Jean-Paul Pelissier|Reuters
Jean-Paul Pelissier|Reuters

Qualquer coisa, menos ficção científica: a energia do futuro

Turbinas que ondulam com o vento e combustíveis feitos de algas

Brad Plumer, The New York Times

30 Abril 2018 | 10h00

Ao largo da costa da Califórnia, talvez futuramente pequenos submarinos robôs arrastem as algas marinhas até as profundezas do oceano, durante a noite, para que absorvam os nutrientes, e as tragam de volta à superfície durante o dia, para que fiquem expostas à luz solar.

O objetivo deste estranho projeto é verificar se é possível cultivar grandes quantidades de algas marinhas no oceano aberto para um novo tipo de biocombustível neutro em carbono para motores de caminhões e de aviões do futuro. Ao contrário dos biocombustíveis à base de soja e milho usados atualmente, os combustíveis à base de algas não precisariam de valiosas terras de cultivo.

Contudo, será necessário solucionar certos problemas. “Inicialmente, precisamos mostrar que as algas não morrerão quando as carregarmos para cima e para baixo”, disse Cindy Wilcox, cofundadora da Marine Bio Energy Inc., que no verão iniciará uma primeira fase de testes.

Milhares de inventores e empreendedores encontraram-se recentemente em um congresso em Washington para discutir os obstáculos que se colocam no futuro de uma energia mais limpa. Os pesquisadores financiados pela Advanced Research Projects Agency-Energy, ARPA-E, também apresentaram as suas ideias: desde as simplesmente criativas (um sistema de reciclagem do calor do lixo nos navios da Marinha) para as absolutamente desvairadas (conceitos para pequenos reatores de fusão).

Quanto à energia eólica, nos últimos anos, empresas privadas se propuseram construir turbinas eólicas ainda maiores ao largo da costa para tentar aproveitar os ventos mais persistentes que sopram a uma altitude maior na atmosfera, e produzir eletricidade a custos menores. Um dos desafios será projetar pás do tamanho de campos de futebol que não se deformem sob a pressão.

Uma equipe mostrou um novo projeto de pá, inspirado nas folhas das palmeiras, que se agitam com o vento para minimizar o stress. O grupo testará um protótipo neste verão.

Os pesquisadores pretendem ainda projetar uma turbina de 50 megawatts, mais alta do que a Torre Eiffel, com pás de cerca de 200 metros de comprimento, o que corresponderia ao dobro das turbinas mais monstruosas de hoje. Esta tecnologia, afirmam, reduziria pela metade o custo da energia eólica ao largo da costa.

À medida que a energia renovável se tornar mais difundida, os serviços públicos terão de encarar o fato de que a produção da sua energia poderá flutuar consideravelmente todos os dias ou até por meses. Teoricamente, pilhas ou outras técnicas de armazenamento de energia poderão permitir que operadoras de rede absorvam a energia eólica excedente nos períodos ventosos, que seria usada durante os períodos de calmaria. Mas a atual geração de pilhas de íons de lítio poderá se tornar excessivamente dispendiosa para o armazenamento sazonal em larga escala.

Ainda não se sabe ao certo quais serão as tecnologias que poderão ajudar a resolver o problema do armazenamento. Mas a agência aposta em coisas como novas químicas de baterias e catalisadores capazes de converter a energia eólica excedente em amônia, que então seria usada em fertilizantes ou ela própria como fonte de combustível.

Michael Campos, pesquisador da ARPA-E, discutiu a possibilidade de usar milhões de antigos poços de petróleo e gás em todo o Centro-Oeste para o armazenamento de energia. Uma hipótese seria usar a eletricidade excedente para bombear ar pressurizado nos poços. Mais tarde, quando houvesse necessidade de mais energia, o gás comprimido poderia movimentar as turbinas, gerando eletricidade.

Uma companhia chamada Achates Power mostrou o protótipo de uma picape com uma modificação no motor de combustão interna, que ela espera possa permitir que caminhões pesados cheguem a fazer 60 quilômetros com um galão – o que não é pouco em um mundo em que as vendas de SUV estão bombando. Várias outras empresas  estão experimentando com lasers e drones para detectar mais rapidamente vazamentos de metano de dutos de gás natural. O metano é um gás causador do efeito estufa muito mais potente do que o dióxido de carbono.

Entretanto, no congresso foi possível entrever um futuro sombrio para a própria agência. O governo de Donald J. Trump, que é favorável a fontes de energia mais tradicionais como o carvão, propôs a eliminação sumária da verba de US$ 300 milhões da agência, afirmando que “o setor privado está melhor posicionado para promover avanços na pesquisa de energia inovadora.”

Chris Fall, a principal vice-diretora da agência, afirmou aos presentes: “estamos em uma encruzilhada. Mas, enquanto não nos disserem para fazer algo diferente, precisamos continuar pensando no futuro”.

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