(Uriel Sinai/The New York Times)
(Uriel Sinai/The New York Times)

Protestos pacíficos viram estratégia alternativa para conflito árabe-israelense

Enquanto muitos palestinos protestavam atirando pedras ou queimando pneus, a maioria preferiu o protesto pacífico

David M. Halbfinger, The New York Times

20 Abril 2018 | 10h15

JERUSALÉM - O protesto da “Sexta-feira dos Pneus”, no início deste mês, acabou com nove palestinos mortos ao longo da cerca que separa o território de Gaza, apesar da cortina de fumaça dos pneus queimados, e com uma segunda saraivada de críticas internacionais pelo emprego da força letal por parte de Israel.

Agora, os manifestantes de Gaza falam em fazer uma “Sexta-feira das Flores”, uma “Sexta-feira dos Caixões”, e até mesmo uma “Sexta-feira dos Sapatos”. A ideia é atirarem sapatos nos soldados em protesto contra o bloqueio montado há muito tempo por Israel contra o território em que vivem dois milhões de moradores, na maioria, pobres.

Os palestinos parecem entusiasmados com a ideia de realizar uma forma de protesto não violento. A dura resposta de Israel e o aumento do número de mortos do lado palestino voltaram a chamar a atenção do mundo para o conflito árabe-israelense.

“Os líderes árabes, principalmente no Golfo, pensaram que poderiam negligenciar a causa palestina”, disse Omar Shaban, diretor de um painel de especialistas na questão de Gaza. “Mas isto lembra a eles, aos EUA, Israel, aos europeus - a todos eles - que o problema continua ali. A situação poderia parecer estável, mas não é nada disso. A coisa está fervendo”.

Para os habitantes de Gaza, até mesmo uma experiência com o protesto não violento constitui um passo significativo.

Os israelenses há muito tempo temiam esta mudança. E agora descobrem que o mundo está prestando atenção se eles usarão uma força desproporcional para impedir uma ruptura da cerca.

Yousef Munayyer, diretor executivo da Campanha dos Estados Unidos pelos Direitos Palestinos, considerou as manifestações uma oportunidade para tentar a nova estratégia.

“Nesta batalha os manifestantes não chegam com armas”, disse Munayyer. “Eles estão chegando com os próprios corpos e enfrentam a verdadeira política da repressão violenta. Os manifestantes pagaram com a vida para levar as pessoas a questionar se esta política é justificável”.

“Francamente, acho que este é o calcanhar de Aquiles de Israel”, acrescentou. “Neste momento, é muito importante  que a comunidade internacional apoie os manifestantes. Ela sempre pregou: ‘Abandonem a violência, abandonem a violência’ ”.

A economia de Gaza está em colapso. Os hospitais não têm remédios e a eletricidade só é fornecida algumas horas por dia. A água é insalubre e o esgoto sem tratamento é bombeado diretamente no mar. Embora, no começo, Gaza fosse pobre e populosa, o bloqueio de Israel e do Egito, implantado há 11 anos, a precipitou na crise.

A chamada Grande Marcha do Retorno começou no dia 30 de março e deverá continuar todas as sextas-feiras por semanas, culminando com uma manifestação maciça, no dia 15 de maio. Esse é o Dia da Nakba, que celebra a fuga e a expulsão de centenas de milhares de palestinos durante a guerra da independência de Israel, em 1948.

No dia 30 de março, cerca de 30 mil pessoas participaram da primeira manifestação das sextas-feiras e 20 foram mortas pelos soldados israelenses, segundo funcionários da Saúde de Gaza. Os vídeos mostraram que algumas delas receberam os tiros enquanto estavam de costas para a cerca. Na sexta seguinte, a multidão era menor, mas foram mortos mais nove palestinos.

Na tentativa de explicar o uso da força letal, Israel divulgou fotos e vídeo de alguns palestinos tentando penetrar pela cerca, e afirmou que outros haviam lançado bombas incendiárias contra os seus soldados. A Rádio Kan de Israel noticiou que foram feitas pelo menos oito tentativas de plantar explosivos ao longo da cerca.

Mas, enquanto muitos manifestantes atiravam pedras e rolavam pneus incendiados na direção da cerca, muitos outros podiam ser vistos simplesmente olhando - cantando, gritando slogans, falando palavras de ordem.

“Estas manifestações fizeram com que a voz do povo palestino fosse ouvida, e o mundo ouviu os seus gritos”, afirmou Ahmed Abu Artema, um ativista da mídia social de Gaza que teve a ideia do protesto. “O objetivo do cerco é uma força letal e nós somos os alvos. Mas nós decidimos transformar esta dor em um espírito positivo”.

Na sexta-feira, vários manifestantes se aproximaram da cerca, aventurando-se em uma zona tampão criada por Israel com centenas de metros de largura, do lado de Gaza. E muitos foram derrubados pelos tiros dos soldados, segundo funcionários da Saúde de Gaza.

“O que os israelenses estão defendendo não são vidas. Eles defendem uma cerca”, afirmou Munayyer. “Não é esta a estratégia para o uso da força letal”.

Em Gaza, muitos falam do último dia das manifestações, 15 de maio, o momento em que as massas de manifestantes tentarão atravessar a cerca e entrar em Israel. Esta possibilidade é um pesadelo para Israel, segundo Giora Eiland, general aposentado e ex-chefe do  Conselho de Segurança Nacional israelense.

“Isto poderá criar um verdadeiro desafio para nós, porque não queremos disparar tiros e matar dezenas, centenas de pessoas”, ele disse. “E ao mesmo tempo não queremos que eles cruzem a fronteira de Israel porque não toleraremos isto”.

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