Dado Galdieri para The New York Times
Dado Galdieri para The New York Times

Professora protesta com 'balé de sangue' no Rio

Sob a ameaça de fechamento da escola após o período eleitoral, ela alerta: 'estamos sangrando'

Ernesto Londoño, The New York Times

04 Agosto 2018 | 10h30

RIO DE JANEIRO - As jovens alunas da turma de balé entraram na sala com tinta vermelha espalhada nos colantes, simulando manchas de sangue.

Era um figurino macabro para meninas de até 7 e 8 anos, numa apresentação assistida pelo prefeito e governador.

Para entender por que a professora de balé Daiana Ferreira de Oliveira, tão amada por suas alunas, optou por vesti-las assim, é preciso ter em mente como foi a infância dela.

Daiana tinha 6 ou 7 anos quando a mãe a levou do bairro pobre do Rio de Janeiro onde moravam até o Teatro Municipal, no centro, para assistir a uma produção de "Lago dos Cisnes". A família se destacou em meio à plateia: uma mãe solteira negra, que ganhava a vida como faxineira, conduzindo as duas filhas em meio a uma plateia quase exclusivamente branca.

A mãe dela, Rosali Ferreira dos Santos, enxergava esse tipo de passeio como algo essencial para as filhas. "Minha mãe disse que precisávamos de cultura", disse Daiana, 29 anos. "Para mim, não era uma questão de ser rica ou pobre". 

E a dança a encantou."Foi como um anestésico", lembrou ela.

Os traficantes de drogas controlam há anos lugares como a favela de Manguinhos, um dos bairros mais pobres da cidade, onde Daiana cresceu. As drogas são vendidas abertamente nas favelas, expostas em mesas. O lixo é queimado nas calçadas.

Quando Daiana conquistou seu diploma de educação física em 2012, a situação no Brasil parecia apontar numa direção otimista. Um sinal tangível dessa mudança era a biblioteca financiada pelo estado em Manguinhos, onde Daiana começou a oferecer aulas de balé clássico em 2014.

Mas o otimismo logo deu lugar ao pessimismo, com o país mergulhando numa recessão econômica puxada pela corrupção política. Entre as iniciativas ameaçadas de corte estava a biblioteca dela. Sem desistir, Daiana invadiu a biblioteca abandonada, limpou o espaço e instalou um cadeado. Procurou o líder local do tráfico e pediu a ele que poupasse a biblioteca dos saques que acometiam os demais prédios abandonados. O traficante, que respeitava o trabalho dela, concordou. E os pais a apoiaram, trazendo as filhas para continuar as aulas.

"Era uma forma de elas entenderem o mundo lá fora, um mundo que não existe aqui", disse Tatiane Ribeiro Barboza, 40 anos, que tem duas filhas na turma. Mas o principal atrativo era o convívio com Daiana. “Elas veem uma mulher sem fraquezas", disse ela.

Este ano, correu o boato de que a biblioteca seria reaberta. Daiana não ficou animada com a notícia. A biblioteca foi inaugurada num ano de eleição, e agora seria reaberta durante outro ano eleitoral. Os políticos sempre tinham interesse em usar fotos da turma de balé dela em suas campanhas, mas não faziam nada para apoiá-la depois das votações.

Assim, quando pediram a Daiana que preparasse um número de dança para a reabertura do espaço, da qual participariam o governador Luiz Fernando Pezão e o prefeito Marcelo Crivella, ela decidiu proporcionar a eles um momento inesquecível.

Prefeito e governador pareciam mortificados quando as pequenas dançarinas entraram em cena, com as roupas sujas de tinta vermelha, se fingindo de mortas. Daiana gritou: "Não somos apenas votos! Se a biblioteca for fechada após as eleições, nós voltaremos e não sairemos daqui".

Quando terminou, ela pediu às bailarinas que se levantassem.

"Vocês não estão mortas", disse-lhes. "Foi apenas uma maneira de chamar a atenção para o fato de que estamos sangrando todos os dias aqui".

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