Greg Wood/Agence France-Presse - Getty Images
Greg Wood/Agence France-Presse - Getty Images

Proibição leva escaladores a correrem para rocha australiana

'Invasão' de visitantes para a Austrália trouxe um aumento no lixo e acampamento ilegal

Tacey Rychter, The New York Times

25 de julho de 2019 | 06h00

SYDNEY, AUSTRÁLIA - É uma cena incomum para o monólito de arenito conhecido como Uluru: filas de escaladores ansiosos serpenteando por sua superfície marrom avermelhada, avançando na direção do cume de uma rocha considerada sagrada pelos indígenas australianos que vivem na região.

Os turistas estão buscando Uluru em número tão grande porque, a partir de 26 de outubro, serão proibidos de escalar os 431 metros da rocha. Em parte, o objetivo da proibição é evitar danos ambientais ao monólito, situado dentro de um parque nacional considerado patrimônio da humanidade pela Unesco. 

Os visitantes que se apressam para conhecer o local antes que a proibição entre em vigor estão trazendo desgaste adicional para o parque: muitos hotéis e campings estão sem vagas, levando a uma alta na atividade dos campings ilegais, invasão de propriedade e descarte de lixo. “A movimentação é intensa no momento, decorrente principalmente do fechamento da escalada", disse Stephen Schwer, diretor executivo da Central de Turismo da Austrália. “A popularidade do local trouxe grande desgaste para a infraestrutura existente.”

Uluru, também conhecida como Ayers Rock, é um local sagrado para o povo indígena Anangu. Faz anos que o local é decorado com placas dizendo “Este é nosso lar” e “Favor não escalar". Mais de 30 mortes já foram registradas em Uluru, uma escalada íngreme e sem orientação. Os visitantes podem fazer caminhadas em torno da base da rocha, atividade buscada por muitos.

Mas, desde o anúncio da proibição iminente, o número de pessoas visitando o parque aumentou, e funcionários locais dizem que aumentou a quantidade daqueles que se aventuram na escalada. Mais de 370 mil pessoas visitaram o local em 2018, um aumento de mais de 20% em relação ao ano anterior. 

Micha Gela, que trabalha no hotel Outback Pioneer, no resort de Ayers Rock, há mais de quatro anos, disse que “a movimentação atual é a mais intensa que já vi". O hotel e sua área de camping, onde atualmente 2,7 mil vivem em barracas, estão com a lotação máxima, disse ela.

“Eu mesma sou indígena", acrescentou Micha. “Não aprovo os escaladores, mas é óbvio que este é o sonho deles.” A analista de crédito Deborah Symons, de Brisbane, escalou Uluru com o marido em junho. “Era algo que sempre sonhamos em fazer, e não acreditamos que nossa escalada tenha afetado crenças espirituais ou culturais dos indígenas locais", disse ela.

A história de Uluru é a de um local de grande importância espiritual, cultural e política para os aborígenes da Austrália, especialmente os Anangu. “O lugar é extremamente importante, e não se presta a brincadeiras nem a parques temáticos como uma Disneylândia", disse Sammy Wilson, presidente do conselho administrativo do parque, em declaração de 2017 antes da aprovação da proibição. “Queremos que as pessoas visitem, escutem e aprendam.”

A data de 26 de outubro marca 34 anos da devolução de Uluru aos Anangu, seus donos tradicionais. Schwer disse esperar que o grande número de visitantes interessados em Uluru se mantenha após a proibição, mas pediu que, enquanto isso, as pessoas repensem o desejo de escalar. “Há muitas outras formas de sentir o impacto espiritual da rocha sem escalá-a", disse ele. / TRADUÇÃO DE AUGUSTO CALIL

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