Mark R. Cristino/European Pressphoto Agency, via Shutterstock
Mark R. Cristino/European Pressphoto Agency, via Shutterstock

Quando a bolha do mercado estourar, considere a antibolha

À medida que se avolumam, bolhas sugam capital das economias e companhias em crescimento

Ruchir Sharma, The New York Times

05 Janeiro 2019 | 06h00

Recentemente, depois de dez anos de ganhos extraordinários, o mercado de ações dos Estados Unidos ficou descontrolado, com o setor de tecnologia encabeçando a lista das que mergulhavam em um rápido declínio. As gigantes tecnológicas americanas caíram em média 25%, e, ao que tudo indica, a grande bolha global dos anos 2010 está prestes a estourar. A pergunta que todos se fazem é: o que virá em seguida?

Uma resposta, em qualquer período de transição como este, é procurar as antibolhas. As bolhas são impulsionadas pela propaganda exagerada e definidas como Hype (mania), inclusive com transações inusitadamente pesadas e aumento dos preços a um ritmo inusitadamente acelerado, subindo a um nível que não pode se justificar pelo crescimento subjacente da atividade econômica ou da companhia. As antibolhas são a imagem refletida no espelho, que vai se delineando nos recantos de menor destaque do mundo, definida por transações fracas, com preços estagnados em patamares baixos apesar do sólido crescimento da economia ou da companhia.

A obsessão dos investidores pela tecnologia acabou empurrando muitos outros setores, e muitos países, numa área solitária próxima das antibolhas. Este ano, em seus picos, Apple e Amazon chegaram a valer mais de 1 trilhão de dólares. E a tecnologia ofuscou países e regiões inteiras como raramente vi nos meus 25 anos na área de investimentos.

Até o começo da reviravolta da tecnologia, em outubro, os mercados de ações do Sudeste Asiático à Europa Oriental e à América Latina estavam negociando as maiores baixas em muitas décadas em relação aos Estados Unidos. Pelo preço da Apple, seria possível adquirir todas as companhias de três dos maiores mercados do Sudeste Asiático: Indonésia, Malásia e Filipinas. Ou todas as empresas públicas dos três maiores mercados da Europa Oriental - Polônia, República Checa e Hungria - mais de três vezes.

Isto não é normal. Em geral, os preços refletem a maior aposta coletiva do mercado no futuro, e constitui um sinal claro de obsessão é quando o mercado acha que uma companhia tem um futuro mais brilhante do que um país grande. Em poucas palavras, as antibolhas não incluem companhias que fazem parte de heranças como as lojas de departamentos e os jornais, cuja existência em si foi posta em dúvida. As antibolhas abrangem os países e as companhias que pareceriam destinadas a um futuro brilhante, mas que lutam para atrair a atenção dos investidores.

Historicamente, os maiores retornos no mercado de ações ocorreram nas economias de maior crescimento. Mas este esquema mudou nos últimos anos, quando os investidores foram atrás da tecnologia em detrimento de todo o resto. Os maiores  retornos apareceram em países de fraco crescimento como Taiwan. Os menores em economias de rápido crescimento como as Filipinas. O motivo: Taiwan é uma economia voltada para a tecnologia, as Filipinas não.

Mas quando uma grandes tecnologia começa a rachar, este comportamento também começa a mudar. Os mercados de ações das Filipinas à Indonésia começaram a sair das antibolhas. E nos Estados Unidos, os setores robustos que foram deixados na poeira pelas gigantes tecnológicas começam a atrair novamente os investidores, também, inclusive as telecomunicações, imóveis e principais bens de consumo.

Nos anos 80, previa-se em geral que o Japão seria a próxima superpotência econômica predominante. Embora representasse apenas 15% da produção econômica global, o Japão absorvia cerca de metade do dinheiro investido nos mercados de ações do mundo inteiro. Os Estados Unidos, onde a economia era cerca de duas vezes maior e crescia de maneira sustentada, lutavam para escapar da sombra projetada pelo Japão. Eles estavam presos na antibolha daquela era. No final da década, entretanto, a bolha do Japão explodiu, e os Estados Unidos deveriam ocupar o centro do cenário.

A próxima grande bolha apareceu nos Estados Unidos durante o frenesi tecnológico do final dos anos 90, que gerou outra série de antibolhas. No final da década, as grandes companhias petrolíferas e as economias impulsionadas pelas commodities, do Brasil à Rússia, abaladas pelos preços em queda, saíram do radar dos investidores globais, e os preços de suas ações estavam se arrastando perto das últimas posições.

Mas foram obrigadas a racionalizar as suas finanças e operações, e as fortunas das suas ações logo se recuperariam quando as apostas nas ‘.com’ fracassaram. No final de 2007, com o aumento dos preços das commodities, sua volta se completou. Cinco das dez companhias mais valiosas do mundo, em termos de capitalização de mercado, eram gigantes de energia.

Se o comportamento da bolha é frenético, quando investidores superexcitados mandam os volumes diários transacionados a alturas vertiginosas, a disposição de uma antibolha é o oposto, marcada por transações quando muito escassas. Em um sinal claro das atuais antibolhas, os mercados das Filipinas, Malásia e Indonésia juntos negociam menos de 1 bilhão de dólares por dia, em comparação com 6 bilhões de dólares por dia somente da Apple.

Há muitas outras antibolhas. A Polônia é uma economia em forte crescimento com um endividamento mínimo e um pequeno déficit, que também tem a mão leve com as empresas de tecnologia. Entretanto, entre os mercados emergentes, a Polônia continua tropeçando com baixas vistas pela última vez no início dos anos 1990. O México não enfrenta nenhuma ameaça óbvia de crise financeira, entretanto o dinheiro fugiu do seus mercado de ações, o que contribuiu para jogar o peso a baixas registradas durante a “crise da tequila” de 1994.

As antibolhas apresentam o mesmo aspecto particular observado nas bolhas. Elas não são duráveis. As pessoas acabam reconhecendo que os preços estão desequilibrados, e se adaptam. Elas voltam a procurar histórias de crescimento sem grandes custos, e as encontram entre países e companhias que foram esquecidos.

As bolhas são dramas convincentes, em que os principais personagens estão sempre correndo agitados na direção de uma queda repentina. Muito menos se escreveu sobre as antibolhas, que, à sua maneira, são histórias igualmente emocionantes sobre personagens azarados que caminham sem estardalhaço rumo a retornos surpreendentes.

Ruchir Sharma é diretor global de estratégias da Morgan Stanley Investment Managemens

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.