causa na pediatria, trabalhando com a Reach Out and Read, uma organização nacional de alfabetização por meio da qual os médicos, durante os exames, conversam com os pais sobre a importância da leitura em voz alta e lhes fornecem livros. Quando me reconectei com a professora, ela se tornou um dos primeiros membros do conselho consultivo e ajudou a escolher os livros.

Eu gostaria de falar aqui sobre professores e como as crianças pequenas aceitam o que seus professores têm a oferecer com uma espécie de ganância prática, sem parar para se maravilhar com o que está sendo transmitido, para se perguntar como o conhecimento é adquirido, para examinar as próprias paixões do professor.

E, considerando os tempos que estamos vivendo, gostaria de dizer algo em agradecimento a todos os professores que estão conseguindo transmitir suas paixões remotamente neste ano – e lamentar os dias que as crianças estão perdendo em salas de aula que poderiam ser emocionantes ou até mesmo mágicas. Mas, de verdade, tudo o que quero dizer é que, quando você tem sorte com um professor, você realmente tem sorte.

Miriam Marecek passou o resto da vida profundamente envolvida com a literatura infantil – ensinando-a a estudantes universitários e a pós-graduandos em educação, aconselhando distritos escolares sobre livros e alfabetização, mantendo um site como a “Mulher dos livros infantis”, correspondendo-se com autores e ilustradores – em suas memórias, ela reproduz conversas com Maurice Sendak e Uri Shulevitz.

Depois daquele telefonema, soube que ela morava não muito longe de mim, numa casa cheia de livros infantis (claro), na cidade de Winchester. Nunca superei a sensação de que era uma casa mágica, como tinha sido uma sala de aula mágica. Ela mandou livros para meus filhos e para os filhos de meu irmão. Conheci seus três filhos e, quando sua filha acabou se tornando pediatra, tive um forte sentimento de orgulho e alegria.

Na última parte de sua vida, à medida que a esclerose múltipla gradualmente diminuía sua mobilidade, ficar naquela casa se tornou sua causa. Graças à sua família e a amigos dedicados, ela conseguiu, cuidada por uma sucessão de cuidadores notáveis, lendo histórias para seus netos pessoalmente e à distância, continuando a ler, a pensar e a se conectar.

Fiquei muito feliz por ela ter me encontrado quando já era adulto, assim pude saber mais de sua história e passar mais tempo com ela. Estou com saudades dela e gostaria de ter escrito este texto quando ela ainda estava aqui para ler. Mas um brinde a Miriam Marecek, aos professores, a tudo o que eles podem significar e a tudo de bom que uma sala de aula pode proporcionar. / TRADUÇÃO DE RENATO PRELORENTZOU

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