Jenna Schoenefelder para The New York Times
Jenna Schoenefelder para The New York Times

Projeção de declínio demográfico da população branca dos EUA irrita pesquisadores

Previsão tornou-se objeto de fascínio à direita e à esquerda, mas demógrafos ficaram incomodados

Sabrina Tavernise, The New York Times

30 de novembro de 2018 | 06h00

WASHINGTON - O gráfico chamava a atenção, considerando os padrões do Departamento do Censo dos Estados Unidos, e mostrava um momento inequívoco do futuro dos EUA: no ano de 2044, diziam as previsões, o número dos americanos brancos cairá abaixo da metade da população e eles perderão sua posição majoritária.

Os dados apresentados preocuparam Kenneth Prewitt, ex-diretor do Departamento do Censo. Ele achou que o gráfico fazia a mudança demográfica parecer um jogo de soma zero que os americanos brancos estavam perdendo, e poderia provocar uma reação política adversa.

Por isso, depois da divulgação do relatório, três anos atrás, ele organizou um encontro com Katherine Wallman, na época diretora do departamento de estatística para os Estados Unidos.

“Pensei: ‘É isto que temo realmente’”, contou Prewitt, hoje professor de assuntos públicos da Columbia University em Nova York. E acrescentou: “As estatísticas são poderosas. Elas descrevem quem nós somos enquanto país. Se falarmos em maioria-minoria, isto se tornará um fato muito sério no discurso nacional”.

Em uma nação preocupada com a raça, o momento em que os americanos brancos constituirão menos da metade da população do país virou um objeto de fascínio.

Para os nacionalistas brancos, ele significa uma espécie de contagem regressiva do Apocalipse até o final do predomínio racial e cultural. Para os progressistas que querem o fim do predomínio do Partido Republicano, o ano indica quando eles imaginam que os eleitores de cor se levantarão e darão a vitória aos democratas.

Mas muitos acadêmicos estão cada vez mais incomodados. Eles apontam para uma recente pesquisa que mostra o poder que os dados têm de moldar a percepção. Alguns questionam os pressupostos do Departamento do Censo em relação à raça, e também fazer projeções sobre a população americana faz sentido em um momento de rápida mudança demográfica quando as próprias categorias parecem variar.

A psicóloga social Jennifer Richeson, da Yale University, identificou imediatamente o risco. Ela sabia que a dimensão do grupo é o indicador do predomínio e que um grupo que está se reduzindo pode sentir-se ameaçado.

Em 2014, ela e a psicóloga social Maureen Craig, da New York University, publicaram uma pesquisa que mostrava que os americanos brancos incumbidos de ler sobre a mudança racial relatariam mais provavelmente sentimentos negativos em relação às minorias raciais do que os que não tinham essa tarefa. 

Além disso, eles teriam maior probabilidade de apoiar políticas restritivas sobre a imigração e de afirmar que os brancos poderiam perder a sua posição e enfrentariam a discriminação no futuro.

A socióloga Mary Waters, de Harvard, contou que ficou pasma quando viu a pesquisa. “Pensei: ‘Nossa, estas projeções típicas de gente nerd estão apavorando as pessoas’”, ela disse.

Alguns pesquisadores também questionam se as projeções do Departamento do Censo apresentam de fato um quadro que corresponde à verdade. O que está em questão, eles afirmam, é que pessoas o governo conta como brancas.

Nas projeções do Censo, os indivíduos de raça ou "etnia mista" têm sido contados em geral como pertencentes à minoria, afirmam os demógrafos. A consequência disso, na sua opinião, seria subestimar o tamanho da população branca, porque muitos americanos com um dos progenitores branco podem identificar-se como brancos ou em parte brancos.

Entre os asiáticos e hispânicos, mais de 25% casam fora da sua raça, segundo o Pew Research Center. Para os asiáticos nascidos nos EUA, a parcela é quase o dobro. O que significa que pessoas de "raça mista" talvez agora constituam um grupo pequeno - cerca de 7% da população - mas este grupo crescerá persistentemente. Os filhos serão brancos? Serão minoria? Serão ambas as coisas? E os netos?

