PrisonExp.org via The New York Times
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Psicologia analisa seu próprio passado

Estudos controversos começam a ser revistos na atualidade

Benedict Carey, The New York Times

24 Julho 2018 | 10h15

O desejo de derrubar estátuas vai muito além das praças públicas nas nações em tumulto. Ultimamente, andou agitando também a psicologia. Há alguns meses, pesquisadores e jornalistas amarraram cordas em volta do pescoço de pelo menos três monumentos do cânone da moderna psicologia.

O famoso Experimento da Prisão de Stanford, que concluiu que pessoas que haviam interpretado o papel de guardas rapidamente passaram a exibir uma crueldade não característica nelas, está sendo revisto. O mesmo acontece com o famoso teste do marshmallow, que mostrara que as criancinhas que conseguiram adiar a gratificação tiveram mais sucesso, anos mais tarde,  em comparação às que não conseguiram.

E o próprio conceito de ego depletion, ou esgotamento do ego, isto é, a ideia de que a força de vontade é como um músculo que pode ser construído, mas também pode se desgastar, foi posto em dúvida.

Desde 2011, a psicologia vem se dedicando a uma intensa análise dos próprios fundamentos, refazendo mais de 100 estudos considerados marcos na matéria. Geralmente, os resultados originais não podem ser reproduzidos, e todo um processo controvertido passa a adquirir outras nuances em razão da mudança geracional.

"Trata-se de uma fase de limpeza da casa; nós estamos descobrindo que muitas coisas não são tão sólidas quanto pensávamos", afirmou Brian Nosek, professor de psicologia da Universidade de Virgínia, que em 2015 publicou um estudo no qual relatava que cerca de 60% dos estudos mais famosos apresentaram resultados diferentes em uma segunda análise. "É um momento de reforma".

Os estudos persistem na cultura comum como poderosas metáforas, explicações de nosso comportamento que entendemos como verdadeiras.

O experimento da prisão de Stanford é um  exemplo cabível disso. Em 1971, o professor de psicologia Philip Zimbardo reuniu 24 estudantes universitários e denominou aleatoriamente a metade deles como "prisioneiros" e a outra metade como "guardas", colocando-os em uma "prisão". Depois de seis dias, Zimbardo cancelou o experimento, relatando que os "guardas" entraram excessivamente en seus papéis: eles começaram a abusar dos colegas, alguns deles de maneira chocante.

O experimento levou Zimbardo à fama. Mas os pesquisadores contestaram o estudo, afirmando que seu autor treinara os "guardas" para serem rigorosos.

Acaso este treinamento "não constitui um convite aberto a abusar psicologicamente de outras pessoas de todas as maneiras possíveis?", escreveu Peter Gray, psicólogo do Boston College, que decidiu excluir qualquer menção da simulação de seu texto introdutório. "E quando os guardas se comportaram desta maneira e intensificaram este comportamento, enquanto Zimbardo observava e aparentemente o aprovava (com seu silêncio), não teria isso confirmado nas mentes dos sujeitos que eles estavam se comportando exatamente como deveriam?

Zimbardo afirmou que o experimento foi "uma demonstração do que  poderia acontecer" à pessoa influenciada por papéis sociais e pressões externas, e que seus críticos simplesmente não entendiam. As questões que cercam os estudos do marshmallow e do esgotamento do ego são diferentes, mas colocaram os pesquisadores no mesmo problema fundamental: será que isso é alguma coisa, ou não é nada?

Todos os psicólogos mais jovens, defensores eloquentes da autocorreção, podem entrar em conflito consigo mesmos.

"No caso da ego depletion, particularmente, parece que existe alguma verdade neste sentido - nós temos um sentimento subjetivo da fadiga cognitiva" depois de exercer o autocontrole, afirmou Katie Croker, professora da Grand Valley State University em Michigan.

Segundo Katie, uma reprodução realizada recentemente por um dos autores originais encontrou uma evidência de um efeito, mas muito pequena.

"Talvez não o tenhamos estudado devidamente, não sei. Quem sabe devêssemos nos  perguntar:  o que é preciso para destruir um grande resultado como este? Ou, o que seria preciso?".

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