Daniel Arnold/The New York Times
Daniel Arnold/The New York Times

Imaginar um futuro melhor é gratuito e libertador

Crer que algo melhor está por vir, quer inclua festas gigantescas ou apenas mais abraços, ajuda as pessoas a enfrentarem tempos difíceis

Tariro Mzezewa, The New York Times - Life/Style

01 de fevereiro de 2021 | 05h00

Teddy Johnson tem uma fantasia clara sobre o que fará no dia em que a pandemia "acabar" – independentemente de como e quando isso acontecer.

Ele espera que o dia esteja ensolarado, talvez com uma temperatura de início de verão. I Wanna Dance With Somebody (Who Loves Me), de Whitney Houston, estará tocando em todos os lugares – nas ruas de Nova York, onde mora; no metrô; e definitivamente na balada onde Johnson vai se reunir com todos os seus amigos. Vai usar uma camiseta regata cortada com manchas de tinta por toda parte, com suas calças boca de sino apertadas favoritas e seus maravilhosos óculos de sol.

"Mal posso esperar para dançar com meus amigos", disse Johnson, de 28 anos, por telefone de seu apartamento em Manhattan. Isso não vai apagar a dor do ano que passou, que foi agravada por conta da perda do emprego, mas a fantasia da pista de dança o acalma – é algo pelo qual ele anseia: "Dançar é tão importante para mim quanto água. Pensar em ir a uma pista de dança com as pessoas que amo já me ajuda a superar essa vida de ter de ficar em casa".

A fantasia de Johnson pode parecer prematura – a maioria de nós não vai voltar correndo para uma pista de dança lotada, independentemente de quanta faça falta – mas os especialistas dizem que fantasiar, pensar no futuro e usar a imaginação são ferramentas poderosas que ajudam a superar os momentos difíceis.

Com o fim do inverno no hemisfério norte ainda distante e com casos de coronavírus e óbitos ainda altos (e uma nova variante à solta, que é mais transmissível), as pessoas precisam olhar para a frente, para as festas que vão organizar, para os abraços que vão dar e receber, para as conversas que vão ter e para as viagens que vão fazer quando houver segurança.

"O mais importante da imaginação é que ela lhe dá otimismo", frisou Martin Seligman, professor de Psicologia na Universidade da Pensilvânia, onde também atua como diretor do Centro de Psicologia Positiva.

Seu trabalho é dedicado ao estudo da agência humana, baseada na eficácia, no otimismo e na imaginação. (Quando Seligman era presidente da Associação Americana de Psicologia, em 1998, ele pressionou pelo fim do "foco no que está errado para o que faz a vida valer a pena".)

Selingman afirmou que as horas gastas fantasiando e sonhando acordado com planos são valiosas. Elas permitem que escapemos da rotina e cultivemos a esperança e a resiliência. A imaginação também ajuda a viver uma "boa vida", que Seligman descobriu ser muito influenciada por pensamentos positivos, emoções, engajamento, relacionamentos, significado e realizações.

"Imaginar o futuro – chamamos isso de prospecção de habilidades – faz uso de um conjunto de circuitos cerebrais que sobrepõe o tempo e o espaço e permite que imaginemos que as coisas estarão bem além do aqui e do agora. A essência da resiliência em relação ao futuro é: você é um bom prospector?", indagou o professor.

E esse é o caso, independentemente de esse futuro imaginado ser exagerado e inverossímil ou aparentemente mundano.

Gabriela Aguilar, de 27 anos, mãe de dois filhos e dona de uma loja Etsy de produtos caseiros, comentou que o que mais deseja é levar os filhos a um parquinho. O do Zilker Park, em Austin, no Texas, é sua maior fantasia.

A família de Aguilar se mudou de Houston para Austin em 2020, e seus filhos não puderam brincar com outras crianças desde que chegaram lá. "Eu me sinto mal quando saímos para caminhar e vejo outras crianças. Eles querem brincar, se divertir e simplesmente ser crianças, mas há essa estranheza de separarmos nossos filhos e não deixarmos que isso aconteça."

Rachel Syme, que escreve sobre moda, estilo e cultura para a The New Yorker, explicou que, ao lado da amiga Avery Trufelman, com quem apresenta o podcast The Cut, tem conversado sobre dar uma festa assim que for seguro. "Podemos usar as roupas que não vestimos neste último ano – nenhuma roupa muito exagerada, sem regras. Venha com um terno de veludo, com um collant, com um vestido de baile. NÃO HÁ REGRAS", escreveu ela em um e-mail enviado em dezembro.

Imani Baucom, de 29 anos, professora em Washington, D.C., tem fantasiado sobre fazer uma viagem à República Dominicana para ver uma turma de alunos da quinta série para a qual lecionou há cerca de sete anos. Eles vão se formar no ensino médio neste ano.

Jordan Firstman, escritor de programas de televisão que ganhou fama fazendo imitações no Instagram, está fantasiando sobre um dia em que organizará "um café da manhã para 20 pessoas na parte interna de um restaurante", seguido por uma orgia, um jantar, uma peça de teatro ao vivo, uma festa em um armazém e baladas "até às seis da manhã. Em seguida, vamos assistir Wicked, às oito da manhã, porque a peça de teatro da noite anterior não vai ter sido suficiente. Queremos mais teatro."

Fantasias superdimensionadas como essas são, essencialmente, semelhantes às versões mais simples – um encontro, um coquetel, a possibilidade de voltar a bisbilhotar –, no sentido de que todas são expressões de uma intensa necessidade humana de se conectar.

"As pessoas estão fantasiando sobre aquilo de que estão sentindo falta agora. Sonhar acordado serve como um substituto para ter um pouco do prazer que normalmente a vida real lhes proporcionaria", disse Deirdre Barrett, psicóloga que leciona na Escola de Medicina Harvard.

Numa época em que muitas pessoas perderam entes queridos ou estão lutando para pagar as contas, alimentar a família e manter a casa em ordem, fantasiar sobre tempos melhores não é necessariamente algo fácil.

Segundo Peg O'Connor, professora de Ética da Faculdade Gustavus Adolphus, em Minnesota, "nós nos esquecemos de que a imaginação não lida apenas com o positivo. Pensar sempre na imaginação como uma coisa boa é um perigo. Muitas pessoas não conseguem imaginar coisas boas, alegres e esperançosas, porque simplesmente não são capazes ou porque tiveram tantas dificuldades na vida que isso parece algo imprudente".

Isso foi repetido por April Toure, psiquiatra que se especializou em trabalhar com crianças e adolescentes no Centro Médico Maimonides, no Brooklyn, em Nova York: "Mesmo que não seja considerada um sintoma central da depressão, a falta de esperança é um sintoma comum. Pensar no futuro, ou imaginar e crer que algo melhor está por vir, é crucial para superar os tempos difíceis."

"Manter a esperança, mesmo em relação a uma coisa simples e mundana, pode fazer uma grande diferença. Não sonho acordada com uma grande viagem, mas mal posso esperar para abraçar minha mãe", completou O'Connor.

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