Ksenia Ivanova para The New York Times
Ksenia Ivanova para The New York Times

Propriedades russas na Finlândia levantam suspeitas

Muitos acreditam que a Rússia esteja criando instalações militares em terras ocidentais

Andrew Higgins, The New York Times

09 Novembro 2018 | 06h00

SAKKILUOTO, FINLÂNDIA - Recolhido numa pequena ilha de um arquipélago situado entre a Finlândia e a Suécia, Leo Gastgivar acordou certo dia e foi ao banheiro, do lado de fora, vestindo um roupão, até notar dois botes pretos transportando soldados finlandeses de uniforme camuflado, que aguardavam na baía perto da porta da sua casa.

Depois de uma estranha troca de saudações, Gastgivar voltou para dentro, buscou um par de binóculos e observou enquanto os soldados disparavam em alta velocidade até a ilha de seu vizinho mais próximo, um misterioso empresário russo que ele nunca nem mesmo viu. 

"Pensei: 'Uau! Não é algo que se vê todo dia'", lembra Gastgivar. "Ninguém visita aquele lugar".

A ilha, Sakkiluoto, pertence a Pavel Melnikov, 54 anos, um russo de São Petersburgo, que instalou câmeras de segurança, sensores de movimento e avisos de "não ultrapasse" por toda a propriedade, ilustrados com a imagem de um assustador guarda usando touca ninja. A ilha tem também nove atracadouros, um heliporto, uma piscina envolta com rede camuflada, e espaço suficiente (em construções equipadas com antenas de satélite) para acomodar um pequeno exército.

A batida de 22 de setembro, uma das 17 operações semelhantes realizadas na área no mesmo dia, alimentou na Finlândia especulações de que o verdadeiro proprietário da ilha seria o exército russo. Autoridades finlandesas disseram que a operação faz parte da repressão à lavagem de dinheiro e às infrações contra o fisco e o sistema de pensões do país.

Mas poucos estão convencidos. Mais de 400 policiais e soldados finlandeses invadiram Sakkiluoto e 16 outras propriedades ligadas à Rússia no oeste da Finlândia.

Quando o primeiro-ministro da Rússia, Dmitri A. Medvedev, visitou Helsinque, capital da Finlândia, alguns dias depois da operação, ele fez pouco das suspeitas ao ser indagado se a Rússia estava preparando zonas de pouso para helicópteros militares em ilhas finlandesas.

"Não sei de quem é a mente doentia que imagina coisas desse tipo", disse ele. "Isso não passa de paranoia".

Mas, de acordo com reportagens da mídia finlandesa, há algum tempo os serviços de espionagem da Finlândia alertam para o fato de propriedades compradas por russos no país poderiam ser usadas para fins militares.

Ancorada no Ocidente e ciente dos problemas do antagonismo com Moscou, faz tempo que a Finlândia mantém uma política de evitar problemas com a Rússia, ao menos em público. Os dois países dividem uma fronteira de 1.300 quilômetros.

Depois da operação, duas pessoas foram levadas sob custódia - um estoniano de família russa e um russo. As autoridades apreenderam moedas de vários países, incluindo a soma de € 3 milhões, ou mais de R$ 13 milhões. Também foram apreendidos discos rígidos de computadores.

Todas as propriedades envolvidas na batida estavam ligadas a Melnikov, o proprietário russo da Ilha Sakkiluoto, e a uma empresa que ele ajudou a montar em 2007, chamada Airiston Helmi. A empresa fez repetidas mudanças em seu conselho administrativo e grupo de proprietários ao longo dos anos, com a identidade dos verdadeiros donos oculta atrás de empresas de fachada com sede nas Ilhas Virgens Britânicas e outros paraísos fiscais. No momento, a organização é comandada por um italiano - ao menos no papel.

Não se sabe ao certo quem é Melnikov. Um homem com o mesmo nome e data de nascimento aparece em registros russos como o proprietário de seis empresas, sendo uma delas uma conhecida fabricante de equipamento para encanamento. Esse homem, atualmente num escritório de São Petersburgo, não quis comentar aquilo que seu assistente descreveu como assuntos "particulares" na Finlândia.

O escritório central da Airiston Helmi, de frente para o mar, tem um heliporto e câmeras de segurança como a ilha de Melnikov, além de um veículo militar de aterrissagem convertido em uma sauna e três outras embarcações.

Ao lado da entrada principal da empresa há um manequim vestido com uniforme militar, e sua cabeça, de plástico, está rachada. No porão, de acordo com reportagem recente do jornal finlandês Iltalehti, havia um centro de comunicações de equipamento avançado.

Kaj Karlsson, empreiteiro finlandês que supervisionou boa parte da construção em Sakkiluoto, recusou-se a crer que Melnikov estivesse preparando um esconderijo para soldados russos, destacando que o empresário sempre insistia na instalação de grandes janelas de vidro com vista para o mar.

Ainda assim, ele concordou que pode ter sido ingênuo.

"Já ficou claro que Pavel não é quem eu pensei que fosse", disse ele. / Taimoor Shah contribuiu com a reportagem.

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