Adam Dean para The New York Times
Adam Dean para The New York Times

Psiquiatra atende próprio povo após guerra civil no Sri Lanka

De porta a porta, Jegaruban atende pessoas que sofreram com transtornos mentais

Mujib Mashal, The New York Times

16 Dezembro 2018 | 06h00

KILINOCHCHI, SRI LANKA - Os aldeões chegam um de cada vez, carregando um pequeno livro azul que narra uma história de perda e dor. No verso de cada livro está o nome do paciente. Dentro, na primeira página, uma árvore genealógica. Um “X” é rabiscado ao lado de cada parente morto. Um “?” indica os desaparecidos. Sob o símbolo é anotada a causa, que, frequentemente, consiste nas mesmas letras maiúsculas: “GUERRA".

Se fosse suportável, seu trauma seria mantido no âmbito privado, atrás das paredes de lares modestos nesta região do norte do Sri Lanka. Mas é impossível. Assim, eles frequentam sessões mensais de terapia pública, formando fila para serem atendidos por V. Jegaruban. Conhecido como Jegan, ele é um psiquiatra do governo que assumiu a missão de ajudar as pessoas a retomarem suas vidas após o fim da devastadora guerra civil do país, que durou até 2009, num total de 26 anos, deixando um rastro de mais de 100 mil civis mortos.

“Todos pensam em construir pontes, construir casas, construir hospitais depois da guerra", disse Jegan, lamentando a falta de atenção ao “trauma coletivo". “Poucos se concentram nas vidas, em ajudar a trazer de volta a alegria. Não é fácil.” Muitas das desigualdades e divisões étnicas que levaram à guerra civil no Sri Lanka perduram. Impelida por uma cultura de voluntariado, a população se uniu para lidar com o trauma profundo que continua a envolver grande parte da sociedade.

O governo estima que, em todo o país, cerca de 10% dos 22 milhões de habitantes do Sri Lanka sofram de algum distúrbio mental, com quase 800 mil afetados pela depressão. Pesquisas indicam que a incidência é muito mais alta no norte do país, onde se concentrou a maior parte dos combates. Estudos menores no nordeste perto do fim da guerra mostraram que a incidência de estresse pós-traumático entre as crianças chegava a 30%.

O número de suicídios no Sri Lanka esteve durante muitos anos entre os 10 mais altos do mundo. A situação melhorou com aprimoramentos na infraestrutura facilitando o acesso aos hospitais, bem como restrições à venda de pesticidas mortíferos que as pessoas usavam para se envenenar. Mas o país ainda está entre os 20% piores nesse aspecto. A polícia atende cerca de 10 ocorrências do tipo por dia. De acordo com ativistas, o número pode chegar a 15. Pelo menos outras 100 a 150 pessoas tentam se suicidar todos os dias.

“Não há muitos dados confiáveis indicativos do tamanho do fardo para a saúde mental, mas é provável que o impacto seja muito maior do que os números que o governo está divulgando", disse o psicólogo Nivendra Uduman. “Alguns dos problemas são mais observados no norte e no leste. Mas os distúrbios principais (depressão e ansiedade) podem ser vistos por toda parte.”

Às vezes, são psiquiatras do governo como Jegan que tentam atender à demanda por tratamento. Mas, frequentemente, o fardo recai a voluntários (um bancário aposentado recentemente, uma ex-enfermeira, um mediador de disputas comerciais locais) que receberam treinamento terapêutico. Eles atendem chamadas nos serviços de apoio à vida ou participam de programas como Jegan.

Jegan trabalha em Kilinochchi, distrito de aproximadamente 130 mil habitantes que foi palco de alguns dos piores combates. Era a capital dos Tigres Tâmeis, que, anos antes, romperam com o governo de maioria cingalesa em virtude de acusações de abusos.

A brutal ofensiva do presidente Mahinda Rajapaksa encurralou os rebeldes em Kilinochchi, e o exército do Sri Lanka, indiferente às acusações de crimes de guerra, fechou a área aos observadores internacionais e libertou toda a sua fúria. Houve época em que toda a população da região estava desabrigada. Na ausência de uma contagem precisa das vítimas, as Nações Unidas dizem que pelo menos 40 mil civis foram mortos no estágio final da guerra.

O método empregado por Jegan, que vai de porta em porta nos vilarejos vizinhos a Kilinochchi, ajuda a afastar o tabu ligado a problemas de saúde mental que, no passado, deixariam muitos de seus pacientes estigmatizados. Com ele, sua dor tem uma causa, uma história - registrada nos pequenos livros azuis.

“Marido morreu de ataque cardíaco, uma filha morreu na guerra, uma irmã se matou", leu ele numa árvore genealógica. A paciente, uma mulher de mais de 60 anos, estava sentada diante dele, em silêncio. Ulaganathan Nagendram, 67 anos, veio com a mulher, Umadevi, temendo que estivesse sofrendo um ataque cardíaco.

Jegan não detectou nada de fisicamente errado com ele. Então, fez outra pergunta: qual era a preocupação de Nagendram? A mulher explicou que os dois filhos foram mortos na guerra, e o aniversário da morte de um deles tinha sido recentemente. “Ele sempre fica melancólico nessa época", disse, a respeito do marido. “Guarda tudo para si e nega estar infeliz ou deprimido. Ao menos nós, mulheres, conversamos entre nós e choramos quando necessário. Ele nunca faz isso.”

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