“Na realidade, a questão para nós enquanto sociedade é se há pessoas que parecem brancas, agem como brancas, casam com pessoas brancas e vivem como brancas; então, o que é que branco significa finalmente?”, perguntou o dr. Waters. “Vivemos em tempos realmente interessantes, tempos indeterminados, em que não policiamos a fronteira de maneira muito consistente”.

Em agosto de 2008, o Censo projetou que, até 2042, os brancos não hispânicos cairão abaixo da metade da população, muito mais cedo do que o esperado.

“Foi isto que realmente acendeu o pavio”, disse Dowell Myers, um demógrafo da Universidade Southern California. “As pessoas enlouqueceram”.

Já não eram apenas os nacionalistas brancos que se preocupavam com a perda do predomínio racial. Myers observou que cidadãos progressistas, visualizando o poder político, apaixonaram-se pela ideia de uma próxima minoria branca. Ele disse que era difícil interessá-los pelo seu trabalho de maneira a fazer com que a mudança parecesse menos ameaçadora aos temerosos americanos brancos.

“Foi uma espécie de conquista, o nosso dia chegou”, observou falando da reação deste pessoal. “Queriam superá-los em número. Era o destino demográfico”.

Myers e um colega concluíram que os efeitos negativos da leitura sobre o eventual declínio branco acabavam cancelados quando as mesmas pessoas liam sobre o fato de a categoria branca estar crescendo, graças à absorção de jovens multirraciais pelo casamento inter-racial.

A raça é difícil de contabilizar porque, ao contrário da renda ou do emprego, é uma categoria social que se modifica com as mudanças na cultura, imigração, e ideias sobre genética. Nos anos 1910 e 1920, a última época em que os imigrantes constituíram uma parcela muito grande da população americana, houve debates furiosos sobre em que categoria se poderiam incluir os recém-chegados da Europa. Por fim, os imigrantes da Europa oriental e meridional passaram a ser considerados brancos.

Ocorre que a raça é uma questão que diz respeito ao poder, e não à biologia, disse Charles King, professor de Ciências Políticas da Georgetown University de Washington.

“Quanto mais você se aproxima do poder social, mais se aproxima da raça branca”, afirmou. O único grupo ao qual nunca foi permitido cruzar a linha da brancura foram os afro-americanos, disse - por causa do longo legado da escravidão.

Segundo o sociólogo Richard Alba, da City University de Nova York, as projeções do Departamento do Censo  pareciam bloqueadas em um sistema de classificação já superado. O departamento atribui o rótulo de não brancas a pessoas que teriam os dois ancestrais brancos e minoritários, afirmou.

“Os dados do censo distorcem as realidades concretas da etnia e da raça”, segundo Alba. “Talvez nunca venha a existir uma sociedade de maioria-minoria; não é uma coisa clara”.

William Frey, demógrafo da Brokings Institution, um grupo de pesquisadores de Washington, afirmou que o Departamento do Censo estava fazendo o melhor que podia em uma época em que a sociedade muda muito rapidamente. 

Ele se mostrou cético quanto à possibilidade de asiáticos e hispânicos serem análogos aos americanos brancos étnicos do século 20, e disse acreditar que uma contagem menos conservadora não contribuiria muito para mudar o quadro como um todo. “Independentemente do ano, ou do momento crítico, a mensagem precisa falar dos fatos reais”, disse Frey. “Nós estamos nos tornando uma sociedade muito mais diversificada em termos raciais entre a nossa geração jovem”.

Em março, o Censo divulgou novas projeções repletas de dados sobre o futuro do país. Nas próximas décadas, os adultos com mais de 65 anos pela primeira vez serão mais numerosos do que as crianças. A parcela de crianças de raça mista deverá dobrar. Entretanto, não foi mencionado um ano específico em que os americanos brancos cairão abaixo da metade da população.

Quando indagado sobre a mudança, um porta-voz do Censo respondeu: “É que decidimos voltar a nos ater aos dados”.

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