Ruth Fremson/The New York Times
Ruth Fremson/The New York Times

Programa ensina lições para sobreviver na selva

“Não quero ensinar as pessoas como sobreviverem e depois voltarem à civilização. E se não quisermos voltar à civilização?”, questionou a organizadora do projeto

Nellie Bowles, The New York Times

13 de março de 2020 | 06h00

CONDADO DE OKANOGAN, WASHINGTON — Quando chegar o fim do mundo alguns não estarão num bunker para se salvar. Eles correrão para a floresta dispostos a matar um veado, queimar a pele de um animal e dormir num abrigo construído à mão, ao lado de uma fogueira que farão com a força das palmas da mão e alguns gravetos.

Quatro horas distante do aeroporto de Seattle, em um vale chamado Methow, Lynx Vilden estava ensinado algumas pessoas a viver na selva, do mesmo modo que os homens da Idade da Pedra faziam. Não só poderão viver melhor do que nas cidades como também serão melhores competidores no Vale do Silício.

“Não quero ensinar as pessoas como sobreviverem e depois voltarem à civilização. E se não quisermos voltar à civilização?”, disse Lynx. Hoje algumas pessoas vêm analisando o que significa viver num mundo que pode acabar por causa de uma pandemia. Mas outras já vivem como se fosse na selva. Algumas porque gostam. Outras porque acham que já começou o fim desse mundo.

Algumas vezes por ano, Lynx oferece um programa de 10 dias sobre como viver na selva. Mas o sonho dela, disse às pessoas reunidas para o curso, é a preservação humana. Seu sonho se chama Settlement. Ele terá uma escola que as pessoas frequentarão com roupas normais e aprenderão a tostar a pele de um animal.

Mas entrar na reserva propriamente dita significará se submeter a ela. “Você entra nela nu e se conseguir criar alguma coisa a partir do que essa terra tem a oferecer, então poderá permanecer ali. Serão essas pessoas que retornarão à vida selvagem. Estou imaginando que daqui a duas ou três gerações surgirão crianças selvagens reais”.

Levantamos nossas barracas. Assustou-me o fato de que não havia nenhuma recepção de celulares. Nós nos comunicamos durante a semana por meio de assobios. Um assobio significa voltar. Dois significa “reunir”. Três assobios significam uma emergência próxima de um risco de morte.

A classe poderia estar ali em busca de algo antigo, mas trouxeram consigo os hábitos de comida modernos. Num grupo de sete, um aluno era um carnívoro inveterado. Outro era vegano. Um aluno disse ter problemas com condimentos e que até pimenta preta era algo fulminante. Uma mantinha uma dieta paleolítica, outra tinha alergia a alho, e uma não consumia glúten.

Louis Pommier, chefe francês que se transformou num mochileiro trocou suas habilidades na cozinha por uma presença no curso. Ele concordou com as restrições à medida que eram listadas, mas na maior parte as ignorou. Na primeira noite, cozinhou um frango ao curry.

Muitas das pessoas presentes se sentiam inúteis na sua vida. Algumas havia acabado de deixar o emprego. Lynx disse que muitos alunos que vêm para os cursos intensivos com a duração de um mês são divorciados ou prestes a se separarem. Vários disseram sentir vergonha de como suas mãos eram macias e o quão dependentes eram da TV para conseguirem dormir.

Despertamos na manhã seguinte e nos reunimos em torno de uma fogueira para cozinhar ovos. Logo depois aprendemos como cortar e derrubar uma árvore. Primeiramente Lynx saudou a árvore. “Se está disposta a ser derrubada, nos dará um sim?", ela perguntou. E balançou com força a árvore. Chamou isto um teste de músculos. Aparentemente a árvore disse sim. “Temos de matar para viver”, disse ela.

Muitos alunos trouxeram consigo facas e machados elegantes, de festivais de retorno à vida primitiva. Há um circuito de festivais de volta à selva que vem prosperando, mas quando as pessoas se defrontam com uma árvore de verdade, usam um velho machado no lugar. A vibração era uma combinação do clima do Burning Man (considerado o maior festival de contracultura no mundo), uma feira renascentista e uma fantasia religiosa apocalíptica.

Tiramos a casca da árvore e extraímos a camada mais interior e macia que fervemos em água. E que seria usada para tostar a pele. Lynx demonstrou como curtir a pele de um animal usando o osso da corcova de um búfalo. Ela nos mandou buscar os ossos na cozinha. Nossa tarefa era tirar os músculos e a gordura. A pele era pesada, úmida e começava a apodrecer. Ela tocava uma flauta feita com a perna de um cervo enquanto nós trabalhávamos.

Aquela noite estava muita fria e usei todas as peças de roupa que trouxe comigo. Lynx nos acomodou em grandes pedras aquecidas pela fogueira, girando-as como batatas e cobrindo-as com cobertores de lã. Lynx, de 54 anos, é uma mulher magra e bastante enrugada. Ela sempre está de cócoras.

Nós usávamos calças de couro apertadas. O objetivo era trazer nossos inconscientes animais para cá. Um dia Lynx quis que fossemos à cidade para fazer compras de comida. Ela colocou suas peles. Nosso cheiro era repugnante. Empreendemos nosso caminho cheirando gordura de cervo apodrecida e fumaça.

