Diego Ibarra Sanchez / The New York Times
Diego Ibarra Sanchez / The New York Times

Líbano joga luz sobre a proteção de pássaros alvos de caça

A organização ambientalista Sociedade Protetora da Natureza no Líbano protege cerca de 2,5 bilhões de aves migratórias que sobrevoam o país duas vezes ao ano

Helen Sullivan, The New York Times

14 de janeiro de 2020 | 06h00

HAMMANA, LÍBANO — Em um sábado de novembro, um grupo de meninos dos Escoteiros do Líbano se reuniu em uma floresta para coletar o maior número possível de cartuchos usados de espingarda nos 5 minutos seguintes.

A tarefa tinha sido designada por dois voluntários da Sociedade Protetora da Natureza no Líbano, organização ambientalista voltada para a proteção aos pássaros.

A caça é onipresente no Líbano, um dos 11 países com maior número proporcional de proprietários de armas. Nove dos escoteiros afirmaram ter uma arma em casa. Dois deles, ambos com 12 anos, disseram ter permissão para caçar, e outros dez disseram ansiar pelo dia em que poderão fazer o mesmo.

Entre as principais preocupações da Sociedade está a proteção a 2,5 bilhões de aves migratórias que sobrevoam o país duas vezes ao ano. Durante essas jornadas, 2,6 milhões de aves migratórias são abatidas ou aprisionadas ilegalmente, de acordo com a BirdLife International. Enquanto outros países investigam o motivo de suas aves não retornarem da migração, o Líbano chamou a atenção.

A topografia do Líbano é dominada por duas longas cordilheiras. Várias rotas de migração de diferentes aves atravessam o país; ao passar pelas montanhas, essas rotas ficam mais estreitas, formando gargalos naturais. Esses gargalos encaminham as aves por trechos onde os caçadores conseguem fazer disparos fáceis.

Em 2017, Axel Hirschfeld, da Comissão Contra o Massacre de Aves, viajou ao Líbano para realizar um levantamento. “O que vimos em 2017 foi o pior quadro de meus 18 trabalhando para a CCMA", disse ele. Centenas de aves mortas foram abandonadas no chão, e as penas de águias caíam como flocos de neve conforme as aves eram abatidas no céu.

Duas décadas atrás, Assad Serhal, um dos fundadores da SPNL, estava pesquisando mapas centenários do Líbano quando reparou em áreas designadas como “hima", e nomes de vilarejos que incluíam essa palavra. Em árabe, hima pode significar refúgio, área protegida, pasto privado ou pátria.

Serhal descobriu que o conceito tem mais de mil anos, sendo inclusive mencionado no Alcorão. Maomé designou certas áreas como hima, significando que estavam sujeitas a regras para o uso do pasto, a caça e até o comércio. Nos mapas de Serhal, hima significava áreas comuns. Ele pensou em dar vida nova ao conceito tradicional.

Em 1996, Serhal ajudou a fundar a Reserva de Proteção da Biosfera Shouf, o primeiro parque nacional do Líbano. Mas, depois de alguns anos, ele passou a acreditar que a reserva Shouf não estava funcionando como deveria. As terras designadas e protegidas pelo governo tinham enfurecido os habitantes dos vilarejos próximos, que antes usaram a área livremente como pasto, colhendo também ervas silvestres.

Serhal pensou que, em vez disso, a hima poderia ser aceita por ser um conceito tradicional; incluiria também comunidades e municípios. A hima não seria apenas uma área de proteção à natureza, confirmou Serhal; seria uma área para “a natureza com as pessoas".

Hima, terra protegida

A primeira hima foi criada no sul do Líbano em 2004. Hoje há mais de 25 dessas áreas; receberam status legal do governo e abrangem um território maior que o dos parques nacionais do Líbano. Cinco das áreas dereas designadas como hima são também aquilo que a BirdLife chama de “Áreas de Importância para as Aves", das quais há 15 no país.

Mark Day, da Sociedade Britânica para a Proteção das Aves, disse que o sistema das hima funciona por causa da sua flexibilidade. O Líbano tem um governo sectário; pode ser difícil trabalhar simultaneamente em áreas cristãs, muçulmanas e druzas, mas o conceito de hima permite que cada comunidade adote uma abordagem própria.

Serhal espera que as crianças ensinadas pela SPNL a respeito da observação e preservação das aves, e da caça responsável (recolher os próprios cartuchos, caçar somente na temporada permitida) possam influenciar seus pais.

De volta à floresta de pinheiros, dois voluntários da SPNL deram às equipes Águia, Leão, Raposa e Pégaso uma lição a respeito do risco ambiental dos cartuchos abandonados: além do plástico, que leva anos para se decompor, há também a contaminação dos lençóis freáticos pelo chumbo. Quando os escoteiros terminaram a missão de coleta, chegou a hora de contar os cartuchos. Em cinco minutos, foram reunidos 102 deles. / TRADUÇÃO DE AUGUSTO CALIL

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