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Elaine Cromie/The New York Times
Elaine Cromie/The New York Times

Profetas cristãos estão em ascensão. O que acontece quando eles erram?

Eles são estrelas em um dos setores de crescimento mais rápido do cristianismo americano. Agora, parecem estar em crise

Ruth Graham, The New York Times - Life/Style

04 de março de 2021 | 05h00

Jeremiah Johnson, 33 anos, se autodenomina um profeta e foi um dos poucos cristãos evangélicos que levou a sério o futuro político de Donald Trump em 2015.

Esse histórico criou um público leal de centenas de milhares de pessoas que o seguem nas redes sociais e se apegam a suas previsões sobre tópicos como a pandemia do novo coronavírus, a composição da Suprema Corte e a possibilidade de renascimento espiritual nos Estados Unidos. E eles se confortaram antes da eleição presidencial, quando Johnson compartilhou um sonho profético de Trump tropeçando enquanto corria a Maratona de Boston, até que duas mulheres mais velhas e frágeis surgiram do meio da multidão para ajudá-lo a cruzar a linha de chegada.

Portanto, quando Joe Biden foi decretado como o vencedor da eleição, Johnson teve de admitir que ele tinha decepcionado seus seguidores.

“Eu estava errado, lamento profundamente e peço perdão a vocês”, escreveu ele em uma carta de esclarecimento que postou online. “Eu gostaria de expressar meu profundo arrependimento por profetizar incorretamente que Donald Trump ganharia um segundo mandato como presidente dos EUA”.

O desejo de adivinhar o futuro é venerável, alimentando a em figuras desde os oráculos gregos antigos aos astrólogos modernos. O cristianismo, em particular, é uma religião cujo texto fundamental está repleto de profecias comprovadas até o final do livro. Se o dom da profecia continua até os dias atuais, há muito tem sido assunto de intenso debate teológico.

Mas nos últimos anos, aqueles que se autodenominam profetas se proliferaram em todo os EUA, ganhando ainda mais espaço ao longo da era Trump. Eles são estrelas no que agora é um dos setores de crescimento mais rápido do cristianismo: um movimento frouxo, mas fervoroso, liderado por centenas de pessoas que acreditam poder canalizar poderes sobrenaturais - e têm percepções espirituais especiais em relação aos eventos mundiais.

Muitos são evangelistas independentes que não lideram igrejas ou outras instituições. Eles trabalham principalmente online e por meio de apresentações em conferências ou como palestrantes convidados em igrejas, ganhando dinheiro com a venda de livros, doações e pagamentos de palestras. E eles são parte do crescente apelo de conspirações em ambientes cristãos, ecoado pela popularidade do QAnon entre muitos evangélicos e uma resistência às fontes de informação tradicionais.

A imaginação profética vai muito além da política nacional. Acompanha o Super Bowl e o clima, analisa eventos na cultura pop, como a recente mudança de Kanye West em direção ao evangelismo e eventos globais, incluindo um fascínio particular por Israel. Muitos profetas alertam os seguidores a não confiar no que leem nas notícias e, no lugar delas, oferecem uma espécie de ciclo de notícias alternativas, refratando e interpretando eventos no mundo real por meio de lentes sobrenaturais.

“Em minha vida - 49 anos como seguidor de Jesus - nunca vi esse nível de interesse em profecia”, disse Michael Brown, um radialista e comentarista evangélico, que acredita em profecia, mas pede maior responsabilidade quando as profecias se mostram falsas. “E é lamentável, porque é uma vergonha para o movimento”.

O ano passado foi repleto de profecias que não deram certo. Quando o novo coronavírus atingiu os EUA, vários profetas publicaram garantias públicas de que ele diminuiria até a Páscoa. Cindy Jacobs, uma das profetas americanas mais influentes, liderou um dia global de oração para “conter” o vírus em março. E tantos profetas famosos previram incorretamente a reeleição de Trump que as desculpas e recriminações agora constituem uma crise dentro do movimento.

A reação ao pedido de desculpas de Johnson foi imediata. No Facebook, ele relatou que recebeu “várias ameaças de morte e milhares e milhares de e-mails de cristãos dizendo as coisas mais desagradáveis e vulgares que já ouvi sobre minha família e meu sacerdócio”. Ele também disse que havia perdido financiamento de doadores que o acusavam de ser "um covarde, vendido e traidor do Espírito Santo".

Mas a popularidade dos profetas autoproclamados não mostra sinais de estar diminuindo. À medida que o cristianismo denominacional declina quase em todo o mundo, os atraente líderes independentes adentram um terreno sem regras.

“Existe essa ideia de que você não pode confiar em ninguém, exceto nesses indivíduos de confiança”, disse Brad Christerson, um sociólogo da evangélica Universidade Biola. “É um sintoma do nosso tempo. As pessoas não confiam nas instituições e pensam que todas as instituições convencionais são corruptas: universidades, ciência, governo, mídia. Elas estão em busca de verdadeiras fontes da verdade”.

Os profetas cristãos estão satisfazendo uma fome de confirmação e clareza que pode ser observada em outros cantos da cultura americana. A popularidade da astrologia está explodindo. Mais de 40% dos americanos acreditam em médiuns, de acordo com pesquisa do Pew Research Center.

A profecia, da mesma forma, não é apenas uma ferramenta de previsão, mas também uma lente analítica para dar sentido aos eventos passados e atuais. Os profetas mais bem-sucedidos podem conectar pedaços de dados aparentemente díspares em uma grande narrativa, adicionando novas camadas de interpretação à medida que os eventos se desenrolam e convidando outros a contribuir.

Mike Killion, que era motorista de ônibus fretado na Carolina do Norte até que a pandemia acabou com seu negócio, presta atenção ao que chama de “sincronicidades” e outros podem chamar de coincidências. Ele acredita que Deus está profundamente envolvido nos eventos mundiais e intimamente ligado às orações de seu povo.

Se o telefone de Killion está sobre a mesa e ele menciona que quer fazer um cruzeiro, por exemplo, o telefone "escuta" ele e começa a oferecer anúncios de cruzeiros, disse.

Deus trabalha da mesma maneira”, explicou ele. "Ele está ouvindo tudo que você diz". Os profetas nem sempre estão certos sobre todas as previsões, disse Killion, e certamente nem sempre estão certos instantaneamente.

“Existe essa ideia de que os profetas têm que estar certos o tempo todo, e têm que estar certos na próxima semana”, disse Killion, “quando há profetas na Bíblia que tinham profecias que não foram cumpridas durante o tempo em que estiveram vivos”.

Killion zombou de Johnson por voltar atrás em sua profecia em relação à vitória de Trump em 2020.

“Jeremiah Johnson deveria ter ficado de boca fechada”, disse ele alguns dias antes da posse de Biden. “Isso ainda pode acontecer”.

Johnson, por sua vez, parece permanecer castigado. Esta semana, ele começou uma série no Youtube intitulada “I Was Wrong” (Eu estava errado), na qual planeja avaliar o que é o movimento profético e onde, em sua opinião, ele deu errado.

No primeiro vídeo, ele revisou algumas de suas profecias anteriores sobre política e eventos nacionais e destacou como havia errado em 2020. “Nem tudo o que Deus nos fala em particular deveria ser de conhecimento público”, disse soturnamente. “Eu me deixei levar pelo momento”.

Ele falou a respeito de sua esperança de "reforma" e suas preocupações sobre o julgamento de Deus que viria. E em episódios futuros da série, prometeu, vai compartilhar o que Deus está mostrando a ele em relação ao que vai acontecer daqui para frente. / TRADUÇÃO DE ROMINA CÁCIA

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