Lam Yik Fei para The New York Times
Lam Yik Fei para The New York Times

Protestos atingem em cheio a indústria do turismo em Hong Kong

Shoppings e restaurantes ficam vazios enquanto as manifestações continuam

Andrew Jacobs, The New York Times

28 de outubro de 2019 | 06h00

HONG KONG - Recentemente, na "Semana Dourada", uma das épocas do ano mais movimentadas nas lojas de Hong Kong, Matthew Tam e os seus funcionários esperavam na joalheria, cercados por caixas de relógios de luxo sem um cliente à vista sequer.

As vendas da loja, no distrito comercial de Tsim Sha Tsui, despencaram 90% nos últimos meses: os turistas desapareceram da China continental desde junho, com o início dos protestos contra as medidas do governo. “Não sei até quando vou poder resistir”, disse Tam.

Donos de hotéis, de restaurantes e guias turísticos estão igualmente preocupados  com as cenas dos confrontos violentos entre a polícia e os manifestantes exibidas pela televisão no mundo inteiro, que assustam possíveis visitantes.

No mês passado, durante os feriados da "Semana Dourada", os shoppings ficaram fechados por vários dias, e os restaurantes ofereceram descontos.

Como a liderança da cidade se recusa a atender às reivindicações dos manifestantes que exigem eleições livres e uma investigação das acusações de maus tratos da polícia, espalhou-se uma sensação de alarme inconfundível pela cidade. O turismo é um importante fator da economia de Hong Kong, e dá emprego a centenas de milhares de pessoas. Mas o número de turistas que costumavam visitar este território semiautônomo despencou. Em agosto, as chegadas ao aeroporto da cidade caíram quase 40% em relação ao mesmo período do ano passado, antes da escalada da violência dos protestos.

A queda foi particularmente  acentuada entre os chineses do continente, que no ano passado constituíram mais de 70%  dos 65 milhões de visitantes. Os números são claros. As taxas de ocupação dos hotéis chegam a apenas 60%, em relação a 91% no início deste ano. As vendas no varejo caíram 23% em agosto, o maior declínio já registrado. Na opinião dos especialistas, a economia está caminhando para a recessão. A ansiedade com a mudança do clima da cidade para os negócios aumentou com a divulgação de um relatório da Goldman Sachs que calcula que, nos últimos meses, pelo menos US$ 3 bilhões de investimentos foram transferidos de Hong Kong para Cingapura.

Há inclusive informações de demissões, e alguns dos hotéis mais chiques da cidade estão obrigando os funcionários a pedir férias não remuneradas ou a aceitar uma redução temporária dos salários.

Zhou Wenhua, 38, executiva do setor imobiliário de Xangai, ficou pasma ao encontrar a Disneylândia de Hong Kong vazia. Repetindo a explicação oficial dada por Pequim, ela tachou os participantes das manifestações de crianças mimadas que não respeitam o governo chinês. “Não fosse o Partido Comunista, a China ainda seria um país pobre e fraco”, ela disse. “Eles deveriam realmente parar com estes tumultos”.

Cercada por relógios Rolex de US$ 70 mil e relógios Tudor de US$ 20 mil expostos no balcão da sua pequena loja em Tsim Sha Tsui, Cherry Shang, 30, falou que as vendas caíram pela metade nos últimos meses. Entretanto, acrescentou que está disposta a aguentar, apesar dos problemas financeiros a curto prazo, pelos objetivos mais elevados da autêntica democracia. “Não me importo de perder dinheiro para defender certos ideais”, ela disse. / TRADUÇÃO DE ANNA CAPOVILLA

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