Ajit Solanki/Associated Press
Ajit Solanki/Associated Press

Governo indiano sufoca protestos bloqueando a internet

A Índia é o país em que a internet foi fechada pelo maior número de vezes por imposição de governos. Em 2018, o serviço foi cortado 134 vezes, e em 2019, 93, segundo operadora

Jeffrey Gettleman, Vindu Goel e Maria Abi-Habib, The New York Times

01 de janeiro de 2020 | 06h00

NOVA DÉLI – Para sufocar o descontentamento, o governo da Índia vem adotando medidas cada vez mais acintosas, e utiliza uma tática associada aos regimes autoritários, e não às democracias: o fechamento da internet.

A Índia é o país em que a internet foi fechada pelo maior número de vezes por imposição dos governos locais, estaduais e nacional. Em 2018, o serviço foi cortado 134 vezes, e em 2019, 93, segundo a SFLC.in.

“Sempre que há um sinal de distúrbio social, este é o primeiro instrumento de que o governo lança mão”, afirmou Mishi Choudhary, fundador da SFLC.in, organização de Nova Déli sem fins lucrativos que fornece apoio legal. “Quando a manutenção da lei e da ordem é a nossa prioridade, em geral não pensamos em liberdade de expressão."

Em dezembro, referindo-se à ameaça de violência, as autoridades dos estados de Assam, Meghalaya e Tripura, no nordeste da Índia, cortaram a conectividade em resposta aos protestos contra uma nova lei da cidadania que, segundo os críticos, marginalizará 200 milhões de muçulmanos do país.

Enquanto a região da Caxemira ainda padece off-line desde agosto, pelo menos 60 milhões de pessoas foram desligadas – mais ou menos a população da França.

As medidas foram adotadas em um momento em que o primeiro-ministro Narendra Modi domina cada vez mais a Índia com punho de ferro. O seu governo e os seus aliados prenderam centenas de caxemires sem acusações formais, intimidaram jornalistas e puseram intelectuais na cadeia. Segundo os seus críticos, ele está minando as profundas tradições de democracia e do secularismo da Índia, dedicando-se a uma persistente campanha de erradicação da dissensão.

As autoridades dizem que só estão tentando deter o avanço da odiosa e perigosa desinformação. “Nos serviços de mensagens, começou a aparecer muito material provocador e odioso”, destacou Harmeet Singh, chefe de polícia de Assam, um dos lugares em que têm ocorrido mais protestos contra a lei da cidadania.

Mas os fechamentos podem ser devastadores para os que só procuram um meio de vida. Na Caxemira, o serviço de internet foi fechado no dia 5 de agosto, quando o governo de Modi enviou milhares de soldados para desligar todas as comunicações, espremendo o dissenso público. Agora, a internet está desligada há 135 dias.

“Não há como trabalhar”, argumentou Sheikh Ashiq Ahmad, presidente da Câmara de Comércio da Caxemira. Ele afirmou que milhares de empreendedores dependem da mídia social para vender os seus produtos online. “A dignidade foi roubada destas pessoas”, enfatizou.

No dia 11 de dezembro, as autoridades de Assam fecharam tudo, com exceção de uma linha terrestre da internet administrada pelo governo, porque era necessário manter bancos e outras instituições online. Na semana seguinte, foi restaurada a maior parte do serviço terrestre da internet, mas a internet móvel, que é a maneira como a maioria dos indianos se comunicam, permaneceu fechada. “A paz é mais importante do que um pequeno inconveniente para mim e para você”, disse Singh. / TRADUÇÃO DE ANNA CAPOVILLA

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