Finbarr O'Reilly para The New York Times
Finbarr O'Reilly para The New York Times

Prosperidade da baunilha em Madagascar traz lucro (e crime)

Alta no preço da baunilha ajudou no enriquecimento de agricultores e ladrões

Finbarr O'Reilly, The New York Times

09 Setembro 2018 | 10h30

SAMBAVA, Madagascar - A forte luz do luar refletia nas largas folhas das bananeiras, mas ainda era difícil enxergar o fio entrelaçado pela folhagem baixa, uma armadilha pensada para derrubar os incautos no chão.

“É por aqui que os ladrões vêm", disse o plantador de baunilha.

Todas as noites, Ninot Oclin, 33 anos, patrulha suas terras nas colinas ao pé de um vulcão em Madagascar, descalço, armado com um fuzil. Se ouve alguém tropeçando, sabe que se trata de outro bandido que tenta roubar sua lucrativa colheita de baunilha, cujas favas amadurecem no pé.

As verdejantes montanhas do nordeste de Madagascar produzem cerca de 80% da baunilha do mundo. O preço desse artigo teve um aumento vertiginoso, ultrapassando a marca de 600 dólares por quilograma no ano passado - superando a prata em valor -, sendo que em 2013 o preço era de 50 dólares por quilograma.

A crescente demanda ocidental pelo produto é empate responsável pelo aumento no preço, coma baunilha usada em artigos tão variados quanto sorvetes, bebidas alcoólicas e cosméticos. O suprimento também foi reduzido no ano passado por um ciclone que destruiu boa parte da colheita na ilha, na costa do sudeste da África.

Com o solo e as condições climáticas perfeitas para o cultivo da baunilha, a região de Sava, em Madagascar, vive um período de prosperidade econômica.

As chamadas mansões da baunilha surgiram acima das tradicionais cabanas de pau a pique. Até os lares mais humildes costumam ostentar tecnologias como painéis solares e luzes de LED. Reluzentes veículos esportivos utilitários cortam as ruas esburacadas de Sambava, onde mercados movimentados são vistos nas principais estradas.

Os pés de baunilha precisam ser cultivados por três a quatro anos antes de darem favas. A planta dá flores por apenas 24 horas, uma vez ao ano, e estas devem ser polinizadas imediatamente. A cada temporada, cerca de 40 milhões de pés de baunilha são fertilizados manualmente com uma agulha de madeira do tamanho de um palito de dentes.

Depois de polinizada, a flor produz grãos verdes em questão de dois meses; o aroma da baunilha fica escondido em milhares de sementinhas pretas e uma película oleosa. Os grãos começam a fermentar depois de colhidos, obrigando os agricultores a encontrar rapidamente um comprador.

“O problema é a segurança", disse Oclin, explicando que ladrões atacam e matam os fazendeiros para ficar com suas favas de baunilha.

Assim, além de patrulhar suas terras, ele paga a três vigias que trabalham nos quatro meses que antecedem a colheita. A cada noite, um grupo de vigias que patrulham as plantações locais passa pela região, formado por meia dúzia de homens armados com porretes e facões.

Com pouca confiança do público numa força policial e sistema judicial corruptos, a justiça popular costuma prevalecer. Em abril, uma milícia local capturou um ladrão, que foi espancado com paus até desmaiar e, em seguida, foi feito em pedaços com facões, de acordo com os moradores. Foi apenas um dentre dúzias de episódios parecidos, os “assassinatos da baunilha”, cometidos ao longo das duas temporadas mais recentes.

Apesar dos riscos, Oclin conseguiu lucrar um pouco com o comércio da baunilha. Ele agora tem um smartphone e uma conta no Facebook, e seu imóvel de um único cômodo tem uma TV e uma antena via satélite movidos a energia solar.

Em Sambava, Pascale Rasafindakoto, 44 anos, um “comissário", ou intermediário, aguarda com dúzias de colegas a chegada dos comerciantes de nível mais baixo com pequenas sacas de grãos de baunilha.

Com os grãos se estragando rapidamente, os cultivadores têm pouco poder de barganha na negociação.

“Apesar do aumento no preço, a maioria dos agricultores continua pobre, pois eles vendem a colheita imediatamente, ou cedo demais", disse Dominique Rakotoson, que representa 100 famílias de plantadores de baunilha.

Há muitos relatos de intermediários que enganam os agricultores. “É com os intermediários que ocorrem as irregularidades", disse Rakotoson.

Rasafindakoto não dá atenção a esse tipo de comentário. A família dele tem uma casa nova com uma TV de tela plana, viajando com frequência para fazer churrascos na praia.

“Com a baunilha, a vida é doce", disse Rasafindakoto.

Michel Lomone comanda um armazém de baunilha em Antalaha. Embora seja rico pelos padrões locais, a maior preocupação dele é igual à de Oclin: o roubo.  

“Não há segurança para as mercadorias nem para as pessoas", disse Lomone. “O sistema de justiça é podre. A impunidade é total. É como a cocaína na América Latina. Os peixes menores são apanhados, mas nunca os tubarões.”

Lomone se disse preocupado com o efeito da prosperidade na cultura local.

“Atualmente, Madagascar não tem mais um problema de miséria no sentido da falta do que comer, e sim uma miséria social", disse ele. “O problema é a concorrência para acompanhar os outros, que estão ganhando dinheiro rápido. Não adianta. Não podemos continuar assim.”

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