Chang W. Lee/The New York Times
Chang W. Lee/The New York Times

Proibição de viagens divide famílias do Iêmen

Parte da família de Ahmed Abdulwahab conseguiu entrar nos EUA, mas sua esposa perdeu o direito ao visto em razão de medidas do governo americano

Christina Goldbaum, The New York Times

09 Janeiro 2019 | 06h00

A família de Ahmed Abdulwahab sobreviveu a ataques aéreos e tiroteios e enfrentou fugas por estradas semidestruídas e perigosas trilhas de montanhas. Abdulwahab atravessou o território iemenita controlado por várias facções, como a Al-Qaeda, os rebeldes houthis, além do próprio governo, para tirar a esposa, a mãe e a filha do país e ir aos Estados Unidos. Mas agora ele precisa vencer um último obstáculo: o Departamento de Estados americano.

Abdulwahab, 32, cidadão americano, faz parte da numerosa comunidade de iemenitas americanos de Nova York, separados dos cônjuges ou dos filhos que não são cidadãos americanos pelas restrições impostas pelo governo Trump. Segundo a nova lei, o ingresso nos Estados Unidos agora é proibido aos cidadãos de sete países, cinco dos quais de maioria muçulmana.

Alguns, como a esposa de Abdulwahab, Aisha Mahyoub, 30, foram aprovados e receberam um visto que logo depois foi revogado quando a proibição entrou em vigor. Para muitos iemenitas americanos, como Abdulwahab, o custo exigido para o sustento de uma família em países como Djibuti, onde se encontra o consulado americano mais próximo, é impraticável.

Abdulwahab calcula que o processo para a retirada dos familiares do Iêmen já lhe custou US$ 40 mil. Para manter a esposa em Djibuti, ele paga US$ 1.500 por mês de aluguel, US$ 400 de eletricidade, US$ 300 de alimentação e US$ 200 para uma mulher que às vezes, ajuda sua esposa nos trabalhos da casa.

Em Nova York, ele desembolsa US$ 700 para o aluguel do apartamento do irmão, onde vivem sua mãe e a filha, outros US$ 500 para o apartamento que divide com mais pessoas, e manda o dinheiro que sobra aos familiares que continuam no Iêmen. Os gastos levam tudo o que ele ganha por mês, em média de US$ 3.500 a US$ 4 mil, como motorista do Über.

"Não sei mais o que fazer. Não posso trazê-la aqui, não posso levá-la de volta ao Iêmen. Continuo esperando que um dia tudo isso acabe para que possamos nos reunir", disse.

Abdulwahab nasceu no Iêmen. Como seu pai é cidadão americano e morava em Nova York, em 2006 foi para os Estados Unidos, onde obteve cidadania americana. Ele costumava viajar frequentemente para o Iêmen, onde frequentemente se encontrava com uma amiga de sua irmã, que acabou se tornando sua esposa.

Depois do casamento, Abdulwahab voltou aos Estados Unidos, onde pretendia encontrar emprego e obter o visto para Aisha emigrar e morar com ele nos EUA. Aisha ficou com os sogros em Taiz, esperando alguns anos, enquanto o marido ia e voltava, e onde sua filha, Areg, nasceu. Quando eclodiu a guerra entre os rebeldes houthis e as forças do governo, no início de 2015, a segurança em Taiz se tornou um problema. Abdulwahab resolveu, então, que não podia mais perder tempo.

O processo para a obtenção do visto levou dois anos. Aisha, agora grávida do segundo filho, recebeu um documento que declarava que ela tinha obtido aprovação para o visto e só precisava aguardar a impressão. Areg e a mãe de Abdulwahab, Saoud Khaled, 70, receberam os passaportes para viajar no prazo de nove dias, mas Aisha não recebeu nada. Em fevereiro de 2018, ela foi informada de que a aprovação de seu visto havia sido retirada por causa da proibição das viagens.

Areg, hoje com 4 anos, e a avó moram a um quarteirão de Abdulwahab com o irmão dele, a esposa e seus cinco filhos. Abdulwahab telefona para a esposa todos os dias. Em suas conversações, a pergunta que não quer calar está no ar: será que conseguirão reunir a família nos EUA?

"Inshallah. Se Deus quiser", disse.

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