Cornell Watson/NYT
Cornell Watson/NYT

Quando amor e amizade são construídos pelo silêncio

Como crianças, que brincam sozinhas uma ao lado da outra, casais ou amigos aprenderam, na pandemia, novos modos de se aproximar

Sophie Vershbow, The New York Times - Life/Style

23 de outubro de 2021 | 05h00

“Quer ler em silêncio sentada ao meu lado no Riverside Park?” Mandei essa mensagem para uma amiga numa tarde de domingo, em julho. Eu estava exausta por ter ficado acordada até tarde na noite anterior e apavorada com a aproximação daquelas últimas horas do fim de semana – mas não queria ficar sozinha. “Vamos nos encontrar à uma hora?”, escreveu ela de volta. Arrumei a mochila, animada para passar mais uma tarde sozinha e com uma amiga.

O termo ‘brincadeira paralela’ geralmente é usado quando crianças pequenas brincam de forma independente, lado a lado, mas também pode ser uma maneira valiosa de pensar no relacionamento entre adultos. A socióloga Mildred Parten identificou pela primeira vez o conceito em sua dissertação de 1929 como uma das seis categorias de brincadeiras em grupo na primeira infância. O envolvimento em uma brincadeira paralela é parte importante de como a criança aprende a interagir com outras e tornar-se um ser social. Pense em crianças construindo silenciosamente cada uma a própria torre com blocos ou correndo pelo playground sem realmente interagir. Não se envolvem, mas não estão brincando totalmente sozinhas.

Para os adultos, o que diferencia duas pessoas se ignorando na mesma sala e a brincadeira paralela é a base segura que sustenta seu relacionamento, explicou o dr. Amir Levine, psiquiatra e coautor de Maneiras de Amar: Como a Ciência do Apego Adulto Pode Ajudar Você a Encontrar – e Manter – o Amor. “A brincadeira paralela é uma das marcas de um relacionamento seguro, mas tem de ser feita da maneira certa. Se você sabe que a outra pessoa está disponível e que, se precisar, ela prestará atenção em você, isso lhe dá segurança”, diz Levine.

Relacionamentos e insegurança

Quando você não tem um relacionamento seguro, tentar agir de forma independente do parceiro, enquanto compartilha o mesmo espaço, pode dar errado. Muitas vezes me lembro de uma postagem no Reddit que viralizou no ano passado sobre um homem de 33 anos que destruiu o cobertor que sua namorada de 21 anos passou seis meses tricotando porque se sentia ignorado. De fato, a existência de brincadeiras paralelas em um relacionamento pode ser o termômetro de um relacionamento saudável. 

No entanto, parcerias românticas não são as únicas relações em que a brincadeira paralela sinaliza um apego seguro. Sierra Reed, estrategista social e criativa, comentou que seus amigos mais próximos eram aqueles com quem ela podia estar e não fazer nada. Ela pode trabalhar enquanto um amigo cozinha, por exemplo. “São as pessoas com quem posso estar, sentir o amor e pensar: ‘Isso é perfeito’.”

Brincadeiras paralelas também podem dar uma pista da razão pela qual alguns colegas de quarto se deram melhor na pandemia. “Durante a covid, não podíamos nos afastar com frequência das pessoas com quem convivemos. Embora eu não ache que sempre precisamos de um tempo a sós, às vezes precisamos ‘estar juntos, mas sem interação’.”

Para aqueles que estão lutando para retomar os compromissos sociais depois da vacinação, a brincadeira paralela pode ser uma opção menos opressora do que um jantar ou um evento. Quando a designer gráfica Erin Pollocoff, de Madison, no Wisconsin, recebeu a visita de uma amiga do Michigan neste verão boreal, elas passaram o primeiro fim de semana juntas em mais de um ano lendo, ouvindo música e pintando as unhas. “Ela vai voltar em breve, e planejamos fazer tudo de novo.”

A brincadeira paralela não é algo que só as crianças fazem, é o que procuro fazer quando preciso de uma maneira mais suave de estar com quem amo. É o conforto que procuro quando mando uma mensagem para uma amiga pedindo que ela passe a tarde lendo ao meu lado no Central Park.

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