Jason Henry para The New York Times
Jason Henry para The New York Times

Programas tratam violência como doença curável

Pesquisadores explicam que a violência apresenta e sintomas identificáveis e tem tratamento

Allan Mattingly, The New York Times

03 Junho 2018 | 10h00

Experimente lembrar da sua infância. Quais são as lembranças que ficaram? Você tinha um brinquedo favorito? Tinha um amigo mais próximo com quem brincava? Ou talvez: Você viu uma pessoa ser morta?

Esta é a pergunta direta que alguns pesquisadores em Boston fizeram a 122 homens e mulheres em um estudo sobre prisioneiros que haviam cumprido suas condenações. As respostas, segundo Emily Badger, repórter do New York Times, chocaram até mesmo os pesquisadores: 42% viram alguém ser morto quando crianças.

Esta conclusão pode ser menos surpreendente para Gary Slutkin, um epidemiologista cujo trabalho com moléstias contagiosas inclui um programa criado há 23 anos, chamado "Cure a Violência", que começou em Chicago e se expandiu para várias cidades de América Latina, África e Oriente Médio.

"Uma doença é um mal com sintomas identificáveis que causa enfermidade e morte. Esta é a descrição da violência. E nós sabemos que ela se espalha. Existem provas contundentes que mostram que pessoas que foram machucadas, machucam outras pessoas”, explicou a jornalista Tina Rosemberg, cofundadora da Solutions Journalism Network, uma rede que apoia reportagens sobre respostas a problemas sociais.

Slutkin aprendeu com doenças como cólera e HIV que deter uma epidemia implica mudar o comportamento humano. E ele acredita que a melhor maneira para mudar o comportamento é alterar a norma vigente na comunidade. “A melhor previsão sobre o uso do preservativo é se as pessoas acham que seus amigos o utilizam”, ele disse.

Este é um dos princípios que pautam o programa "Cure a Violência". Sua equipe inclui “interruptores de violência” - pessoas da comunidade sintonizadas com os problemas e que ajudam a intermediar disputas, conversando com os envolvidos para convencê-las a não apelarem para atos de violência que podem levar a mais violência, mesmo processo pelo qual as doenças se espalham.

Segundo John Hardy, que atuou como interruptor da violência, a maioria das pessoas quer evitá-la desde que possam evitar também o embaraço diante de seus pares. “Consciente ou inconscientemente, elas querem alguém que possa dissuadi-las”, disse.

A interrupção é apenas uma parte do trabalho do programa. O "Cure a Violência" também tenta fazer com que as vítimas em potencial aceitem um programa que oferece empregos como limpar parques - ocupação que as manterá longe de ruas violentas. Isso desafia a convenção segundo a qual os jovens que vivem na cultura da violência desprezariam estes empregos. Embora a expectativa fosse de que apenas 25% a 30% das pessoas contatadas adeririam ao programa, 60% se inscreveram.

“Os motivos pelos quais os alguns jovens fazem parte de gangues podem ser completamente diferentes do que imaginamos”, escreveu Tina Rosenberg. “Talvez, no fundo, eles queiram o emprego no parque e sair das ruas, mas não sabem como fazer”.

Para os que não saem da rua em tempo, há outros empregos que os ajudam a evitar uma recaída. Em East Oakland, na Califórnia, uma entidade sem fins lucrativos chamada "Plantando Justiça" contrata ex-detentos para cuidar de 30 mil árvores frutíferas e nogueiras.

Cinco dias depois de sair da prisão onde cumprira uma sentença de 25 anos por assalto à mão armada, Anthony Forrest, de 56 anos, começou a trabalhar no "Plantando Justiça". Ele ganha US$ 25 a hora e recebe ainda o benefício da assistência médica, além da cobertura do seguro.

“Trabalhar no pomar me acalma”, comentou.

Encontrou algum erro? Entre em contato

publicidade

publicidade

publicidade

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.