Michael Stravato para The New York Times
Michael Stravato para The New York Times

Quadro da Ku Klux Klan é um teste para curadores no Texas

Museu de Arte de Blanton está lutando para apresentar o panorama de Vincent Valdez de um encontro moderno do grupo

Michael Hardy, The New York Times

02 Agosto 2018 | 10h00

AUSTIN, TEXAS - O Blanton Museum of Art na University of Texas, em Austin, sabia que tinha um quadro em suas mãos que exigia bastante sensibilidade: uma enorme tela de nove metros de largura do artista Vincent Valdez, de Houston, que imaginou uma reunião nos dias atuais da Ku Klux Klan, o grupo de supremacistas brancos. No meio tempo, uma série de recentes controvérsias no mundo das artes enfatizara a necessidade deste cuidado dos curadores.

Uma pintura do corpo mutilado de Emmett Till, de autoria de um artista branco, provocou protestos na Bienal do Whitney em Nova York, no ano passado, e imagens de pessoas negras manchadas de chocolate e pasta de dentes de outro artista branco irritou afro-americanos em St. Louis, Missouri.

Por isso, depois de adquirir uma pintura de Valdez elaborada em quatro painéis, em 2016, o Blanton passou dois anos preparando a estreia do quadro, no dia 17 de julho. Para exibir a pintura, os curadores reservaram uma galeria especial com a advertência de que a obra poderia “provocar fortes emoções”.

A equipe do museu também fez prévias do quadro para professores e alunos, na esperança de que a exposição imunizasse o museu contra as críticas. A equipe consultou mais de 100 pessoas e organizações, inclusive o gabinete do prefeito, a Liga Anti Difamação e a Austin Justice Coalition, uma organização de defesa das pessoas negras.

A violência racial continua um assunto explosivo no Texas. No início de julho, o estado lembrou os 20 anos do assassinato de James Byrd Jr., por brancos supremacistas na cidadezinha de Jasper, no leste do Texas. Em dezembro, grupos de defensores dos direitos civis, como a NAACP (Associação Nacional para o Avanço das Pessoas Negras), inauguraram uma placa, sempre em Austin, para lembrar os três afro-americanos que foram linchados nessa região, em 1894.

Durante uma conversação com o artista em seu estúdio, Valdez disse que esperava que o seu quadro, intitulado “The City I”, lembrasse os espectadores de que a Klan não pode permanecer relegada na segurança do passado. “Há pessoas nos Estados Unidos da América que se recusam a admitir a existência de entidades como a Klan”, ele disse. “E agora estamos vendo o resultado final”.

Uma das figuras encapuzadas no quadro consulta o seu iPhone, enquanto uma picape Chevrolet último tipo está estacionada no fundo.

“É muito mais fácil enfrentar temas como a supremacia branca ou a Klan como vilões maus”, disse Valdez. “O que mais me preocupa agora é a ideia de que todos habitamos a mesma paisagem americana”.

A diretora do Blanton, Simone Wicha, teve a oportunidade de ver uma versão inacabada de “The City I” em 2016; a partir de então, ajudou a levantar US$ 200 mil para a compra do quadro. Ela pretendia mostrá-la no verão passado, mas decidiu adiar porque não queria que o quadro fosse visto como um protesto contra a eleição do presidente Donald J. Trump. Um ano depois, o museu tivera tempo suficiente para envolver a comunidade.

“Com um quadro como este, com o tema que ele trata, considerando o mundo em que vivemos hoje, precisávamos realmente ter cuidado em como preparar este momento”, afirmou. “Teríamos feito isto em um clima políticos diferente? Não sei. Mas posso afirmar que neste clima político foi a coisa certa a fazer”.

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