Dado Galdieri para The New York Times
Dado Galdieri para The New York Times

Profissionais de saúde correm para vacinar população contra febre amarela

Doença que já matou 237 pessoas no Brasil, desde o início do verão, agora atinge metrópoles

Shasta Darlington e Donald G. McNeil Jr., The New York Times

13 Março 2018 | 10h00

SÃO PAULO - “Bom dia!”, berrava em uma dessas manhãs um alto-falante no bairro Jardim Monte Alegre, na periferia de São Paulo. “Recebemos a sua vacina contra a febre amarela, e hoje estamos indo de casa em casa! É melhor você acordar porque os mosquitos não dormem!”

Vinte funcionários da saúde pública saíram dos carros, rindo e conversando com moradores enquanto começavam a desempenhar sua missão vital. 

O Brasil está enfrentando seu pior surto de febre amarela após muitas décadas. O vírus, que mata de 3% a 8% das pessoas infectadas, agora ronda grandes metrópoles como Rio de Janeiro e São Paulo, e ameaça provocar a primeira grande epidemia urbana do país desde 1942.

Embora tenham ocorrido apenas 237 mortes desde o início do verão, a taxa de mortalidade explodirá se o vírus chegar até as favelas e às nuvens de Aedes aegypti que vivem ali.

O A. aegypti é também o causador da zika, dengue e chikungunya.

No início de 2016, o vírus da febre amarela abandonou o seu padrão normal: uma difusão limitada pelos mosquitos da floresta desde os macacos aos operários de madeireiras, caçadores, agricultores e outros habitantes da bacia do Amazonas. O vírus começou a dispersar-se em direção ao sul e ao leste, seguindo os corredores da floresta habitados pelos macacos rumo às grandes cidades da orla e desencadeando uma emergência de saúde pública.

Tomados pelo pânico, brasileiros começaram a atirar, a espancar até a morte e envenenar macacos, acreditando que isto deteria o avanço da doença. Na realidade, afirmaram as autoridades, isto  prejudicou os esforços para detectar o vírus, porque as mortes dos macacos são usadas como um indicador de sua direção.

No ano passado, as cidades praticamente não foram atingidas - os casos foram diminuindo até julho, com a chegada do inverno. As autoridades de saúde global ficaram aliviadas, na esperança de que campanhas de vacinação intensa acabariam com o surto.

Mas não foi o que aconteceu, disse o dr. Sylvain Aldighieri, diretor do Programa de Emergências da Organização Pan-Americana da Saúde.

“Existe uma transmissão confirmada pelos laboratórios durante o inverno”, ele afirmou. “Foi por isso que a quantidade do vírus existente no início do verão já era grande”.

O vírus ressurgente agora viaja quase dois quilômetros por dia, segundo o especialista, e os esforços para deter a epidemia se tornaram uma corrida entre o vírus e os vacinadores.

O número de casos deste ano é 26% superior ao mesmo período no ano passado, e com os meses mais quentes e mais chuvosos, este número deverá aumentar.

Este ano, a febre amarela - assim chamada porque os olhos das pessoas infectadas adquirem uma cor amarelada, assim como a pele, o seu sintoma mais comum - começou a matar turistas estrangeiros, inclusive visitantes da Ilha Grande, um paraíso turístico ao sul do Rio de Janeiro. Dois cidadãos chilenos e um suíço caíram vitimas, e visitantes da França, Holanda e Romênia ficaram gravemente doentes.

O Brasil produz sua própria vacina e grande parte do caos que se instalou este ano poderia ter sido evitado se o governo tivesse agido com maior presteza, afirmam os críticos. Ocorre que os baixos preços do petróleo afetaram todos os setores da economia. Além disso, o país passa por uma série de crises políticas que contribuíram para distrair a atenção das autoridades.  

“O sistema de saúde pública brasileira demorou demais para agir”, segundo a dra. Karin A. Nielsen, especialista em moléstias infecciosas na Universidade da Califórnia, em Los Angeles, que faz pesquisa no Brasil. “Os macacos estavam morrendo no mato há dois ou três anos”.

O dr. Renato Vieira Alvez, o coordenador de doenças transmissíveis do Ministério da Saúde, discordou. “As campanhas de vacinação não podem ser lançadas de uma hora para a outra”, ele disse. “Estes novos casos estão ocorrendo em sua maioria em áreas em que, até agora, nós não recomendávamos a imunização”, acrescentou.

O esforço para vacinar 23 milhões de pessoas se reduziu porque falsos rumores começaram a correr a respeito da vacina.

“Quando as pessoas pararam de nos procurar, começamos a ir até elas”, disse Nancy Marçal Bastos, diretora de Saneamento e Saúde do norte de São Paulo. “As pessoas apresentam um monte de desculpas por não terem recebido a vacina ainda, mas quando nós aparecemos, em geral, é fácil convencê-las”.

Carregando caixas de isopor com gelo cheias de vacinas, os trabalhadores da saúde param no bar da esquina e no ginásio local, perguntando: “Quem ainda não foi vacinado? Façam uma fila!”

No outono, longas filas se formaram nos hospitais; em um único fim de semana foram distribuídas 85 mil  doses. Então o movimento contra a vacina começou a espalhar boatos assustadores prejudicando a campanha.

Lúcia Helena de Paula, 36, explicou a sua preocupação: “Vi um vídeo no WhatsApp com uma moça que dizia que ficou paralítica depois de tomar a vacina”.

Mas, depois das palavras tranquilizadoras de uma enfermeira, ela concordou em tomar a vacina.

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.