Victor J. Blue para The New York Times
Victor J. Blue para The New York Times

Restrição à imigração dos EUA prejudica a Nigéria, maior economia da África

Restrição para entrada no país separa famílias e dificulta o envio de remessas no valor de bilhões

Ruth MaClean e Abdi Latif Dahir, The New York Times

06 de fevereiro de 2020 | 06h00

Os recém-casados já moravam em lugares diferentes há seis dos doze meses de sua união. Miriam Nwegbe estava na Nigéria. Seu marido estava em Baltimore, Maryland, e, até que ela pudesse se juntar a ele, tudo estava em espera: encontrar uma casa juntos, tentar o primeiro filho, tornar-se uma família americana. Então, em 31 de janeiro, suas vidas foram arruinadas pela expansão da  proibição do presidente Donald Trump à imigração. Seis países, quatro deles na África, foram adicionados. A Nigéria, a nação mais populosa do continente, era um deles.

"Os Estados Unidos acabaram comigo", disse o marido de Miriam, Ikenna, um optometrista, que mandou uma mensagem para ela quando ouviu a decisão de Trump. "É o nosso fim." Um ano depois que o governo Trump anunciou que uma parte de sua nova estratégia para a África era combater a crescente influência da China e da Rússia, expandindo os laços econômicos com o continente, ele limitou a entrada de cidadãos da Nigéria, a maior economia da África.

As restrições para a entrada nos EUA também se aplicam ao Sudão, Tanzânia e Eritreia, bem como a Myanmar, que é acusado de genocídio contra sua população muçulmana, e ao Quirguistão, um antigo estado soviético. A nova proibição impedirá que milhares de pessoas possam se mudar para os EUA.

A suspensão inicial, em 2017, restringiu as viagens de alguns países de maioria muçulmana como parte do plano de Trump de impedir "terroristas islâmicos radicais". A decisão já afetou mais de 135 milhões de pessoas - entre elas muitos cristãos - de sete países.

A proibição mais recente afetará quase um quarto do 1,2 bilhão de pessoas no continente africano, potencialmente afetando as economias africanas, disse W. Gyude Moore, do Center for Global Development, um grupo de pesquisa focado em desenvolvimento internacional.

"Empresas chinesas, turcas, russas e britânicas, apoiadas por seus governos, estão apostando em postos de trabalho no continente que definirá o futuro da economia global", disse ele, acrescentando: "Esperávamos que os EUA seguissem o exemplo e se engajassem totalmente com o continente - mas essa esperança se esvaiu”.

O anúncio da Casa Branca diz que a maioria dos países adicionados à lista não cumpre as regras de verificação de identidade e compartilhamento de informações. Segundo o documento, a Nigéria representa um risco por abrigar terroristas que podem tentar entrar nos EUA. O país foi atingido pelo grupo islâmico Boko Haram, embora os extremistas tenham mostrado poucos sinais de capacidade de exportar sua luta para o exterior.

Os nigerianos estão entre os imigrantes mais bem-sucedidos e de escolaridade mais elevada dos EUA. Hadiza Aliyu vive em Borno, o estado nigeriano no centro da crise do Boko Haram que deixou dezenas de milhares de mortos. Estava se preparando para a mudança para os EUA, onde estudou e seus dois irmãos moram.

"Trump está procurando uma maneira de nos atingir há muito tempo, e finalmente conseguiu", disse Hadiza. "Para o inferno com os republicanos e suas ideias supremacistas!" Ainda assim, alguns nigerianos elogiaram a decisão de Trump, argumentando que isso pode dificultar que os responsáveis por roubar dinheiro do governo em casa encontrem abrigo nos EUA.

Em 2018, 7.922 vistos de imigrante foram concedidos aos nigerianos. Desses, 4.525 foram destinados a parentes imediatos de cidadãos americanos e outros 2.820 a outros parentes. Estima-se que 345 mil pessoas nascidas na Nigéria viviam nos EUA em 2017, de acordo com o departamento responsável pelo censo do país.

Os vistos são muito valorizados na Eritreia, onde a repressão do governo é desenfreada e aqueles que tentam sair enfrentam obstáculos e perigos. Com mais de 500 mil refugiados vivendo fora do país, a Eritreia foi a nona maior fonte de refugiados do mundo em 2018, segundo as Nações Unidas, mas menos de 900 eritreus receberam vistos de imigrante para os EUA naquele ano.

O maior impacto pode estar nas remessas de dinheiro, disse Nonso Obikili, economista nigeriano. Os nigerianos no exterior enviam bilhões de dólares para casa todos os anos, US$ 24 bilhões somente em 2018, de acordo com a consultora PwC. Com a economia da Nigéria altamente dependente do petróleo e sua taxa de desemprego em 23%, esse dinheiro fornece uma salvação para milhões de cidadãos.

De acordo com o Departamento de Segurança Interna dos EUA, quase 30 mil nigerianos excederam o tempo permitido por seus vistos de turistas em 2018. Mas o número de nigerianos que visitam os EUA caiu drasticamente depois que o governo Trump dificultou a obtenção de vistos no verão passado. Estima-se que a Nigéria abriga mais de 200 milhões de pessoas, cerca de metade delas muçulmanas e a outra metade, cristã. Dos quatro países africanos destacados, apenas o Sudão possui uma maioria significativa de muçulmanos. 

A recém-casada Miriam, diretora operacional de uma empresa de turismo que tenta incentivar as pessoas a visitar a África, disse que a proibição ocorreu quando ela e o marido estavam construindo seu futuro. "Estamos no limbo, e nosso relacionamento está sofrendo", disse ela. “É uma dificuldade desnecessária.” / Zolan Kanno-Youngs, Eromo Egbejule, Isaac Abrak, Ismail Alfa e Emmett Lindner contribuíram com a reportagem. / TRADUÇÃO DE AUGUSTO CALIL

Encontrou algum erro? Entre em contato

Tendências:

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.