Mladen Antonov / AFP
Mladen Antonov / AFP

Putin seria tão poderoso quanto aparenta?

Há dúvidas se o presidente russo é um 'líder onipotente atacado por críticos' ou se está sentado sobre um governo em vias de desmoronar

Andrew Higgins, The New York Times

29 de março de 2019 | 06h00

ORYOL, RÚSSIA - Depois de aguardar 19 meses em uma cadeia russa o processo por “extremismo”, Dennis O. Christensen, uma testemunha de Jeová da Dinamarca, detido por causa de sua religião, no fim do ano passado, recebeu um estímulo inesperado do presidente Vladimir V. Putin.

Falando no Kremlin em dezembro, o presidente declarou que processar pessoas por sua religião era “um absurdo total” e que isto tinha de parar. Mas em vez de reprimir a campanha que ocorria em toda a Rússia contra as Testemunhas de Jeová, sua observação foi seguida por mais prisões; uma condenação e uma sentença a seis anos de prisão para Christensen; e por informações de tortura de crentes detidos na Sibéria.

O fosso existente entre o que Putin fala e o que acontece na Rússia suscita uma indagação fundamental sobre a natureza de seu governo, depois de mais de 18 anos: será ele realmente o líder onipotente atacado pelos críticos e enaltecido por seus propagandistas? Ou ele estaria sentado sobre um Estado em vias de desmoronar, um sistema movido mais pelos cálculos caprichosos e frequentemente venais de burocratas e grupos de interesse que competem entre si do que pelas ordens do Kremlin?

Ekaterina Schulmann, cientista política em Moscou e membro do Conselho para a Sociedade Civil e os Direitos Humanos de Putin, disse que o poder do presidente tem sido enormemente exagerado. “Este não é um império dirigido por uma pessoa, mas uma enorme máquina burocrática difícil de gerir, com suas próprias normas e princípios internos”, disse. “De tempos em tempos, acontece que o presidente diz alguma coisa, e então nada acontece ou mesmo o seu oposto”.

Forças políticas e burocráticas reforçam e ao mesmo tempo minam o seu poder: os serviços de segurança, a Igreja ortodoxa russa, os oligarcas bilionários, as autoridades locais. “O sistema é disfuncional”, disse Andrew Wood, um ex-embaixador britânico em Moscou. “Homem nenhum poderia controlar tudo’.

Para os ocidentais, acostumados a ver Putin pavonear-se diante da câmera e projetando uma aura de comando, estas afirmações podem parecer difíceis de acreditar. Depois que Putin chegou ao poder no fim de 1999, ele conteve a enorme desordem e as ruidosas lutas internas que, sob o seu antecessor, frequentemente embriagado, Boris Yeltsin, deixaram a Rússia com um Estado que mal funcionava.

Mas muitos projetos que ele apoiou, como uma ponte crucial sobre o Rio Amur entre a Rússia e a China, e um empreendimento para a construção de uma rodovia entre Moscou e São Petersburgo, pararam

A construção de um centro de lançamento de foguetes no Extremo Oriente da Rússia, defendida por Putin como “um dos maiores e mais ambiciosos projetos da Rússia moderna” está levando anos além do planejado, emperrada pela corrupção, pelas greves de trabalhadores que não recebem salários e por outros problemas.

O gabinete do Promotor Geral em Moscou afirma que US$ 150 milhões foram roubados do projeto, que segundo se afirma foi embargado por  17 mil infrações legais  de mais de mil pessoas.

O desencontro entre as palavras de Putin e as ações do sistema voltou a ficar claro em fevereiro quando a polícia de Moscou prendeu Michael Calvey, fundador americano de um dos mais antigos e maiores fundos de investimentos para atender a Rússia, por acusações de fraude. Sua prisão contrariou as reiteradas afirmações de Putin de que a Rússia deve atrair investidores estrangeiros e impedir que as agências de segurança se misturem em disputas de negócios.

Hoje, a Rússia não se parece com o país rigidamente regrado governado por Stalin, mas com a dilapidada autocracia da Rússia do início do século 19, segundo Ekaterina Schulmann. O governante da época, o czar Nicolau I, presidia burocratas corruptos que expandiram o território russo, levaram o país a uma guerra desastrosa na Crimeia e mergulharam a economia à estagnação em um beco sem saída.

Nicolau tinha consciência dos limites do seu poder: “Não sou eu que governo a Rússia”, queixava-se. “São os 30 mil funcionários”. A diferença agora, disse Schulmann, é que há mais de 1,5 milhão de funcionários, ou burocratas.

“O culto de Putin no topo de um ‘poder vertical’ todo-poderoso é um mito. Não existe”, afirmou Mark Galeotti, especialista britânico em questões russas. Ao contrário, acrescentou, Putin é “um borrão cinzento  que permite que nós todos criemos o nosso Putin”, todo-poderoso e maquiavélico ou lutando para manter unido um sistema decrépito.

No seu discurso sobre o estado da nação, em fevereiro, Putin voltou a enfatizar a necessidade de deixar que os empresários trabalhem livremente. Observando que ele fez a mesma exigência em um discurso anterior, admitiu que “infelizmente, a situação não melhorou muito”. “Uma ditadura adequadamente conduzida parece muito diferente disto", afirmou Galeotti. Um autocrata controlado por 1.500 burocratas.

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.