Dibyangshu Sarkar/Agence France-Presse - Getty Images
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Proibição à pesca coloca em risco população pobre de Bangladesh

Peixes desempenham um papel central na economia e na dieta do país

Julfikar Ali Manik e Mike Ives, The New York Times

07 de junho de 2019 | 06h00

DACCA, BANGLADESH - Nessa época do ano, Mohammad Shamsuddin costuma ganhar US$ 120 por mês trabalhando em um pesqueiro no litoral de Bangladesh. Mas, no dia 20 de maio, o governo impôs uma proibição nacional de 65 dias à pesca na costa - a mais restritiva já aplicada em Bangladesh, país pobre onde os peixes desempenham um papel central na economia e na dieta.

Shamsuddin, 30 anos, reduziu a quantidade de comida que compra para si, para a mulher e para os três filhos. “Mas não poderei sustentar a família pelos próximos dois meses com o que poupamos", disse ele. “E, quando as economias acabarem, minha vida será um pesadelo.”

As autoridades dizem que a proibição, imposta durante o mês do Ramadã, sagrado para os muçulmanos e encerrado no dia 4 de junho, se tornará anual para preservar a população de peixes e camarões. Mas os pescadores estão se preparando para dificuldades se as autoridades não oferecerem algum tipo de compensação.

A situação é um pesadelo para um grande número de pescadores porque os preços costumam aumentar em Bangladesh durante o Ramadã, disse Mokter Ahmed, porta-voz da Associação Nacional dos Pescadores de Cox’s Bazar, cidade portuária com aproximadamente 200 mil pescadores. Ele acrescentou que, se as autoridades não puderem evitar a pesca ilegal de frotas pesqueiras de outros países asiáticos, “a meta dessa proibição não será alcançada, e o único resultado será o sofrimento dos pescadores".

O governo luta para equilibrar a necessidade de preservação no longo prazo com as necessidades das comunidades litorâneas que dependem dos peixes para sobrevivência a curto prazo. A população mundial de peixes está caindo por causa da pesca excessiva e do aquecimento dos oceanos provocado pela mudança climática. Bangladesh produziu quase quatro milhões de toneladas de peixes em 2016, mais de quatro vezes o volume registrado em 1990.

O governo disse ter planos de transformar pelo menos 10% das áreas costeiras e marinhas em áreas protegidas até 2020 e anunciou uma série de proibições de semanas à pesca de certos tipos de peixes em determinadas regiões, incluindo o hilsa, peixe muito comum na dieta sul-asiática.

Mais de uma em cada dez pessoas trabalha no setor local da pesca, e as autoridades não têm plano de compensar os pescadores afetados pela proibição. Shah Alam Mollik, representante da Associação de Donos de Barcos de Bangladesh, estimou que a proibição já tenha jogado cerca de 2,5 milhões de pessoas em uma crise.

Ahmed disse que muitos pescadores de menor escala logo precisariam emprestar dinheiro ou enfrentar a fome se nenhuma compensação for oferecida. As autoridades costumam oferecer aos pescadores 20 quilos de arroz por lar durante os 22 dias anuais de proibição à pesca do hilsa, em outubro. / TRADUÇÃO DE AUGUSTO CALIL

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