Erin Trieb para The New York Times
Erin Trieb para The New York Times

Programa repreende muçulmanos na China e recebe críticas internacionais: 'Lavagem cerebral'

É o programa de concentração mais abrangente do país desde a época de Mao

Chris Buckley, The New York Times

27 Setembro 2018 | 15h15

HOTAN, China - Na orla de um deserto no extremo ocidente da China, uma construção pouco convidativa 

fica envolta por uma cerca coberta de arame farpado. Caracteres vermelhos na fachada insistem para que as pessoas aprendam chinês, estudem as leis e aprendam habilidades para trabalhar. Os guardas deixam claro que visitas não são bem-vindas.

Do lado de dentro, centenas de muçulmanos da etnia Uighur passam seus dias num programa de doutrinamento de alta pressão, no qual são obrigados a ouvir palestras, cantar hinos elogiando o Partido Comunista chinês e escrever ensaios de “autocrítica”, de acordo com ex-prisioneiros.

O objetivo é acabar com toda a devoção ao Islã. Abdusalam Muhemet, 41 anos, disse que a polícia o deteve por recitar um verso do Alcorão durante um funeral. Depois de dois meses num campo nas imediações, ele e mais de 30 outros receberam ordens para renunciar às suas vidas anteriores. Muhemet disse que fingiu cooperar, mas, internamente, rangia os dentes de raiva.

“Não era uma instalação para acabar com o extremismo", lembrou ele. “Era um lugar que vai produzir sentimentos de vingança e apagar a identidade Uighur.”

Este campo nos arredores de Hotan é um dentre centenas de instalações semelhantes construídas pela China nos anos mais recentes. Faz parte de uma campanha que varreu centenas de milhares de muçulmanos chineses para um processo que os críticos descrevem como lavagem cerebral, em geral sem terem sido acusados de nenhum crime.

É o programa de concentração mais abrangente do país desde a época de Mao - e tem sido foco de um coro cada vez maior de críticos internacionais.

Durante décadas, a China buscou restringir a prática do islamismo e governar com punho de ferro a região de Xinjiang, onde mais da metade dos 24 milhões de habitantes pertence a minorias étnicas muçulmanas. A maioria é de uighures, cuja religião, idioma e cultura, além do histórico de movimentos de independência, há muito tiram o sono de Pequim.

A China nega categoricamente as denúncias de abusos em Xinjiang. Numa reunião de um painel das Nações Unidas realizada em Geneva em julho, o país disse que não mantém campos de reeducação, descrevendo as instalações em questão como instituições corretivas que oferecem treinamento ocupacional.

Ex-prisioneiros libertados recentemente dos campos descreveram os abusos físicos e verbais dos guardas; uma rotina exigente de cantos, palestras e reuniões de autocrítica.

Num estudo publicado no ano passado, a estudiosa Qiu Yuanyuan, da Faculdade do Partido de Xinjiang, alertou que as detenções poderiam sair pela culatra, estimulando o radicalismo. “Metas quantitativas de transformação por meio da educação foram empregadas de maneira irresponsável e equivocada” em algumas áreas, escreveu ela. “Não há precisão na seleção, e a abrangência vem se expandindo.”

A estimativa do número de uighures - e também de cazaques e outras minorias muçulmanas - detidos nos campos varia entre centenas de milhares e um milhão.

Os moradores disseram que pessoas foram enviadas aos campos por visitarem parentes no exterior; por possuírem livros a respeito da religião e da cultura Uighur; e até por usarem camisetas com a lua crescente, símbolo islâmico. Às vezes mulheres são detidas por causa das transgressões de seus maridos e filhos.

A campanha levou a uma polarização da sociedade Uighur. Boa parte do policiamento nas ruas é feito pelos próprios uighures, até mesmo nas funções dos campos.

Um morador ou quadro local é designado para o monitoramento de cada 10 famílias em Xinjiang, informando a respeito de seus deslocamentos e eventuais atividades consideradas suspeitas.

A pressão nos vilarejos uighures aumenta quando chegam as “equipes de trabalho" do partido. Essas equipes pedem aos aldeões que denunciem parentes, amigos e vizinhos, de acordo com relatórios do governo publicados na internet.

“Um número cada vez maior de pessoas tem apresentado informações de interesse", escreveu Cao Lihai, editor de um jornal do partido, numa reportagem do ano passado. “Alguns pais trouxeram pessoalmente os filhos para que se entregassem às autoridades.”

Uma uighur de pouco mais de 20 anos que pediu para ser identificada apelas pelo sobrenome, Gul, disse que passou a ser investigada depois de usar um véu islâmico e ler livros a respeito da religião e história dos uighures. Autoridades locais instalaram câmeras na porta da casa de sua família - e até na sala de estar.

“Tínhamos que tomar cuidado com o que dizíamos, fazíamos e líamos", disse ela.

A cada semana, acrescentou Gul, um funcionário do governo a visitava e passava pelo menos duas horas a interrogando. No fim, ela foi mandada a um campo de reeducação.

Mais tarde, Gul, que fugiu da China depois de ser libertada, tentou entrar em contato com o irmão. Ele respondeu sem palavras, usando um emoticon de lágrimas.

Depois, a mãe de Gul enviou a ela outra mensagem: “Não volte a telefonar. Estamos enrascados". A camiseta ou livro errado pode levar a um campo de reeducação. 

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