Yagazie Emezi para The New York Times
Yagazie Emezi para The New York Times

Projeto faz lixo virar tijolo plástico na construção de escolas na África

Iniciativa é criação de Aboubacar Kampo, que trabalhou como representante da Costa do Marfim na UNICEF

Anemona Hartocollis, The New York Times

02 de agosto de 2019 | 06h00

ABIDJAN, COSTA DO MARFIM – Ela saiu de casa antes do amanhecer. Os quatro filhos ainda dormiam na habitação de blocos de concreto em Abobo, um labirinto de lojas e moradias ocupado por trabalhadores das docas, taxistas, operários de fábricas e vendedores de rua.

Ela e uma amiga foram até o bairro de luxo de Angré, onde começaram a catar lixo plástico e a guardá-lo nas sacolas que traziam a tiracolo. Mariam Coulibaly faz parte de uma legião de mulheres de Abidjan que ganham a vida recolhendo este tipo de lixo e vendendo-o para centros de reciclagem. Agora, elas se tornaram elementos fundamentais de um projeto que, a partir do lixo, produz tijolos de plástico para a construção de escolas em todo o país.

Elas trabalham para uma companhia colombiana que transforma o lixo em um produto que ajudará as mulheres a ganhar um salário decente e, ao mesmo tempo, limpar o ambiente e melhorar a educação. “Não conseguimos bons preços” dos atuais compradores, disse Mariam. “Isto vai nos ajudar bastante”.

No ano passado, a empresa construiu nove salas de aula para demonstração. As primeiras escolas foram construídas com tijolos importados da Colômbia. Mas nos próximos meses, uma fábrica que está surgindo em Abidjan começará a produzi-los aqui. O projeto é uma criação de Aboubacar Kampo, que recentemente encerrou o seu trabalho de representante da Costa do Marfim na UNICEF. Ele recrutou a empresa de reciclagem Conceptos Plásticos, com a missão de construir habitações e criar empregos para pessoas pobres.

As novas salas de aula de plástico são extremamente necessárias. Algumas das atuais, hoje, têm 90 alunos, segundo o ministro da Educação do país. A Conceptos Plásticos tem um contrato com a UNICEF para o fornecimento de 528 salas de aulas para cerca de 26.400 estudantes, ou 50 estudantes em cada sala. Até este ano, as crianças da aldeia de Sakassou tinham aula em uma construção de tijolos de barro e madeira.

Os tijolos de barro se estragam expostos ao sol e à chuva e precisam de reparos constantes. Mas as três novas salas de plástico poderão durar praticamente para sempre. Os tijolos interligados parecem peças Legos pretas e cinzentas. São refratários e permanecem frescos no calor.

A realização deste projeto seria impossível sem a capacidade de organização de Mariam, presidente da associação de 200 mulheres da comunidade chamada “Mulheres lutadoras”. O salário mínimo oficial do país mal chega a US$25 semanais, mas muitas pessoas ganham bem menos. As catadoras de plásticos dizem que ganham de US$ 8,50 a US$ 17 por semana.

Quando começarem a vender para a fábrica, poderão ganhar o dobro ou o triplo, segundo a companhia. Ocorre que a fábrica comprará tipos diferentes de plásticos, como embalagens de salgadinhos e doces e peças de celulares, que agora as mulheres não vendem. O projeto tem o sinal verde de Kandia Camara, a ministra da Educação da Costa do Marfim, e, segundo ela, só poderá melhorar a condição das mulheres.

“Para nós, esta não é uma profissão humilhante”, disse Camara. “É um emprego organizado para elas, para que tenham a sua autonomia financeira, a sua dignidade, família, sociedade, e para que possam prestar a sua contribuição para o desenvolvimento do país”. Loucoumane Coulibaly contribuiu para a reportagem. / TRADUÇÃO DE ANNA CAPOVILLA

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.