Josh Barrett/A24
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Quando as cineastas conseguem contar suas histórias de origem

Filmes sobre homens que fazem filmes são comuns, mas as autoras não costumam ter essa chance. Essa é apenas uma das razões pelas quais dois novos lançamentos são tão surpreendentes

Beatrice Loayza, The New York Times - Life/Style

30 de dezembro de 2021 | 05h00

Os recém-lançados “The Souvenir Part II” e “Bergman Island” são ambos filmes de mestres modernos que não apenas se aprofundam no processo de filmagem, mas também se inspiram na vida pessoal das próprias cineastas.

Isso soa familiar? Filmes autorreflexivos como esses praticamente se duplicam como ritos de passagem de autoria - pense em "8 1/2", a ode sedutora de Federico Fellini ao bloqueio criativo com Marcello Mastroianni interpretando uma versão do cineasta; “A noite americana”, a comédia caótica de François Truffaut sobre a colaboração artística estrelando o próprio Truffaut na cadeira do diretor; e, mais recentemente, “Dor e Glória”, melodrama de Pedro Almodóvar sobre um cineasta idoso (Antonio Banderas) em crise. A lista continua, mas com os filmes mais recentes, há uma distinção crucial: os mestres em questão são mulheres.

“The Souvenir Part II” de Joanna Hogg e “Bergman Island” de Mia Hansen-Love giram em torno de duas cineastas, avatares das diretoras, navegando em seus desejos, relacionamentos e buscas criativas de maneiras que revigoram totalmente o gênero autorreferencial. Destacando as dúvidas intelectuais e os processos de dois tipos muito diferentes de mulheres, esses filmes também levantam questões sutis sobre a disparidade de gênero na indústria do cinema e as maneiras únicas pelas quais as mulheres artistas se expressam. E, de forma revigorante, esses filmes nunca entram em discursos óbvios e autocongratulatórios sobre sexismo - sua magia é muito mais potente e reveladora.

“The Souvenir Part II” é a sequência do drama de Hogg de 2019 sobre uma gentil estudante de cinema que se envolve em um romance tenso e trágico com um viciado em heroína sedutor. O novo filme mais uma vez se baseia generosamente nos primeiros anos de Hogg estudando na National Film and Television School em Beaconsfield, Inglaterra. Ainda se recuperando da morte de seu amante, Julie (Honor Swinton Byrne) precisa se recompor. As demandas para finalizar o filme de sua tese - um drama sobre um relacionamento baseado em suas memórias, ou seja, os acontecimentos do primeiro filme - a impulsionam a se tornar uma pessoa mais autoconfiante, transformada pelos poderes catárticos do trabalho criativo. No final, a apresentação do filme de Julie se duplica como um mergulho em seu subconsciente, uma fantasia Technicolor semelhante aos finais delirantemente alegres dos musicais da era dourada do cinema e um resumo brilhante para o casamento entre a vida e a arte.

Nas notas para a imprensa, Hogg disse que apesar de ter sido “terrivelmente introvertida” na escola de cinema, ela tinha “uma ideia muito clara de onde queria ir, então fui capaz de calar as vozes, geralmente de homens, que diziam 'você não pode fazer um filme assim '”.

Na verdade, vemos Julie enfrentar o ceticismo de seu próprio elenco e equipe, que compartilham dúvidas sobre seu estilo de direção pelas suas costas ou mesmo diretamente como no caso de uma discussão particularmente tempestuosa com um colega grosseiro. Em uma conversa com um comitê de orientação acadêmica, Julie precisa ser firme diante de duvidosos veteranos do cinema acostumados a certas práticas rígidas.

Os métodos de Hogg são altamente improvisados - seus roteiros contêm pouco diálogo e, ao invés disso, são preenchidos com descrições, referências a memórias e imagens particulares que podem encorajar improvisos e um tipo mais orgânico de criação.

Agora com 61 anos e décadas de carreira, Hogg tem espaço para experimentar. Embora não esteja trabalhando exatamente em filmes de estúdio caros e elaborados, ela usufrui de privilégios e liberdade que geralmente não são concedidos a cineastas mulheres.

Até hoje, a palavra "autor" traz à mente um clube de meninos. Considere como novos filmes de diretores homens rotulados de visionários como Christopher Nolan, Quentin Tarantino ou Wes Anderson são tratados como grandes eventos. O culto ao gênio masculino mostra-se claramente se pensarmos nos tipos de investimento, tempo e espaço dados para que o chamado gênio floresça. Corrigir o desequilíbrio de gênero na indústria cinematográfica não é apenas uma questão de criar mais oportunidades para as mulheres - na verdade, cumprir as cotas -, mas acreditar nas visões únicas das mulheres artistas e investir fortemente no cultivo dessas visões.

As discrepâncias entre a forma com a qual cineastas homens e mulheres são tratados são colocadas sob uma lente de aumento em "Bergman Island". Chris (Vicky Krieps) e Tony (Tim Roth), ambos diretores, vão para a ilha onde Ingmar Bergman filmou vários de seus filmes para se concentrarem independentemente em seus novos roteiros. Mia Hansen-Love, que estava em um relacionamento de 15 anos com o cineasta Olivier Assayas ("Irma Vep", "Personal Shopper"), mostra Chris procrastinando e sofrendo de um bloqueio extremo de escrita, enquanto Tony diligentemente preenche página após página de seu caderno com material sexualmente questionável. Ah, ser um autor! Enquanto Chris, cheia de dúvidas, perde tempo explorando a ilha, Tony , mais conhecido, realiza questionamentos públicos e recebe elogios de fãs dedicados. E quando Chris finalmente compartilha os detalhes de sua última ideia para um filme, Tony parece distraído.

Não importa, Hansen-Love parece dizer. Se Tony não for, o público será totalmente cativado pelo mundo dos sonhos de Chris. Um filme dentro de um filme se desenrola, um romance sufocante entre um casal mais jovem (Mia Wasikowska e Anders Danielsen Lie) que também se passa na Ilha de Faro e parece reconfigurar as frustrações e ansiedades de Chris em uma forma nova e visceral.

Tanto “Bergman Island” quanto “The Souvenir Part II” mostram uma compreensão íntima do potencial libertador da arte, o poder que a ficção e a fantasia proporcionam aos indivíduos que ainda estão em busca de si mesmos. Essas não são aventuras exclusivamente femininas - qualquer pessoa que entende o que significa ser diminuída e desprezada encontrará consolo na possibilidade de uma alternativa, uma saída para a  expressão pessoal que transforma o trauma, o medo e a insegurança em uma fonte de satisfação e força.

Crucialmente, Julie e Chris não são mostradas deleitando-se com o sucesso de seus filmes, se vingando de seus céticos homens ou fechando negócios multimilionários. Seus triunfos são privados, com base na satisfação de criar algo verdadeiro e bonito, apesar de suas criadoras vulneráveis - Chris adormece no estúdio de Bergman e acorda no futuro quando sua própria filmagem chega ao fim, a aprovação de seu marido e a imponente figura cinematográfica tão central para seu desenvolvimento artístico transformam-se em um brilho no passado. Estamos no território dela agora. /TRADUÇÃO LÍVIA BUELONI GONÇALVES

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