Há vários lugares de retorno à selva surgindo. Um deles está no Maine, onde um grupo trabalha para copiar uma comunidade de caçadores. O que era um punhado de escolas sobre como sobreviver na selva, hoje se tornou uma indústria com centenas delas. Um grupo de antigos alunos de Lynx nos visitou e nos sentamos em torno de uma fogueira. Eles tinham duas crianças a tiracolo e hidromel feito em casa. Começaram aquela vida exatamente como nós, disseram.

Visitei seu enclave no dia seguinte. Seguindo por uma estrada suja, passando por cabanas e cavalos, cheguei ao local onde eles haviam construído uma série de barracas e abrigos. Epona Heathen, de 33 anos, tinha um nome diferente. Ela ouviu o chamado da selva quando estudava na universidade da Califórnia, em Berkeley.

“Estou escrevendo este documento e a cadeira está trêmula e não sei como consertá-la, disse Epona, acrescentando que “um dia achei que tudo era uma droga. Vivemos mês a mês. Gastamos todo nosso dinheiro em bebida e café. Não conseguimos poupar. Não podemos viver assim. Falamos de voltar à terra, mas não sabemos nada a respeito”. Então ela, como outros, encontrou Lynx. E decidiu partir para uma imersão de seis meses na Idade da Pedra.

O parceiro de Epona, Alex, de 31 anos, que trabalhava num supermercado como especialista em vinhos, comprou uma propriedade vizinha. Hoje, uma dezena de cabanas estão no entorno. A cabana de Epona tem cerca de cinco metros, com um pequeno fogão à lenha. Grande parte da sua comida e remédios é seca em jarras. Ela tem um gato e um cachorro. “As pessoas dizem, ‘quando chegar o apocalipse’, do que você está falando?’. Está aqui”, disse ela.

O casal Heathen, como o grupo os denomina, às vezes chamam as cidades de onde vieram de Babilônia. O maior desafio, os dois afirmam, é que ninguém em torno deles é velho. “A maioria está na faixa dos 20 anos, 30 anos. Você começa onde estão os buracos na sociedade e hoje os nossos são os mais velhos”.

Há muitas pessoas para uma variedade de triângulos amorosos. Epona e Alex se separaram. Roxanne, que tem 26 anos, cabelos ruivos e crespos, veio para a comunidade, disse ela. Ela trabalhava ao lado de Alex, esfregando sal nas peles. Ela chegou há algumas semanas e antes trabalhava numa cafeteria.

“Você sabe, este negócio de viver o sonho é uma realidade dura!”, disse ela. Descendo a colina há uma casa principal com uma linha de telefone fixo que todo mundo usa. Há um búfalo estripado para secar do lado de fora e uma pilha de pernas de cervos na porta. Mais jovens em forma e empoeirados ali estão, descansando.

“Do ponto de vista de uma mente de engenheiro racional examinando essas tendências nos dados, nossa utilização dos recursos naturais está além da capacidade natural da terra e estamos vendo basicamente um colapso do ecossistema”, disse Matt Forkin, engenheiro de hardware na empresa X, divisão de tecnologia experimental da Alphabet. “Acho que chegará um tempo em que essas habilidades serão úteis para muitas pessoas”, acrescentou.

Lynx ficou aborrecida com o fato de eu deixar o casal Heathen visitar sua propriedade. Sua filha Klara vive em Washington. Lynx é solteira e isso estava começando a incomodá-la. Ela teve uma infância tradicional em Londres, mas aos 17 anos saiu de casa para tocar música. Foi para a Suécia e entrou numa escola de arte. Um dia ela se encontrou com um homem e eles foram para Washington. E então ela foi para a selva.

Durante o tempo ela esteve casada com um homem chamado Ocean. Tiveram uma filha, Klara. Ela alfabetizou a menina em sua casa nas montanhas em Montana, mas Klara decidiu ir viver com o pai. Lynx se aprofundou na selva. Mas mesmo ela não consegue escapar do dinheiro. Um curso de uma semana custa US$ 600.

“Tenho de ter uma base em dois mundos para manter algum semblante de como desejo viver neste mundo”, disse ela. E caso você esteja pensando nisto, em setembro Lynx vai comandar um outro projeto da Idade da Pedra, em terras públicas vizinhas. Todas as roupas devem ser feitas à mão, todo alimento coletado.

Imaginamos que uma pessoa que deseja viver na selva está fazendo isto para ficar sozinha. As pessoas com as quais me encontrei desejam o oposto. “A cidade na verdade é o local em que existe um extremo individualismo” disse minha colega de classe Joan, que cresceu na área suburbana da Filadélfia. “Aqui estou usando minhas mãos e ao lado de pessoas o dia todo”.

Juntos, na selva, todos tiveram de abrandar seu temperamento. Uma noite, um dos rapazes disse algo ofensivo sobre papéis de gênero e nós, mulheres, ficamos chateadas. Mas então tivermos de parar de discutir porque não havia ninguém mais com quem se comunicar.

Meu único entretenimento eram as pessoas ao meu redor. Num certo dia eu me vi separada do grupo. Assobiei uma vez. Depois duas. Eu me sentei e esperei aterrorizada quando começou a escurecer. Não queria ficar sozinha um minuto. Gritei de alegria quando o grupo apareceu, caminhando todos juntos.

Realmente voltar à natureza significa ter responsabilidade social também”, disse Epona. “Alguém diz que você tem um defeito de personalidade e você não consegue evitar as pessoas. Tem de reagir. Você se adapta. O individualismo extremo é uma mentira. Não pode sobreviver”. / TRADUÇÃO DE TEREZINHA MARTINO

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