Matthew Avignone para The New York Times
Matthew Avignone para The New York Times

Projeto ensina estudantes a identificar notícias falsas

Iniciativa do governo francês uniu jornalistas e educadores para combater a disseminação das chamadas 'fake news' na internet

Adam Satariano e Elian Peltier, The New York Times

23 Dezembro 2018 | 06h00

VAULX-EN-VELIN, FRANÇA - Um grupo de adolescentes entrou recentemente numa sala do Collège Henri Barbusse, perto de Lion, França, para uma aula habitualmente dedicada ao aprendizado do espanhol. Mas, naquele dia, uma aula incomum os esperava. Cinco publicações do Twitter estavam na lousa. A tarefa: decifrar quais eram dignas de confiança e quais eram suspeitas.

Os alunos do nono ano se concentraram numa publicação de Marine Le Pen, líder de extrema direita da França, ligada a um incidente que capturou as manchetes na França, quando um adolescente ameaçou um professor. Um estudante disse que a publicação de Marine era digna de confiança porque a conta dela foi verificada pelo Twitter. Mas Samia Houbiri, 15 anos, disse que Marine estava apenas tentando chamar atenção.

"Ela escolhe um assunto, exagera os fatos, e com isso leva as pessoas e pensarem, 'Ela tem razão, e merece meu voto'", disse Sâmia.

A jornalista Sandra Laffont, encarregada de ministrar a oficina, assentiu com a cabeça. "Às vezes os políticos exageram a realidade porque seu objetivo é convencer as pessoas de que suas ideias estão certas".

A aula era parte de um novo experimento do governo, trabalhando com jornalistas e educadores para combater a difusão de informações falsas na internet. A França está coordenando uma das maiores iniciativas mundiais de alfabetização para a internet e a mídia na tentativa de ensinar aos estudantes a identificar informações falsas online, a partir da mais terna idade.

Desde 2015, o governo francês aumentou o financiamento para cursos que abordam o lado negativo do universo online. Todo ano, cerca de 30 mil professores e outros educadores recebem treinamento do governo para lidar com o tema. Em alguns lugares, as autoridades exigem que os jovens participem de um curso de alfabetização para a internet, recebendo em troca benefícios do bem-estar social.

O ministério da cultura da França dobrou seu orçamento anual dedicado aos cursos, chegando a € 6 milhões, ou cerca de US$ 26,4 milhões, e o ministério da educação está acrescentando ao currículo nacional uma matéria eletiva abordando a internet e a mídia contemporânea, que estará disponível a milhares de estudantes. Alguns pedem que os cursos sejam obrigatórios, lecionados no mesmo formato da história e da matemática.

"Quanto antes iniciamos o trabalho, melhor o resultado", disse Serge Barbet, diretor do Clemi, principal programa do ministério da educação envolvido na coordenação da iniciativa. "É por isso que temos pressionado por mais alfabetização ligada à mídia nos anos mais recentes. É algo que se tornou uma necessidade vital diante de uma ameaça".

A França sentiu a necessidade de expandir a alfabetização para a mídia e a internet antes de muitos países. Em 2015, um ataque mortífero contra a revista satírica Charlie Hebdo expôs uma profunda desconfiança em relação à mídia e uma grande vulnerabilidade às teorias da conspiração que circulam na internet.

Os esforços se tornaram mais urgentes depois que as mais recentes eleições presidenciais na França e nos Estados Unidos foram alvo de uma campanha de desinformação promovida por agentes russos, e após a disseminação de teorias da conspiração a respeito dos ataques terroristas em Paris e Nice.

Protestos violentos em toda a França contra a desigualdade de renda nas semanas mais recentes também foram organizados por meio do Facebook e outras plataformas online, onde publicações enganosas e vídeos distorcidos recebem milhares de "curtidas" e compartilhamentos.

Fora da França, os programas de alfabetização para a internet estão crescendo, mas são promovidos por grupos como o News Literacy Project, nos EUA, financiado por fundações e empresas como Facebook e Google. Este mês, funcionários da União Europeia apelaram para que os países do bloco ampliassem seus programas de ensino como parte de uma campanha contra a desinformação e a interferência nas eleições.

De sua parte, Sandra mantém as aulas simples. Incorpora material do Twitter e do YouTube e compartilha links para páginas que os estudantes podem consultar como referência para a checagem dos fatos. Explica o funcionamento básico do jornalismo, na esperança de que isso possa reverter parte da desconfiança dos estudantes em relação à mídia, ajudando-os a desenvolver um olhar mais crítico para analisar o conteúdo da internet. 

"Percebemos que era necessário voltar ao básico antes mesmo de falar em notícias falsas e teorias da conspiração: o que é uma notícia, quem a produz, como são verificadas as fontes", disse Sandra.

Não há muita pesquisa para indicar se essas aulas funcionam. As tendências da tecnologia avançam a toda velocidade, e os cursos podem ficar rapidamente desatualizados. Até os fundamentos de infraestrutura podem ser um desafio: antes da aula no colégio Henri Barbusse, os professores tiveram dificuldade para fazer funcionar o acesso à internet.

Guillaume Chaslot, engenheiro francês que ajudou a desenvolver o algoritmo de recomendações do YouTube, disse que os algoritmos usados por empresas como Facebook e Google dão ênfase ao envolvimento, o que significa que o conteúdo falso ou sensacionalista oriundo de fontes questionáveis pode se espalhar rapidamente. 

"Não acho que possamos resolver o problema com algum tipo de treinamento", disse Chaslot. "O poder está nas plataformas. É uma assimetria".

Numa oficina realizada recentemente nos arredores de Paris, pediu-se aos estudantes que escrevessem suas próprias notícias falsas. Faycal Ben Abdallah, 20, fez uma pausa ao terminar de escrever uma publicação exagerando a violência policial, percebendo que muitos de seus amigos poderiam acreditar naquilo.

"É assustador", disse.

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