Lida Xing via The New York Times
Lida Xing via The New York Times

Quando a ética é motivo para interromper estudos sobre fósseis

Utilizado por paleontólogos, o âmbar é extraído em um estado em que os militares de Myanmar combateram longamente contra uma minoria étnica

Lucas Joel, The New York Times

30 de março de 2020 | 06h00

Fósseis preservados em âmbar estão oferecendo aos paleontólogos vislumbres excepcionais da idade dos dinossauros, seja por meio da cauda preservada de um dinossauro ainda com suas penas, seja uma rã congelada no tempo. Mas grande parte do âmbar rico em fósseis é encontrada em Myanmar, país que recentemente a Corte Internacional de Justiça da ONU obrigou recentemente a proteger a minoria rohingya contra atos de genocídio.

Ocorre que a mineração e venda do âmbar pode também ser uma fonte de lucro para os militares do país. Um artigo publicado no ano passado na Science Magazine contou em detalhes como o âmbar é extraído em um estado em que os militares de Myanmar combateram longamente contra outra minoria étnica, os kachin, e como o âmbar é contrabandeado para a China, onde pode chegar a ser vendido por preços muito altos, o que poderia alimentar o conflito.

Estas preocupações estão fazendo com que muitos cientistas, principalmente nos países do Ocidente, evitem a utilização deste âmbar na pesquisa paleontológica. “Desde a crise dos rohingya, boicotei a compra de âmbar de Burma, e aconselhei colegas da mesma área a fazerem o mesmo”, afirmou David Grimaldi, paleontólogo e curador do American Museum of Natural History de Nova York. A reação de alguns cientistas a uma descoberta publicada no dia 11 de março na revista Nature destacou a crescente preocupação com os estudos que dependem do âmbar de Myanmar.

Um crânio de um dinossauro de 99 milhões de anos, preservado em condições quase perfeitas no interior de uma peça de âmbar procedente de Myanmar, é descrito como o menor dinossauro que já foi descoberto. Mas o animal é tão fora do comum que os pesquisadores que o descreveram não podem descartar a possibilidade de se tratar de um réptil diferente.

Os paleontólogos têm se defrontado com dilemas éticos a respeito de espécimes fósseis cientificamente importantes no passado, como no caso do fóssil de dinossauro que foi contrabandeado da Mongólia e acabou nos Estados Unidos. Mas muitos cientistas afirmam que o que está em jogo é diferente quando se tata do âmbar de Myanmar, Steve Brusatte, um paleontólogo da Universidade de Edimburgo, não quis comentar o valor científico de um pequeno fóssil semelhante a um pássaro preso no âmbar.

“Esta é realmente uma situação espinhosa”, ele disse. “Fico muito preocupado porque a venda destes fósseis pode estar financiando a guerra e a violência em Myanmar, e por esta razão decidi recentemente declinar as oportunidades de estudar o âmbar de Burma ou rever estudos sobre o assunto”.

Muitos organismos preservados em âmbar são raros, e dispensar as oportunidades de estudá-los significa que possivelmente os especialistas acabarão perdendo descobertas que poderiam mudar a nossa compreensão da evolução. “A conclusão é esperar que a situação em Myanmar se estabilize e o país supere o atual conflito antes de tocarmos neste material,” disse Thomas Carr, um paleontólogo que se dedica ao estudo dos vertebrados no Carthage College, em Wisconsin. Ele também declinou comentar o estudo publicado na Nature. “Não é o momento de se trabalhar com estes fósseis”. / TRADUÇÃO DE ANNA CAPOVILLA

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